Putin e Xi vão encontrar-se para a semana. O que é que isso significa?

8 set, 04:16

O encontro sela o aprofundamento da relação entre os dois países desde o início da invasão da Rússia à Ucrânia. As exportações russas para a China dispararam, graças aos combustíveis, e vão passar a ser pagas em rublos e yuans

A tendência é clara: desde o início da invasão da Rússia à Ucrânia, Moscovo e Pequim têm-se aproximado cada vez mais. Não são apenas as declarações políticas sobre a amizade e a parceria estratégica “sem limites” entre os dois países - são ações concretas no plano diplomático, económico e militar que concretizam uma proximidade cada vez maior, à medida que se aprofunda o fosso entre as democracias que estão do lado da Ucrânia, e os países (muitos deles, regimes iliberais) que se colocam do lado da Rússia. A proclamada “neutralidade” da China, tantas vezes afirmada no início do conflito, há muito que foi atropelada pelo indisfarçável alinhamento com o Kremlin. Na semana que vem, a solidez do eixo Moscovo-Pequim será reafirmada, ao vivo e a cores, pelos homens-fortes dos dois países.

O encontro entre Vladimir Putin e Xi Jinping acontecerá no Uzbequistão, onde os dois chefes de Estado estarão presentes na reunião de dois dias da Organização de Cooperação de Xangai, que arranca a 15 de Setembro.

A reunião com Xi foi anunciada ontem pelo líder russo, num encontro com o presidente do Congresso Nacional do Povo Chinês, Li Zhanshu, que representou o seu país ao mais alto nível no Fórum Económico Oriental, em Vladivostok, onde Putin discursou, apresentando um quadro cor-de-rosa sobre o estado da economia russa. Li é a terceira figura da hierarquia chinesa, e a sua presença em Vladivostok foi descrita pelo Kremlin como mais uma prova da “natureza especial das relações russo-chinesas".

"Amizade sem limites"

A reunião entre Putin e Xi será a primeira desde 4 de fevereiro, quando os dois líderes se encontraram em Pequim, à margem do arranque dos Jogos Olímpicos de Inverno. No momento dessa reunião, as tropas russas já se estavam a concentrar junto às fronteiras da Ucrânia, tanto na Rússia como na Bielorrússia, e já eram notórios os preparativos para a invasão. Conforme se soube depois, por essa altura os serviços secretos norte-americanos já haviam avisado Pequim de que a guerra contra a Ucrânia estava iminente - mas isso não impediu Xi de receber Putin como um amigo e aliado, e declarar ao mundo a “amizade sem limites” entre os dois países.

A declaração conjunta então emitida deixa clara a aliança estratégica entre a China e a Rússia para contrariar o papel de superpotência dominante dos EUA no panorama global, e forjar uma nova ordem mundial multipolar. A invasão russa da Ucrânia não fez Xi Jinping desviar-se um milímetro desse propósito, apesar de a manobra de Putin ter provocado consequências indesejadas para Pequim, como o reforço da NATO e da aliança entre Washington e as principais democracias da Europa e do Indo-Pacífico.

A China tem apelado a conversações de paz entre os dois lados, mas nunca tomou qualquer iniciativa nesse sentido, apesar dos apelos de Volodomyr Zelensky para que Pequim assumisse o papel de mediador. 

Por outro lado, a diferença no relacionamento com Kiev e com Moscovo é elucidativa. Xi tem mantido conversações telefónicas regulares com Putin desde a invasão da Ucrânia, mas nunca falou ao telefone com Zelensky, apesar de a China alegar neutralidade perante ambas as partes. E, no Conselho de Segurança da ONU, onde tem assento permanente, Pequim defendeu sempre o lado russo, impedindo a adoção de sanções em consequência da invasão.

Tanto a diplomacia chinesa como os meios de comunicação do país têm repetido as alegações russas de que a “operação militar especial” é uma resposta à suposta entrada da Ucrânia na NATO, imputando aos EUA e às suas tentações “hegemónicas” a responsabilidade pelo conflito desencadeado pelo Kremlin.

Em contrapartida, a Rússia foi lesta a colocar-se do lado da China quando esta lançou grandes exercícios militares em torno de Taiwan, em retaliação pela visita de Nancy Pelosi, líder da Câmara dos Representantes dos EUA, à ilha.

Exercícios militares sim, venda de equipamento militar não

Para além do alinhamento político e diplomático, a Rússia e a China têm intensificado as suas relações económicas e a cooperação militar. Esta quarta-feira terminaram os exercícios militares da Rússia no Leste do país (Vostok 2022), nos quais a China participou com milhares de soldados e equipamento pesado. Os militares chineses estiveram ao lado dos russos em manobras aéreas, navais e terrestres, nomeadamente em exercícios de tiro nas Ilhas Curilhas, cuja soberania é reclamada pelo Japão, o que motivou um protesto formal de Tóquio.

No plano militar, a única coisa que a China não parece disposta a fazer é fornecer material de guerra ao seu aliado. Tudo indica que o aparelho militar russo está com dificuldades em substituir as grandes perdas de equipamento e munições registadas em mais de seis meses de guerra, e os serviços secretos dos EUA têm relatado as tentativas do Kremlin para adquirir material de guerra em diversos países. A China seria uma opção óbvia, mas tudo indica que Pequim travou essa possibilidade, tendo em conta as ameaças dos EUA, UE e demais aliados. 

