Um influente blogger chinês desapareceu da Internet. Esta mulher diz que sabe porquê

CNN , Nectar Gan
2 abr 2023, 21:00
Ruan Program Think Imagens obtidas pela CNN

Um autor anónimo de um blogue na China fez rios de críticas políticas ao sistema. Desapareceu de um momento para o outro, sem aviso. Mas parece haver uma explicação possível – ou provável.

Durante 12 anos, Program Think, um blogger chinês anónimo, fez um desafio aberto ao controlo autoritário da China e ao estado de vigilância em expansão.

Este blogue feito em “roda livre” ofereceu uma mistura de conselhos técnicos de cibersegurança e de comentários políticos mordazes - incluindo dicas sobre como contornar com segurança a Grande Firewall [“muralha”] da censura da Internet na China, como desenvolver pensamento crítico e como resistir ao governo cada vez mais totalitário do Partido Comunista Chinês.

O blogger orgulhava-se da sua capacidade de tapar os seus rastos digitais e evitar ser apanhado - mesmo quando cada vez mais críticos do governo eram ludibriados pela estridente repressão do líder chinês, Xi Jinping, contra a dissidência.

Depois, em maio de 2021, Program Think ficou subitamente em silêncio.

O blogue deixou de ser atualizado e as suas contas no Twitter e no GitHub ficaram adormecidas. O seu autor tinha prometido aos seguidores que nunca ficaria inativo por mais de 14 dias. Muitos temeram que o blogger tivesse sido vítima de um acidente ou de uma doença, ou perseguido e detido pelas autoridades.

A especulação abundou, mas ninguém foi capaz de mostrar provas concretas.

Program Think guardou tão bem a sua identidade que nenhum apoiante sabia quem ele era – sabendo-se apenas que ele tinha sido programador na China continental, com uma carreira de uma década em segurança da informação.

Agora, quase dois anos depois, a mulher de um blogger recentemente condenado a sete anos numa prisão chinesa por “incitar à subversão do poder do Estado” acredita que tem a resposta para a pergunta: O que aconteceu a Program Think?

"Como é possível?”

A mulher, de apelido Bei, é mulher de Ruan Xiaohuan, um homem de 45 anos que foi levado pela polícia da sua casa em Xangai a 10 de maio de 2021 - um dia após a publicação final de Program Think.

A detenção de Ruan deixou Bei completamente estupefacta. E ela ficaria ainda mais chocada quando soube que o seu marido andava a escrever sobre assuntos politicamente sensíveis no blogue.

“A polícia disse-me que o caso era muito sério, e eu pensei: como é possível?”, conta Bei à CNN.

“Ele é um nerd de tecnologia e adorava mergulhar na tecnologia. Como poderia ele ter tanta energia para escrever artigos sobre assuntos políticos atuais?”

Ruan Xiaohuan, um blogger de tecnologia e política chinês, foi condenado a sete anos de prisão por “incitar à subversão”. Imagem obtida pela CNN

Ao longo da investigação e dos procedimentos judiciais, Bei não conseguiu saber muitos detalhes sobre o caso do seu marido, já que as autoridades lhe disseram que envolvia “segredos de Estado”. Ruan foi julgado em segredo, e Bei só o viu novamente no dia da leitura da sentença no Tribunal Intermédio nº 2 de Xangai, a 10 de fevereiro deste ano, diz ela.

“Ele estava anormalmente magro, e o seu cabelo ficou quase todo branco”, explica Bei. Ruan não disse uma palavra e metade do seu rosto estava coberto por uma máscara anti-Covid.

“Após a sentença, ele virou-se para olhar para mim como se exprimisse dissidência e procurasse ajuda. Consegui perceber que a sentença era muito mais pesada do que ele esperava”, conta. "Eu disse-lhe: 'Recorre".

De acordo com uma cópia do veredicto visto pela CNN, o tribunal decidiu que Ruan tinha “há muito abrigado insatisfação” com o sistema político e a governação social da China.

“Desde Junho de 2009, (Ruan) utilizou o seu computador para escrever mais de uma centena de artigos sediciosos que espalham rumores e calúnias, atacam e difamam o atual sistema político do país, incitam à subversão do poder do Estado, e pretendem derrubar o sistema socialista”, diz o veredicto do tribunal.

E acrescenta que os artigos, publicados em plataformas estrangeiras, atraíram "um grande número de utilizadores da Internet para ler, comentar e partilhar, causando consequências perniciosas".

Mas os documentos do tribunal não mencionam o nome do blogue de Ruan, nem fornecem pormenores sobre o conteúdo que considera ser subversivo. Após a sentença, a juíza pediu a Bei para assinar um acordo para não divulgar o veredicto, o que ela recusou, assegura a própria Bei à CNN.

