Para que servem e o que significam os exercícios militares que juntam a Rússia e a China

21 ago, 08:00
China e Rússia

ANÁLISE. A Rússia quer provar que a Ucrânia não limita a sua capacidade militar; a China quer mostrar que não abdica da parceria estratégica com Moscovo. Exercícios deverão focar-se em ameaças vindas do Pacífico: ou seja, dos EUA

Quando o ministro da Defesa da China anunciou, na quarta-feira, que o seu país irá participar nos grandes exercícios militares Vostok organizados pela Rússia, entre 30 de agosto e 5 de setembro, militares russos e chineses estavam lado a lado há vários dias nos Jogos Militares Internacionais, também organizados por Moscovo. Os Jogos Militares são uma espécie de Jogos Sem Fronteiras da guerra, em que militares de vários países competem para saber quem é, por exemplo, o melhor sniper ou o melhor condutor de tanques de combate; os exercícios Vostok são manobras militares em grande escala para melhorar a prontidão e capacidade operacional conjunta das Forças Armadas dos dois países - mas em ambos os casos a mensagem enviada por Pequim é a mesma: “business as usual”, a invasão da Ucrânia nada mudou na relação da China com a Rússia, nomeadamente do ponto de vista de segurança e defesa.

Por coincidência (ou talvez não), a lista de participantes nos dois eventos tem vários nomes repetidos. Para além da Rússia e da China, também a Índia, a Bielorrússia, a Mongólia e o Tajiquistão estão na lista de participantes dos Jogos Militares, que decorrem até 27 de agosto, e dos exercícios Vostok 2022 - nestes ainda estarão “outros países”, ainda não especificados, que foram convidados para assistir às demonstrações de força de Vladimir Putin, Xi Jinping e seus amigos (talvez sejam alguns dos outros participantes nos Jogos Militares, que contam com “concorrentes” de quase 40 países e territórios, incluindo Venezuela, Irão, Casaquistão ou Ruanda).

A comunicação social chinesa tem dado alguma atenção a estes estranhos Jogos sem Fronteiras da guerra, inventados pela Rússia em 2015. O facto de três modalidades da competição se disputarem em território chinês justificará uma parte dessa atenção - o site China Military tem por estes dias galerias de imagens da corrida individual de tanques (se está curioso, venceu um condutor chinês). Mas a principal razão será passar a imagem de militares chineses e russos lado a lado, mesmo que para saber qual é mais rápido a conduzir um carro de combate numa corrida de obstáculos.

Desde que invadiu a Ucrânia e foi alvo de condenações na Assembleia Geral das Nações Unidas e de sanções de dezenas de países ocidentais e asiáticos, a Rússia tem feito um esforço para mostrar que não está isolada no palco global - o ministro dos Negócios Estrangeiro, Sergei Lavrov, tem feito incursões por África, Médio Oriente e Ásia - e o próprio Putin tem feito por estreitar relações com países como a Turquia, a Coreia do Norte ou a China.

Os exercícios militares que arrancam daqui a 9 dias servem para mostrar que a Rússia não só não está isolada do ponto de vista diplomático, como conta com parceiros de peso no plano militar. Para Moscovo, a presença da China e da Índia no Vostok 2022 são a cereja no topo do bolo.

Aprofundar a cooperação militar

O Ministério da Defesa da China disse que a sua participação nos exercícios faz parte de um acordo de cooperação bilateral anual em vigor com a Rússia - uma explicação que frisa que nada mudou na relação militar entre os dois países, apesar de a Rússia ter violado o direito internacional ao invadir a Ucrânia, com isso contrariando também o princípio de intangibilidade das fronteiras que é normalmente defendido pela China nos fóruns internacionais.

Com a presença nestes exercícios, Pequim sinaliza também a vontade de continuar a aprofundar a cooperação com Moscovo a nível militar. 

