Quem é Zhang Gaoli, o homem acusado de abusar sexualmente da tenista Peng Shuai?

CNN , Nectar Gan e Steve George
19 jan, 22:00
Zhang Gaoli

O antigo vice-primeiro-ministro chinês Zhang Gaoli, outrora o rosto dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2022, está envolvido num escândalo sexual com repercussões internacionais após a denúncia da tenista Peng Shuai

Antes de se reformar e abandonar o cargo de vice-primeiro-ministro do regime comunista chinês, Zhang Gaoli foi o rosto da organização dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022.

No âmbito das suas funções, Zhang liderou um grupo de trabalho para a preparação dos Jogos de Pequim, tendo vistoriado as infraestruturas em construção, visitado atletas, apresentado os emblemas oficiais e participado em várias reuniões para coordenar todos os preparativos.

Em 2016, Zhang recebeu o presidente do Comité Olímpico Internacional (IOC), Thomas Bach, na sede do governo chinês em Pequim, deixando a promessa de organizar um evento olímpico "fantástico, extraordinário e de excelência".

Mas agora, três anos após se ter reformado e a menos de três meses do arranque dos Jogos Olímpicos, Zhang vê-se envolvido num escândalo sexual que gerou indignação internacional e veio intensificar os apelos ao boicote do evento que o ex-dirigente ajudou a organizar.

No início de dezembro de 2020, Zhang, de 75 anos, foi acusado pela tenista chinesa Peng Shuai, de 35 anos, de a ter forçado a manter relações sexuais na residência do ex-membro do Governo após este se ter reformado, há três anos. A bicampeã de pares de torneios do Grand Slam também admitiu ter mantido uma relação intermitente com Zhang durante cerca de uma década.

"Porque tiveste de voltar para mim, levar-me para tua casa para me forçares a fazer sexo contigo?”, alegou Peng nas redes sociais, numa publicação de 2 de novembro de 2021 que foi eliminada alguns minutos depois.

"Sei que para alguém da tua eminência, vice-primeiro-ministro Zhang Gaoli, disseste que não tinhas medo. Mas mesmo que seja só eu, como um ovo quando bate numa pedra ou uma traça a voar em direção às chamas, a namorar a autodestruição, vou dizer a verdade sobre nós," escreveu a tenista.

As autoridades chinesas apressaram-se a censurar e silenciar Peng. Mas com o passar das semanas, o mundo do ténis feminino começou a exigir explicações quanto ao paradeiro de Peng, bem como uma investigação a fundo às alegações contra Zhang.

Perante a crescente preocupação internacional quanto à segurança e bem-estar da tenista, funcionários dos meios de comunicação controlados pelo regime chinês e do órgão desportivo estatal divulgaram uma série de fotografias e vídeos de Peng para efeitos de “prova de vida”.

Bach, o presidente do IOC fotografado com Zhang em pelo menos uma ocasião,  falou com Peng via videochamada, sob o olhar atento de um representante desportivo do regime chinês, na qual a atleta olímpica insistiu estar “bem e a salvo” e pediu para que “respeitassem a sua privacidade”.

Mas Pequim esquivou-se a tecer qualquer comentário relativamente às alegações de abuso sexual de Peng, com a censura chinesa a bloquear todas as transmissões da CNN sobre o tema no país.

Enquanto isso, Zhang tem-se mantido longe do olhar público e não divulgou nenhum comunicado de resposta à acusação.

Desde que se reformou, Zhang tem mantido um perfil discreto e desapareceu da vida pública, não existindo nenhuma informação publicada quanto ao seu paradeiro. A CNN tentou por várias vezes obter um comentário do Gabinete de Informação do Conselho de Estado chinês – que trata de questões relacionadas com a imprensa em nome do Governo central –, mas sem sucesso.

Quem é Zhang Gaoli?

Durante o exercício do seu mandato, Zhang passava a imagem de uma figura sóbria e circunspecta, mesmo pelos padrões do Partido Comunista, onde os mais altos cargos seguem frequentemente um rigoroso guião em missões oficiais e se mantêm longe dos holofotes.

