Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM
opinião
Comentador da CNN Portugal. Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE. Diretor do European Observatory on Illiberalism and Culture Wars. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, na polarização e nos impactos nos direitos fundamentais. Analisa, ainda, questões de geopolítica contemporânea

O Império do Meio e a ampulheta de Pequim

29 mai, 10:11
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

As romarias de Donald Trump e de Vladimir Putin a Pequim serviram um propósito essencial: provar que a nova ordem internacional está a deslocar o seu centro de gravidade para a capital chinesa. O facto de ambos procurarem Xi Jinping num intervalo tão curto transformou Pequim não apenas num palco diplomático, mas numa espécie de tribunal informal da nova correlação de forças. Esse facto mostra-nos que apesar de termos regressado a uma lógica imperialista e hobbesiana da força e do que Ernst Jünger considerava a natureza das nações – a beligerância –, a ordem internacional ainda valoriza a previsibilidade. 
 
Esse facto não é de menor amplitude, já que representa um revés da estratégia Trump-Hegseth de preservar e ampliar a hegemonia americana no mundo por meio de uma espécie de “doutrina cowboy” que substitui a doutrina pós-Guerra Fria de “polícia da ordem internacional”.  Essa alteração tornou os EUA não no garante da estabilidade, mas no fator de imprevisibilidade, com Donald Trump a transitar da ambição de ser o peacemaker para se afirmar como warmaker. O paradoxo é evidente: a América continua a ser a maior potência militar, mas já não consegue converter automaticamente força em autoridade.
 
Tal alteração de postura abriu o caminho para que Xi Jinping pudesse aparecer como o grande mediador internacional, ou, pelo menos, como o ator indispensável sem o qual nenhuma estabilização parece plenamente credível. É esse capital de indispensabilidade – mais do que uma mediação formal – que a China procura acumular.
 
É aqui que entra a metáfora da ampulheta. Para Donald Trump, que tem as midterms à porta, a areia corre mais rápido do que o tempo da resolução do mega-dossier do Irão, que inclui Ormuz, o urânio enriquecido, as sanções e os ativos congelados, além da questão de longo termo da arquitetura de segurança e influência regional de Israel e do Irão em território libanês. Trata-se de um megaprocesso que torna o megaprocesso do Marquês uma mera querela jurídica. A comparação é eficaz pelo exagero, mas talvez ganhe se for lida como ironia: o problema iraniano é simultaneamente nuclear, energético, regional, eleitoral e civilizacional. O espírito transacional de Donald Trump não chega para resolver questões de fundo, mas pode permitir uma aparência de normalidade provisória que acalme os mercados e que ele possa vender como uma retumbante vitória.
 
Mas para a China a areia corre devagar, suave, porque a sua visão da história é diferente, sem urgências eleitorais, com a “paciência de chinês” de quem sabe estar a construir um novo mundo que recupera a glória imperial, cujo horizonte estratégico é o ano de 2949, marco do centenário da fundação da República Popular da China, altura em que Xi Jinping quererá ter concluído o seu programa de “rejuvenescimento” da China: autonomia tecnológica e militar, influência regional, reunificação com Taiwan (na narrativa de Pequim, o “regresso a casa” de território chinês; na realidade política, a absorção de uma sociedade democrática que nunca foi governada pela República Popular da China) colocando fim a um resquício da Guerra Fria e do imperialismo americano naquela parte do globo e, claro, uma preponderância económica global que lhe confere status geopolítico na nova arquitetura global. 
 
Numa só ideia: a China quer voltar a ser o “império do meio”, considerando a sua visão do globo que posiciona a China ao meio do mapa mundi, como pivô de toda a ordem mundial. Trata-se de um retorno a uma autoperceção civilizacional antiga, agora reativada por um Estado leninista tecnologicamente sofisticado e por uma economia integrada no capitalismo global. 
 
Nesse quadro de leitura histórica e geopolítica, o regime político interessa menos como rutura do que como tradução histórica: a China é uma civilização de continuidade, capaz de atravessar formas imperiais, republicanas, comunistas e capitalistas de Estado sem abdicar da sua autoperceção como centro ordenador. A roupagem muda; a ambição de centralidade permanece.
 

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Colunistas

Mais Colunistas