"O objetivo é aprofundar a cooperação prática e amigável com os exércitos dos países participantes, aumentar o nível de colaboração estratégica entre as partes participantes, e reforçar a capacidade de responder a várias ameaças à segurança", disse a declaração do Ministério da Defesa chinês.

Mas, segundo observadores citados pelo jornal Global Times, do Partido Comunista Chinês, “a cooperação em matéria militar e outros domínios entre a China e a Rússia será ainda melhorada, apesar da crescente propaganda dos EUA e do Ocidente”. Os peritos chineses citados por este jornal de Pequim em língua inglesa asseguram, de resto, que o estreitamento dos laços China-Rússia será “crucial para defender a estabilidade global e para contrariar a hegemonia dos EUA”.

Militares chineses em exercícios militares conjuntos na Rússia, em 2007. AP Photo/Ivan Sekretarev

A manta russa estica para a Ucrânia e para Oriente?

Se, do lado chinês, o propósito é dar provas da “cooperação sem limites” que Xi Jinping e Vladimir Putin prometeram um ao outro nas vésperas da guerra, quando se encontraram pessoalmente pela última vez, em Pequim, e mostrar que a pressão do Ocidente não condiciona as opções da China quanto aos seus “aliados estratégicos”, do lado russo estes exercícios visam passar também uma outra mensagem: a de que a “Grande Rússia” é capaz de conduzir uma “operação militar especial” na sua frente ocidental e, em simultâneo, desenvolver grandes exercícios militares no seu extremo oriental.

Apesar de todos os custos (financeiros, logísticos, humanos e reputacionais) da guerra na Ucrânia que já leva quase seis meses, Putin quer mostrar que mantém a capacidade de defender todo o seu território, como se nada de especial se passasse. 

No mês passado, quando anunciou a realização destes exercícios, o Ministério da Defesa da Rússia salientou que o país não cancelou quaisquer atividades de formação ou cooperação internacional no plano militar, e que os exercícios contariam com todo o pessoal, armas e equipamento necessários. "Chamamos a vossa atenção para o facto de apenas uma parte das Forças Armadas da Federação Russa estar envolvida na operação militar especial [invasão da Ucrânia], cujo número é suficiente e bastante para cumprir todas as tarefas estabelecidas pelo Comando Supremo", dizia a declaração. Note-se que os exercícios serão comandados pelo Chefe do Estado-Maior General da Rússia, Valery Gerasimov.

Porém, tendo em conta as perdas materiais e humanas que se estima que a Rússia já terá sofrido na Ucrânia (os EUA apontam para mais de 15 mil mortos e três vezes essa cifra em feridos), esta declaração pode não passar de bravata e propaganda. 

Os exercícios ocorrem no leste da Rússia, perto da China (“Vostok” significa Leste, e as manobras são organizadas pelo distrito militar oriental da Rússia, que inclui parte da Sibéria e tem o seu quartel-general em Khabarovsk, perto da fronteira chinesa). Sabe-se que tropas russas nas regiões ocidentais e meridionais têm desempenhado um papel central no conflito com a Ucrânia, mas mesmo as forças dos territórios orientais têm sido chamadas à frente de combate.

"Muitas tropas e equipamento do distrito militar oriental já foram destacados, substituídos, perdidos e mortos na Ucrânia desde Fevereiro, pelo que isto será interessante para ver o que eles conseguem preservar", disse à Reuters Mathieu Boulegue, um especialista militar do grupo de reflexão Chatham House, de Londres.

Cenário de guerra: ameaça vinda do Pacífico (leia-se: EUA)

Não se sabe qual o dispositivo que será destacado pela Rússia, pela China, e pelos demais países envolvidos para estes exercícios, mas há um termo de comparação: as anteriores manobras Vostok, em 2018, tiveram uma escala massiva, com quase 300 mil soldados envolvidos. Foi nesse ano que, pela primeira vez, o Exército de Libertação Popular (ELP) chinês participou nestas operações - não há certeza sobre o número de militares chineses envolvidos, mas as notícias dessa altura falam em quantidades significativas de homens e equipamento.