Tanto em fotografias como na televisão estatal, o seu semblante era raramente expressivo e aparecia sempre com um cabelo negro impecavelmente penteado para trás – um penteado tradicionalmente adotado pelos altos dirigentes do regime chinês.

De acordo com um perfil elaborado em 2013 pelos meios de comunicação estatais, Zhang gosta de ténis, de ler e de jogar xadrez chinês nos seus tempos livres.

"Não havia nada de extraordinário nele. Era o típico tecnocrata formado e cultivado pelo sistema do Partido Comunista Chinês”, disse Deng Yuwen, antigo editor de um jornal oficial do partido que agora reside nos Estados Unidos.

"Não tinha nenhuma conquista notável nem tinha estado envolvido em nenhum escândalo em particular. Era uma figura discreta e isenta de controvérsia."

Mesmo após se tornar oficialmente um dos sete homens mais poderosos da China, Zhang raramente se destacava entre os seus colegas do Comité Permanente do Politburo do Partido Comunista, onde exerceu funções ao lado do presidente Xi Jinping entre 2012 e 2017.

Mas a sua personalidade discreta contrastava com o seu imenso poder. Enquanto vice-primeiro-ministro, foi responsável por questões da economia chinesa, pelo setor energético e pela iniciativa “Cintura e Rota” de Xi, bem como pelos preparativos dos Jogos de Inverno de Pequim.

Zhang Gaoli (à esquerda) com os restantes seis membros do Comité Permanente do Politburo do Partido Comunista no Grande Salão do Povo, em Pequim, no dia 15 de novembro de 2012.

Ao contrário de Xi, que nasceu no seio da elite comunista – é filho de um herói da revolução chinesa – e recebeu assim estatuto e prestígio dentro do partido, Zhang vem de uma família humilde.

Nascido em 1946 numa pequena vila costeira na província de Fujian, no sudeste da China, Zhang era filho de agricultores e cresceu pobre. Perdeu o pai antes de completar três anos de idade e começou em tenra idade a trabalhar no campo e a pescar para ajudar a mãe, segundo informação dos meios de comunicação estatais.

Mas Zhang empenhou-se nos estudos e foi aceite na Faculdade de Economia da Universidade de Xiamen, uma instituição de prestígio na sua província natal. Quando concluiu os estudos, a China sentia os efeitos do caos causado pela Revolução Cultural, uma década de agitação política e social desencadeada pelo falecido presidente Mao Tse Tung em 1966.

Zhang foi destacado para um posto humilde numa empresa pública do setor petrolífero na província vizinha de Guangdong, a transportar sacas de cimento no armazém. De acordo com os meios de comunicação públicos chineses, terá sido na petroleira que Zhang conheceu Kang Jie, uma colega de trabalho com quem viria a casar, embora a informação disponível não adiante pormenores da relação do casal. Zhang foi subindo nas fileiras e assumiu o comando da petrolífera, tendo iniciado a sua carreira política a partir daí.

Zhang continuou a sua ascensão política nas três décadas seguintes. Na década de 1990, recebeu a pasta do planeamento económico de Guangdong e foi pioneiro das reformas económicas chinesas. Em Guangdong, teve um breve mandato como número um do partido em Shenzhen, cidade com uma zona económica especial estabelecida pelo falecido líder supremo Deng Xiaoping e uma das metrópoles chinesas com maior crescimento na época.

Após a viragem do século, Zhang foi transferido para Shandong, a terceira maior economia provincial da China e, em 2007, assumiu a liderança de Tianjin, uma importante cidade portuária perto de Pequim.

Zhang Gaoli, então secretário do Partido Comunista de Tianjin, num painel de discussão da delegação de Tianjin por ocasião do 18.º Congresso do Partido, no Grande Salão do Povo, em Pequim, no dia 9 de novembro de 2012.

Quais são as alegações?

Foi em Tianjin que Zhang alegadamente iniciou uma relação sexual com Peng, de acordo com o que Peng divulgou nas redes sociais. Na publicação, Peng alegava ter tido relações sexuais com Zhang pela primeira vez há mais de dez anos, embora não tenha explicado as circunstâncias do encontro.