A mensagem foi clara: se a China contribuir para o esforço de guerra da Rússia, será alvo de sanções do ocidente, que tanto poderão recair sobre a compra de produtos chineses como travar todo o acesso a tecnologia de ponta ocidental, nomeadamente aos semi-condutores de design norte-americano, de que a China é altamente dependente. A braços com uma forte travagem da sua economia, Xi não quererá arriscar embargos que possam afundar ainda mais o panorama económico do seu país.

Combustíveis em saldo

Um dos principais apoios da China a Putin em tempo de guerra tem sido a compra de matérias-primas russas, sobretudo combustíveis. A China é altamente dependente de combustíveis importados, e o maior importador de combustível do mundo - e a Rússia acaba de subir ao primeiro lugar entre os fornecedores de petróleo à China, ultrapassando a Arábia Saudita.

A compra de crude russo é altamente vantajosa para a China, que beneficia das dificuldades de escoamento do seu vizinho, e compra com descontos que vão até 30%, sobre o preço dos mercados internacionais.

O valor mensal das importações chinesas da Rússia atingiu um recorde em Agosto, tendo crescido 59,3% em comparação com 2021. O valor das importações chinesas chegou aos 11,2 mil milhões de dólares, de acordo com dados alfandegários divulgados ontem.

Na lista de compras, destacam-se o crude e o gás natural. Nos primeiros sete meses de 2022, a China comprou um total de 2,76 milhões de toneladas de gás natural liquefeito - avaliado em 2,47 mil milhões de dólares. Um valor que quase triplicou face ao período homólogo. Olhando só para o gás russo que chega à China pelo gasoduto Poder da Sibéria, aumentou 63,4% na primeira metade de 2022, de acordo com a Gazprom.

O mesmo se passa em relação ao crude. Em julho, o número de petroleiros que ligaram portos russos a portos chineses era o dobro em relação a janeiro deste ano, mesmo antes da guerra. Na comparação com 2021, a China está a comprar cerca de 10% mais petróleo à Rússia, tendo-se tornado o principal mercado de destino das exportações russas de crude. E isto, apesar da forte desaceleração da economia chinesa ao longo deste ano.

No reverso da medalha, a opção chinesa pelo petróleo russo, com desconto, está a prejudicar as importações a partir de Angola e do Brasil. E países como a Venezuela e o Irão, que eram abastecedores habituais de crude à China, praticamente deixaram de fornecer.

Mecanismo de pagamento sem dólar

O reforço do comércio bilateral entre a Rússia e a China levou os dois países a optar pelas suas moedas para o pagamento destes negócios, em vez do dólar, que é habitualmente a moeda de referência internacional nestes casos. Segundo uma notícia desta quinta-feira do South China Morning Post (SCMP), a Gazprom, o gigante estatal russo de gás, anunciou que "os acordos de fornecimento de gás russo à China serão agora feitos nas moedas nacionais dos dois países, ou seja, o rublo e o yuan". Um acordo para isso mesmo, relativo ao gasoduto Poder da Sibéria, foi assinado na terça-feira entre a Gazprom e a China National Petroleum Corporation.

Segundo o presidente da Gazprom, Alexey Miller, o novo mecanismo de pagamento foi "uma decisão mutuamente benéfica, oportuna, fiável e prática". O jornal de Hong Kong adianta que o acordo será de 50%-50%, ou seja, prevê o pagamento de metade do valor em rublos, a moeda russa, e metade em yuans, a moeda chinesa.

Observadores contactados pelo SCMP consideram que a mudança para pagamento em moedas locais era "muito previsível". "À medida que os laços comerciais entre a China e a Rússia - ligados por terra como vizinhos - se desenvolvem, mesmo sem sanções, é inteiramente concebível que as duas partes façam comércio nas suas próprias moedas", considera Zha Daojiong, professor de estudos internacionais da Universidade de Pequim.

Nick Marro, responsável pelo comércio global na The Economist Intelligence Unit, diz que "este acordo afirma uma ambição a longo prazo para a Rússia e a China na diversificação dos seus sistemas de pagamentos transfronteiriços. Mas a curto prazo, este vai continuar a ser um processo difícil".

Em todo o caso, com a Rússia afastada do sistema internacional de pagamentos SWIFT, e a China sob permanente ameaça de retaliações caso ajude Putin na atual guerra, esta é uma forma de Pequim e Moscovo tentarem isolar-se da pressão ocidental, ao mesmo tempo que fazem mais uma tentativa de impor as suas moedas nas transações internacionais, na esperança de beliscar o predomínio do dólar.

Na análise de Nick Marro, este passo diz-nos também mais qualquer coisa sobre as perspetivas de Putin e Xi sobre os próximos tempos. "Estes desenvolvimentos são também um sinal importante de como a Rússia e a China esperam que as suas relações com o Ocidente se deteriorem a longo prazo, o que inevitavelmente irá gerar algumas tentativas de cooperação económica mais estreita China-Rússia".

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