Determinada a descobrir o que as autoridades lhe tinham ocultado, Bei aprendeu a utilizar uma VPN, ou rede privada virtual, para contornar as restrições estritas da China à Internet.

Ela procurou notícias nos media sobre bloggers chineses desaparecidos, até que encontrou um blogue com uma fotografia da escultura de Rodin “O Pensador” [“The Thinker”] como avatar.

O nome do blogue: Program Think.

Ruas vazias na China durante os meses de confinamento na pandemia de Covid-10.

“Não pode ser apenas uma coincidência''

Foi, segundo as palavras da própria Bei, aí que uma luz se acendeu.

Toda a informação sobre o blogue coincidia com a do seu marido.

O blogue começou em 2009 e o seu último post - uma longa lista de recomendações de livros -, foi publicado a 9 de maio - um dia antes de Ruan ser levado e ver o seu portátil confiscado. Houve também um período de quatro meses, lembrou-se Bei, em que Ruan esteve doente e acamado, o que coincidiu com uma pausa nas publicações.

O estilo de escrita e as aspirações do autor pareciam demasiado familiares, assim como a sua franqueza e confiança que por vezes beirava a arrogância, diz Bei.

Ela soube durante as investigações policiais que o seu marido tinha colocado mais de 700 artigos numa plataforma no estrangeiro - tal como Program Think fez.

"Não pode ser apenas uma coincidência", disse Bei.

Ela rebentou em lágrimas num cibercafé no momento em que percebeu o que ela acredita ser a ligação entre o seu marido e o influente blogger, recorda.

“Apercebi-me da pressão a que ele esteve sujeito durante tanto tempo. Ele estava a fazer todas estas coisas perigosas, carregando tanto peso nos ombros sozinho”, assinala Bei.

“Mesmo depois de ter sido apanhado, ninguém o podia ajudar porque ninguém sabia que ele era o Program Think”.

A CNN não conseguiu confirmar a identidade online de Ruan, e as mensagens para o endereço de correio eletrónico listado no blogue para Program Think ficaram sem resposta. A CNN fez várias chamadas telefónicas para o Tribunal Intermédio nº 2 de Xangai, mas não conseguiu contactar ninguém disposto a comentar o caso de Ruan ou a responder se a sua condenação estava ligada ao blogue Program Think.

Ruan trabalhou durante anos na indústria de cibersegurança da China. Foi engenheiro chefe do sistema de segurança de informação dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008. Imagem obtida pela CNN

Bei, no entanto, está confiante de que os dois estão ligados e disse lamentar não saber mais cedo o que acredita ser a identidade online do seu marido.

Se ela soubesse, diz, teria imediatamente procurado a ajuda de advogados de direitos humanos que têm capacidade e experiência na representação de arguidos em casos políticos sensíveis.

No mês passado, Bei nomeou dois dos mais proeminentes advogados de direitos humanos da China, Mo Shaoping e Shang Baojun, como advogados de defesa de Ruan para o defenderem na apresentação de um recurso.

Mas o Supremo Tribunal Popular de Shang Baojun afastou-os, alegando que Ruan tinha pedido assistência jurídica e que o Estado já lhe tinha nomeado dois advogados.

A CNN contactou o Supremo Tribunal Popular de Xangai para pedir comentários. Em casos politicamente sensíveis, o Estado nega frequentemente advogados nomeados pela família e nomeia, em vez disso, os seus próprios advogados.

Apesar da pressão oficial para que se mantivesse calada, Bei decidiu tornar público o caso de Ruan, esperando que a exposição mediática e a atenção pública pudessem ajudar o seu marido a receber um recurso justo.

“Desperdicei a oportunidade (de o ajudar) para o seu primeiro julgamento. Não posso perder também o recurso, é a última oportunidade - tenho de garantir que será justo", diz ela.

Os livros forram as prateleiras no escritório de Ruan. Imagem obtida pela CNN

“Fascinado por tecnologia”

Nascido na província de Fujian, na costa sudeste da China, Ruan contactou pela primeira vez com um computador na escola secundária. Estava interessado em software de vírus e aprendeu sozinho a programar, segundo ele próprio contou numa entrevista a uma revista académica filiada no Estado.

Ele continuou a estudar na prestigiada Universidade de Ciência e Tecnologia da China Oriental, em Xangai, onde conheceu Bei, sua futura mulher.