Em 2012, quando Xi assumiu a liderança do partido, Zhang foi promovido ao Comité Permanente do Politburo em Pequim.

Mas há três anos, de acordo com a publicação, após Zhang se ter reformado, Peng foi convidada para ir jogar ténis a Pequim. Depois disso, escreveu Peng, Zhang e a mulher levaram Peng até sua casa, onde Peng alega ter sido pressionada a ter relações sexuais com Zhang.

"Naquela tarde, eu não consenti e passei o tempo todo a chorar”, podia ler-se na publicação de Peng. Posteriormente, durante o jantar com Zhang e a mulher, o político terá tentado convencê-la ao ato.

"Disseste que o Universo era tão grande que a Terra não passava de um grão de areia e que os humanos são ainda mais pequenos do que isso. Continuaste a falar, a tentar persuadir-me a libertar-me da minha ‘bagagem emocional’”, alegou Peng na publicação.

A tenista alega que terá acabado por ceder, devido ao pânico e ao medo que sentiu, bem como aos “sentimentos” que nutria por Zhang desde os tempos em que estiveram juntos em Tianjin, segundo a publicação.

A tenista chinesa acusa o antigo dirigente do Partido Comunista de abusos sexuais, o que fez com que fosse censurada

Peng disse que iniciou uma relação extraconjugal com Zhang, mas que foi alvo de “demasiadas injustiças e insultos”. A tenista alegou que o casal se terá chateado em finais de outubro e que Zhang recusou encontrar-se com ela, tendo depois desaparecido.

"Não sei descrever o quão enojada me senti e quantas vezes me perguntei se ainda era humana. Sinto-me um cadáver ambulante. Eu fingia todos os dias, sem saber quem era a verdadeira ‘eu’”, escreveu Peng. A CNN não conseguiu verificar de forma independente a autenticidade da publicação com mais de 1600 palavras.

Numa conferência de imprensa realizada a 23 de novembro, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Zhao Lijian, recusou adiantar se o governo chinês iria abrir uma investigação às alegações de Peng contra Zhang. Repetiu comentários feitos anteriormente à imprensa, dizendo que a situação de Peng “não era um assunto diplomático”.

O ministro acrescentou que o Governo esperava que “a especulação maliciosa” em torno do bem-estar e paradeiro de Peng parasse, acrescentando que o tema não deveria ser politizado.

A publicação original de Peng gerou indignação nas redes sociais chinesas e foi eliminada no espaço de 30 minutos. Desde então, a máquina de censura chinesa tem estado diligentemente a apagar o nome de Peng e qualquer menção, por mais vaga que seja, às alegações que surgiram na Internet.

E muito embora figuras ligadas aos média estatais chineses tenham insistido insistam que Peng está bem em plataformas internacionais bloqueadas na China, não há qualquer menção à tenista nos meios de comunicação nacionais e na esfera da Internet.

Zhang, entretanto, tem-se remetido ao silêncio. A última vez que apareceu em público foi a 1 de julho, em Pequim, durante as celebrações do centenário da fundação do Partido Comunista. O septuagenário foi visto no cimo da Porta da Paz Celestial juntamente com outros líderes já reformados.

Peng Shuai na primeira ronda de individuais no Open da Austrália, em Melbourne, Austrália, no dia 21 de janeiro de 2020.

Vai ser aberta investigação?

A Associação de Ténis Feminino, as Nações Unidas e alguns dos maiores nomes do ténis pediram que fosse aberta uma investigação completa, justa e transparente às alegações de Peng contra Zhang.

Mas, até à data, não há quaisquer indicações de que o caso esteja a ser investigado.

As autoridades chinesas não confirmaram a acusação de Peng e não se sabe se a tenista terá apresentado queixa na Polícia. Peng escreveu na publicação que não tinha quaisquer provas e que “era simplesmente impossível ter provas” porque Zhang estava constantemente com receio de que a tenista o gravasse.

Ling Li, uma especialista em política e direito chineses na Universidade de Viena, disse que, a ser verdade a acusação de Peng, a relação extraconjugal de Zhang será certamente considerada “imprópria” e uma violação da “disciplina de vida” do partido.