Desde 2018 que a Rússia não repete um exercício Vostok. No ano passado, aconteceram os exercícios Zapad, na região de Nizhny Novgoroda, bastante mais a oeste. Bielorrússia, Índia, Paquistão, Mongólia, Cazaquistão, Quirguizistão, Arménia e Sri Lanka participaram. A China fez exercícios conjuntos com a Rússia em agosto de 2021. 

É desconhecida a dimensão das forças que serão empenhadas agora por Pequim, mas essa escala poderá fornecer pistas significativas sobre o grau de envolvimento militar que Xi Jinping está disposto a empenhar neste momento ao lado de Putin.

Apesar do valor simbólico destes exercícios e da sua lista de participantes, não está em causa apenas a projeção de uma certa imagem por parte da Rússia e da China. Os exercícios têm objetivos específicos e, embora Pequim garanta que não têm "relação com a atual situação internacional e regional", tudo parece encaixar no atual momento, tanto do lado russo como chinês.

Peritos chineses ouvidos pelo Global Times salientam que um dos pontos centrais da formação combinada deste ano é lidar com a potencial ameaça vinda do Oceano Pacífico. As manobras visam praticar o emprego de grupos de combate para garantir a segurança militar na região oriental da Rússia e combinarão exercícios em campos tradicionais e não-tradicionais, e também exercícios alvo sobre possíveis ameaças, nomeadamente colocadas pelos EUA a partir do Pacífico, segundo Song Zhongping, um perito militar chinês e comentador de televisão.

Um contexto bastante específico, que encaixa nas tensões entre a Rússia e os Estados Unidos, mas sobretudo entre os Estados Unidos e a China na questão do Estreito de Taiwan. E, sobretudo, um cenário bastante diferente do dos últimos quatro grandes exercícios militares multinacionais promovidos pela Rússia, que se concentraram mais na luta contra o separatismo, terrorismo e extremismo.

EUA e Japão preocupados com “relação florescente”

Apesar das tentativas da China para parecer neutral na guerra da Ucrânia (a que Pequim, tal como Moscovo, não chama “guerra”, mas a “questão da Ucrânia”), o alinhamento com a Rússia tem sido evidente. Não apenas nas votações no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e no facto de a China nunca ter condenado a invasão russa. São também sintomáticos o facto de Xi Jinping nunca ter falado com Volodomyr Zelensky desde que a guerra começou (apesar da disponibilidade deste), e o pormenor de a China nunca ter promovido qualquer iniciativa negocial, apesar de fazer repetidos apelos às negociações e estar em posição inigualável para exercer o seu ascendente sobre a Rússia. Entretanto, a China tornou-se o parceiro comercial por excelência da Rússia, aumentando fortemente as suas importações de energia e outras matérias-primas, vendidas a preço de saldo devido às sanções ocidentais às exportações russas.

Em contrapartida, a Rússia foi dos primeiros países a colocar-se do lado da China durante a crise do Estreito de Taiwan, repetindo as acusações de “provocação” contra Nancy Pelosi e os Estados Unidos.

Um alinhamento que o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Ned Price, considera preocupante, devido à "relação florescente no domínio da segurança" entre Moscovo e Pequim. 

A possibilidade de se consolidar um “ticket” Moscovo/Pequim no domínio militar é uma das maiores preocupações de Washington, não apenas em relação à guerra na Ucrânia, mas a médio e longo prazo. Essa ameaça tem sido também identificada pelo Japão, que é o principal aliado dos EUA no Pacífico, e vive ao lado da China, da Rússia e de Taiwan.