Ambos se formaram em engenharia química, mas nessa altura Ruan já se tinha apaixonado pela ciência da computação. Ele passava todos os seus tempos livres a ler sobre o assunto na biblioteca. Ele e os seus colegas de quarto também compraram um computador para que pudessem utilizá-lo à vez no seu dormitório, recorda Bei.

Ruan estava tão ansioso por se juntar à indústria que desistiu de completar o seu diploma universitário.

“Ele disse-me que a informática estava a desenvolver-se demasiado depressa e que as qualificações académicas não podiam representar a sua capacidade", lembra Bei.

A mudança valeu a pena e a carreira de Ruan descolou imediatamente.

Ele seguiu o seu trabalho em algumas das empresas de cibersegurança mais conhecidas da China. Foi o engenheiro chefe do sistema de segurança da informação dos Jogos Olímpicos de Verão de Pequim 2008, quando trabalhava para a empresa de segurança de redes Venustech.

Mais tarde, Ruan juntou-se a outra empresa e foi promovido a chefe de tecnologia.

Na sua entrevista com a revista estatal da altura, Ruan disse: “Sou alguém que é fascinado pela tecnologia, só nova tecnologia me enche de paixão”.

Mas ele ficou cada vez mais frustrado com as restrições à investigação e desenvolvimento nas empresas, devido à sua busca incessante de lucros. Em 2012, Ruan deixou o seu trabalho para se concentrar no desenvolvimento de software de código aberto (“open source software”).

Até à sua prisão, recorda Bei, Ruan passava as horas a trabalhar no seu escritório, a escrever no teclado ou a ler.

Ruan nunca se preocupou muito com dinheiro ou conforto material. Em vez disso, ansiava pelo que ele chamava o “espírito de fonte aberta” [espírito “open source”] - liberdade, abertura, partilha e cooperação, conta Bei.

“Ele pensa que na vida se deve perseguir valores espirituais. Para ele, é a tecnologia - é isso que ele considera valioso. Mas só recentemente descobri que a sua (busca) pela liberdade também se tinha transformado num (anseio por) liberdade política", diz.

Ruan estava a trabalhar no escritório quando a polícia veio bater à porta do apartamento, a 10 de maio de 2021, recorda. Ela pensou que era uma entrega de água engarrafada e pediu ao seu marido que abrisse a porta.

Ruan foi levado à força, estilhaçando uma lente dos seus óculos. Mais de meia dúzia de polícias entraram à força para revistar o apartamento. A busca durou desde o meio-dia até às primeiras horas do dia seguinte, segundo Bei.

O portátil de Ruan ainda estava a funcionar na altura, e a polícia manteve o dispositivo ligado quando o transferiu para a esquadra de polícia a fim de apreender todos os seus dados, de acordo com o veredicto do tribunal.

Os documentos do tribunal dizem que a polícia também apreendeu um iPhone, um telefone Xiaomi e um portátil Huawei, mas Bei disse que esses eram aparelhos eram dela.

Agora, pensando bem, Bei admite que pode ter negligenciado alguns sinais de aviso.

Cerca de um ano antes da prisão de Ruan, o serviço de Internet na sua casa tornou-se instável e frequentemente desconectado. Quando saíam para passear, Ruan por vezes voltava subitamente a correr para casa, como que para verificar se tinham intrusos.

Olhando para trás, Bei diz agora que, se soubesse, não teria apoiado a decisão do seu marido de escrever um blogue sobre política.

“Penso que ele teria dado uma maior contribuição para a sociedade humana se tivesse dedicado o seu tempo à tecnologia”, diz.

Ruan usou o lapdesk verde no seu escritório para trabalhar quando estava acamado no final de 2017 e início de 2018. Imagem obtida pela CNN

"A política virá e olhará para ti”

Program Think também não começou a escrever blogues para expressar dissidência política.

Na sua primeira publicação, de janeiro de 2009, o autor apresentou o blogue como um local para partilhar competências e experiências sobre desenvolvimento de software e linguagem de programação.

Mas não demorou muito tempo até que o conteúdo se cruzasse com a política.

A 4 de junho de 2009, no 20º aniversário do massacre da Praça Tiananmen, o blogger partilhou “manuais” sobre como contornar as restrições da Internet e como ocultar a identidade online.

Uma semana mais tarde, noutra publicação, o autor denunciou o endurecimento da censura da China à Internet. Uma série de plataformas internacionais de redes sociais, incluindo Twitter e Flickr, foram então acrescentadas à lista de sites proibidos, quando as autoridades chinesas emitiram uma diretiva exigindo a instalação obrigatória de software de censura em todos os novos computadores.

“Não quero continuar a manter o silêncio, não quero evitar mais estas questões, é tempo de escrever algo mais do que sobre tecnologia!”, concluía o post.