De acordo com as regras da Comissão Central de Inspeção Disciplinar, um dos órgãos mais temidos do partido, a sanção para um crime destas características pode ir de uma mera repreensão à expulsão do partido, sendo a pena diretamente proporcional ao dano que o partido sofreu com o escândalo, disse Li.

"Dito isto, nunca se expulsou nenhum alto dirigente do partido somente por infrações relacionadas com o seu estilo de vida. E uma alegação de assédio sexual não constitui bases para abrir uma investigação anticorrupção”, acrescentou.

"Se as práticas do passado servirem de guia, para se abrir uma investigação anticorrupção contra um membro do Politburo ou alguém mais acima na hierarquia, a decisão terá de ser tomada coletivamente pelo Comité Permanente do Politburo."

A grande campanha anticorrupção de Xi já visou altos cargos anteriormente, incluindo um ex-membro do Comité Permanente do Politburo, mas todas as investigações foram abertas pelo próprio partido. Na China, os líderes partidários com um posto como o de Zhang não podem ser repreendidos pelo público em geral e seria quase impensável que uma alegação de abusos sexuais pudesse derrubar um alto dirigente.

Deng, o ex-editor do jornal do partido, disse ser praticamente impossível que o Partido Comunista ceda às pressões da comunidade internacional para abrir uma investigação transparente a Zhang e divulgar os resultados ao mundo.

Embora Zhang não seja considerado um aliado de Xi, mas apenas como tendo feito parte do círculo interno do antigo presidente Jiang Zemin e da sua fação de Xangai, punir publicamente um ex-membro da elite que trabalhou em grande proximidade com Xi devido a um alegado abuso sexual seria provavelmente considerado uma grande vergonha, não só para o partido, mas para o próprio presidente Xi – sobretudo porque Xi redobrou os esforços para impor a disciplina partidária.

Sob a liderança de Xi, o partido fez um exemplo de membros do partido caídos em desgraça, incluindo aqueles que cometeram abusos de poder em troca de sexo. Nos últimos anos, tem sido prática comum que relatos de comportamentos devassos de membros do partido sejam divulgados nos meios de comunicação estatais após estes serem afastados do cargo devido a acusações de corrupção.

"Assim que subiu ao poder, Xi sublinhou que os membros do partido devem ser honestos, retos e modelos de moral na sociedade. O presidente exigiu que os membros do Partido Comunista mantivessem a sua pureza (ideológica)”, disse Deng. "Embora a indiscrição no seio da vida privada ainda prevaleça entre os membros do partido, a situação muda de figura quando passa a ser do conhecimento geral.”

"Isto foi inicialmente um escândalo contra Zhang, mas o fetiche do partido por poder embotou a sua resposta, transformando um escândalo pessoal num escândalo nacional", Deng Yuwen, analista político

E por causa disso, Deng diz acreditar que o partido provavelmente já terá aberto uma investigação interna às alegações de Peng, mas nem o processo nem o resultado da investigação deverão ser divulgados externamente, disse.

"A última coisa que eles querem é dar à comunidade internacional a impressão de que foram pressionados para o fazer”, disse Deng.

Agora, a comunidade desportiva internacional terá de decidir se ficou satisfeita com “prova de vida” dada através dos vídeos de Peng ou se vai continuar a pressionar para que se abra uma investigação de fundo às alegações da tenista.

Quanto a Zhang, é provável que o político não esperasse que, após dedicar grande parte dos seus últimos anos de carreira aos preparativos dos Jogos Olímpicos de Inverno, viessem à baila alegações contra si que despoletassem cada vez mais apelos para que se boicotem os jogos.

"Mas se mais países se juntarem ao boicote e a pressão começar a ser demasiada, não podemos descartar a possibilidade, por mais ínfima que seja, de o partido atirar Zhang às feras”, disse Deng.

"Isto foi inicialmente um escândalo contra Zhang, mas o fetiche do partido pelo poder tem embotado a sua resposta, transformando um escândalo pessoal num escândalo nacional."

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