Pequim — Quando Ho Puay-peng visitou a Cidade Proibida de Pequim pela primeira vez no final da década de 1980, o arquiteto singapuriano viu muitos dos pátios históricos serem usados como depósitos, cheios de lixo e ocupados por danwei (escritórios governamentais).
Ele resumiu tudo numa palavra: “Horrível”.
Naquela época, a maior parte do extenso antigo palácio imperial, no centro da capital chinesa, ainda não estava aberta ao público. Além dos escritórios governamentais, muitas áreas haviam sido severamente danificadas pela falta de manutenção e por incêndios – comuns, já que a maioria dos edifícios era feita de madeira.
A Cidade Proibida foi construída no século XV, durante a Dinastia Ming, como local de trabalho e residência da família imperial. Mais tarde, foi tomada pelos imperadores da Dinastia Qing, que restauraram e reconstruíram muitas das suas partes.
O Museu do Palácio foi inaugurado no local em 1925, depois de o último imperador Qing, Pu Yi, ter abdicado do trono, tendo sido forçado a deixar a Cidade Proibida, mas as obras de restauração propriamente ditas só começaram muito mais tarde.
Desde a primeira visita de Ho, há décadas, todos os danwei mudaram-se do Museu do Palácio, uma das atrações mais populares da China. "Agora eles são donos de todo o complexo e vão restaurá-lo aos poucos para reabri-lo", indica Ho, titular da Cátedra UNESCO de Conservação e Gestão do Património Arquitetónico na Ásia. "E eu acho que é um esforço maravilhoso."
Como o Museu do Palácio comemorou o seu centenário em outubro, um pequeno local da sua seção nordeste atraiu atenção desproporcional após ter sido aberto ao público a 30 de setembro, com o museu a descrevê-lo como "o jardim mais requintado e belamente decorado" de todo o complexo.
O Jardim Qianlong esteve fechado durante quase um século. Embora a sua construção tenha sido concluída em cinco anos, na década de 1770, a restauração levou 25 anos por via de uma parceria entre o museu e o World Monuments Fund. "Estou feliz de ver que eles dedicaram tanto tempo a isto", diz Ho.
Este é mais um passo nos esforços de conservação a longo prazo do museu. No início do mês, o líder chinês, Xi Jinpingm, visitou o museu para uma exposição comemorativa, onde afirmou que o museu é “um importante símbolo da civilização chinesa” e que deve “trabalhar mais para proteger, restaurar e fazer bom uso das relíquias culturais”.
Uma primeira visão
No último dia chuvoso do recente feriado da Semana Dourada na China, longas filas de turistas nacionais formaram-se dentro do Jardim Qianlong, com a atração a tornar-se um dos assuntos mais comentados nas plataformas de redes sociais do país.
O jardim, batizado com o nome do Imperador Qianlong, fica ao lado de outro ponto turístico popular dentro do museu. A sua entrada discreta demonstra o projeto do governante Qing e o seu desejo de torná-lo um refúgio pessoal.
Com 60.000 metros quadrados, o jardim é mais pequeno do que um campo de futebol, o que representa um contraste significativo com outras partes da Cidade Proibida, marcadas por amplos espaços abertos que visam representar a grandeza do poder e território imperial.
Qianlong inspirou-se no projeto de jardins particulares do sul da China para tornar o espaço mais compacto e dividiu o local em quatro pátios interligados, dois dos quais estão atualmente abertos ao público, de sul a norte. O imperador também variou os arranjos dos pátios: alguns preenchidos com um conjunto de edifícios, outros abertos e espaçosos.
“A arquitetura aproveitou ao máximo o espaço bastante reduzido para acomodar diversas paisagens”, explica Ho. “Quando se observa as paisagens de baixo e de cima, no pavilhão interno, nas colinas artificiais, obtêm-se perspetivas diferentes.”
Um quarto de século de trabalho
As principais obras de renovação do Museu do Palácio só começaram em 2002, depois de o Conselho de Estado, o gabinete da China, ter realizado uma reunião no local e anunciado a iniciativa.
Quando o projeto de restauração foi lançado, menos de um terço do Museu estava aberto ao público. A área aumentou para 80% em 2018, de acordo com os media estatais, após a restauração de inúmeros edifícios e muralhas da cidade e a demolição de 135 estruturas temporárias dentro do complexo.
A restauração do Jardim Qianlong levou mais de duas décadas, um processo caro e meticuloso baseado num acordo de cooperação do ano 2000 assinado pelo World Monuments Fund e o museu, que calculou um custo de entre 15 e 18 milhões de dólares (cerca de 13 a 15,5 milhões de euros).
Em 2006, a restauração do Taihedian (Salão da Suprema Harmonia), o maior edifício do palácio, foi concluída em menos de dois anos.
Após o Jardim Qianlong, os responsáveis pelo museu disseram que o Yangxindian (Salão do Cultivo Mental), residência e escritório administrativo dos imperadores Qing, também deverá reabrir este ano, após a conclusão das obras de restauração iniciadas em 2018.
Para Ho, é importante que a China aplique o que aprendeu com as experiências de restauração dos edifícios do Museu do Palácio para conservar “profissional e cientificamente” a arquitetura da Dinastia Qing em todo o país – incluindo um palácio imperial menor no nordeste da China, bem como ruas antigas em muitas outras regiões.
E acrescenta: “De modo geral, acho que o país despertou para a importantíssima tarefa de proteger o património histórico.”