Pouco depois, Program Think começou a publicar comentários políticos mais explícitos.

“Na China, não tens de preocupar-te com a política, mas a política virá e olhará para ti", escreveu Program Think num post a 4 de junho de 2011, explicando a decisão de iniciar uma série sobre a repressão de Tiananmen.

Em 2016, após o lançamento dos Panama Papers, Program Think compilou dados publicamente disponíveis que alegadamente detalhavam as ligações entre os líderes do Partido Comunista e seus familiares.

Os dados, com que Program Think dizia ter como objectivo “expor as famílias poderosas” da elite dirigente da China, levaram a Associação de Segurança Cibernética da China a enviar ao GitHub um pedido de desativação da conta. O Github não atendeu ao pedido, e a base de dados ainda está acessível na plataforma.

À medida que Program Think ganhava visibilidade, crescia também o escrutínio por parte das autoridades chinesas.

Em 2019, num post intitulado "Porque é que As Autoridades Não Conseguem Apanhar-me - Um Resumo da Minha Experiência de Segurança Após Dez Anos de Actividades Anti-Partidárias", Program Think disse que os hackers estatais tinham tentado por duas vezes atacar a sua conta no Gmail; e a secção de comentários do blogue tinha sido inundada pelo que o blogger suspeitava ser comentadores contratados pelo governo.

Mas Program Think permaneceu inquebrantável e continuou a escrever no blogue, até que aparentemente desapareceu sem deixar rasto.

Tropas chinesas na praça Tiananmen em 1989 (Vincent Yu/AP)

"Um homem contra a máquina estatal”

As autoridades chinesas nunca fizeram qualquer menção pública a Program Think. Mas muitos ativistas chineses de direitos civis, peritos chineses e seguidores do blogue acreditam que Ruan é de facto o blogger desaparecido.

Vários grupos internacionais de direitos, incluindo o PEN America e a Human Rights Watch, também relacionam Ruan e Program Think e apelam à sua libertação imediata.

Zhou Fengsuo, um líder estudantil durante o movimento Tiananmen de 1989, disse que o segredo oficial em torno de Program Think traiu o medo das autoridades quanto à influência do blogger.

“Sob a vigilância omnipresente do Partido Comunista - tanto online como na vida real, ele conseguiu continuar durante 12 anos - isso é uma lenda maravilhosa em si mesma", disse Zhou.

Program Think poderia ter desfrutado facilmente de uma vida confortável e, mesmo assim, ele escolheu usar a sua perícia para difundir a ideia de liberdade, diz Zhou. “Ele influenciou muitas pessoas - centenas de milhares”, afirma. “É um homem contra a máquina estatal”.

Para os apoiantes de Program Think, a própria existência do blogue serviu como um desafio aberto à autoridade do partido, tanto em termos de ideologia como de tecnologia.

Alguns compararam o blogger com "V", o lutador da liberdade mascarado no romance gráfico de Alan Moore "V de Vendetta". Outros chamavam a Program Think o "ciber Prometeu " chinês, numa referência ao antigo deus grego que roubou o fogo do céu e o deu à humanidade.

Eric Liu, analista do China Digital Times, um site de notícias com sede nos EUA que rastreia a censura na China, conta que seguia Program Think desde cedo.

No início, o blogue não se destacou como particularmente sensível porque, segundo Liu, as vozes críticas abundavam na Internet chinesa na altura.

“Foi a rápida diminuição do espaço político da China durante a última década que o empurrou para a linha da frente das atividades do chamado Partido Anti-Comunista", considera.

As buscas por "Program Think" são fortemente restringidas no Weibo, uma espécie de Twitter chniês. Numa referência oblíqua ao blogger, um utilizador de Weibo publicou na sexta-feira: "(Uma pessoa) só pode programar, mas não pensar”. Esse post foi depois apagado dos resultados de pesquisa.

Na sequência da sentença de Ruan, o seu nome também foi proibido nas plataformas de comunicação social chinesas.

“As autoridades não querem que as pessoas falem dele, e a última coisa que querem é uma campanha de solidariedade (para pedir a sua libertação)”, diz Liu.

Embora nunca possa haver uma confirmação oficial sobre se Ruan e Program Think são a mesma pessoa, muitos seguidores estão convencidos de que são. E independentemente da sua detenção pelas autoridades, dizem que os conhecimentos e ideias partilhadas no blogue já se espalharam por todo o lado.

“Tu já és um herói no coração de inúmeras pessoas, e viveremos com a tocha que acendeste", escreveu um seguidor na página de Program Think no Twitter.

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