No mês passado, o governo de Tóquio publicou a edição de 2022 do Livro Branco de Segurança, e identificou essa aproximação entre a Rússia e a China como um dos maiores riscos para a segurança do Japão e de toda a região. “Nas proximidades do Japão, a Rússia tomou medidas para reforçar a cooperação com a China, tais como através de voos conjuntos de bombardeiros e navegações conjuntas de navios de guerra envolvendo as forças armadas russas e chinesas, bem como medidas para retratar essa cooperação militar como ‘coordenação estratégica’. Estas tendências merecem preocupação e devem continuar a ser acompanhadas de perto no futuro”, lê-se no documento.

Uma tendência que já vem de há alguns anos, desde que Xi Jinping e Vladimir Putin criaram uma linha direta e aproximaram os dois países, num esforço para reequilibrar o poder global dos EUA. As manobras militares bilaterais são um dos reflexos dessa cooperação.

Há um ano, a Rússia e a China realizaram exercícios militares conjuntos no centro-norte da China, envolvendo mais de 10 mil soldados. Segundo a Reuters, o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, elogiou os exercícios Sibu/Cooperation-2021 e sugeriu que poderiam ser desenvolvidos mais. Em Outubro, a Rússia e a China realizaram simulacros navais conjuntos no Mar do Japão. Dias mais tarde, navios de guerra russos e chineses realizaram as suas primeiras patrulhas conjuntas no Pacífico ocidental - precisamente uma das ações que despertaram os sinais de alarme no Japão.

Em novembro, a Coreia do Sul disse ter lançado caças de combate após dois aviões de guerra chineses e sete russos terem invadido a sua zona de identificação de defesa aérea, durante aquilo a que Pequim chamou de treino regular.

Já após a invasão da Ucrânia, a China juntou-se à Rússia num voo conjunto de bombardeiros de longo alcance dos dois países. Em maio, seis bombardeiros estratégicos chineses e russos sobrevoaram o Mar do Japão, o Mar da China Oriental e o Pacífico no dia em que os líderes do Japão, dos Estados Unidos, da Austrália e da Índia se reuniram em Tóquio para a cimeira da Quad. Uma "demonstração de força" contra o Japão, que considerou o voo de elevado “nível de provocação".

EUA em manobras militares com a Coreia do Sul

Mas, para chineses e russos, a aproximação é a resposta às alianças forjadas pelos Estados Unidos, seja na Europa, seja no Indo-Pacífico. "Como os dois países entraram na parceria estratégica global na nova era, a cooperação entre as duas forças armadas será certamente ainda melhorada. Se os EUA podem reunir aliados na UE e na Ásia para conduzir forças militares a nível global com membros da NATO, Coreia do Sul, Japão, Austrália ou outros países, porque não pode a China ter exercícios militares com a Rússia"?, diz Song. 

Para este observador chinês, em comparação com os exercícios dos EUA e dos seus aliados, os exercícios da China e da Rússia são limitados. No entanto, diz, esses exercícios conjuntos entre os dois países deverão tornar-se mais frequentes e normalizados. 

Os exercícios entre os EUA e os seus aliados do Indo-Pacífico têm-se, de facto, acentuado desde que a China se tornou mais assertiva como presença militar nesta região, e com reivindicações de soberania sobre águas internacionais.

Na semana passada, entre 8 a 14 de Agosto, os EUA, Japão e Coreia do Sul participaram num exercício de alerta de mísseis e de busca e seguimento de mísseis balísticos durante as manobras multinacionais Pacific Dragon, ao largo do Havai - exercícios que só foram revelados mais tarde, para não agudizar o clima em torno da crise de Taiwan. E, de 22 de Agosto a 1 de Setembro, os Estados Unidos e a Coreia do Sul irão realizar o seu maior treino militar combinado, envolvendo dezenas de milhares de militares. Os exercícios deverão envolver meios aéreos, navais e terrestres, e refletem a preocupação de Washington e Seul face às ameaças crescentes colocadas pelos ensaios de mísseis por parte da Coreia do Norte. 

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