Num vídeo de uma hora publicado há uma semana na maior rede social chinesa, uma mulher acusa o seu supervisor de doutoramento de assédio físico e verbal durante mais de dois anos. Num passo raro, o suspeito foi despedido da universidade e o Partido Comunista Chinês afastou-o das suas fileiras
É raro denúncias públias de assédio sexual ganharem repercussão nacional na China. Mas foi isso que aconteceu esta semana, quando uma aluna de uma universidade de topo chinesa recorreu às redes sociais para denunciar as pressões e avanços que sofreu às mãos de um professor, entretanto despedido.
Num vídeo de uma hora publicado a 21 de julho na rede social chinesa Weibo, uma mulher que se identifica como Wang Di acusa o supervisor do seu doutoramento na Universidade de Renmin, em Pequim, de assédio físico e verbal durante mais de dois anos.
O professor, Wang Guiyuan, um ex-representante do Partido Comunista Chinês (PCC) em Pequim, chegou mesmo a ameaçar bloquear as suas conquistas académicas se a aluna não cedesse, revelou.
O vídeo inclui uma gravação áudio de um dos encontros, no qual se ouve um homem a pedir insistentemente para beijar uma mulher, que rejeita repetidamente os avanços. "Estou a denunciar o meu professor, Wang Guiyuan, por me assediar sexualmente, molestar à força e por me ter pedido para termos uma relação sexual", diz Wang Di. O áudio ainda não foi verificado de forma independente.
No espaço de um dia, o vídeo angariou mais de 2 milhões de 'likes' e espoletou milhares de comentários de apoio à vítima, com a hashtag criada para o efeito a ultrapassar os 110 milhões de partilhas. No mesmo dia, a universidade anunciou que uma investigação às alegações provou que eram verdadeiras, embora tenha referido em comunicado "má conduta moral" e não "assédio sexual".
A investigação conduziu ao despedimento de Wang Guiyuan, que foi também expulso do PCC. A polícia local disse que está a investiga as alegações para decidir se abre um caso formal contra o abusador. Contactado por vários meda, Guiyuan recusou-se a prestar declarações.
Apenas 8% dos processos por assédio têm por base queixas das vítimas
A velocidade com que o caso na Universidade de Renmin foi gerido "mascara factos de que as alegações de assédio sexual e abuso são muitas vezes ignoradas ou minimizadas quando feitas em privado", destaca o Guardian, num país onde as mulheres enfrentam enormes riscos por denunciarem instâncias de violência sexual, apontam feministas chinesas e especialistas em Direito do país citados pelo jornal britânico.
Também na Weibo, Zhou Xiaoxuan, guionista que normalmente usa o nome artístico Xianzi", escreveu em reação ao caso: "As universidades dão cobertura sistemática ao comportamento dos professores e ignoram sistematicamente a situação das estudantes. Só um número muito reduzido de estudantes que não conseguem aguentar isto procuram ajuda junto da opinião pública, arriscando-se a serem alvos de 'slut-shaming' e ciberbullying."
Em 2018, no auge do movimento MeToo a nível internacional, Zhou tornou-se famosa após ter vindo a público denunciar um famoso apresentador de televisão, Zhu Jun, por a ter beijado à força e apalpado durante o seu estágio no canal onde trabalha. O processo judicial que interpôs contra Zhu acabou por não seguir em frente por "falta de provas". Os casos de assédio sexual na China exigem muitas vezes "provas incontestáveis" como gravações áudio ou vídeo dos alegados abusos.
Desde então, outras mulheres chinesas têm recorrido às redes sociais para apresentarem as suas queixas de assédio, sobretudo em campus universitários. "Obrigada por denunciares, irmã. Eu também fui assediada sexualmente pelo meu professor de pós-doutoramento há três anos e ainda não vi o desfecho disto depois de ter ligado à polícia para o denunciar", escreveu uma utilizadora do Weibo na publicação de Wang Di.
Na passada quarta-feira, dias depois das denúncias contra o professor da Renmin, a Universidade de Shaanxi anunciou que suspendeu um professor acusado de "violar a ética dos docentes" em 2017, sublinhando em comunicado a sua política de "tolerância zero" para más condutas. O comunicado não referia, contudo, as acusações que pendiam sobre esse professor: ter enviado fotografias explícitas a várias alunas.
Uma investigação recente conduzida por Darius Longarino, Wei Changhao e Yixin Ren, do Centro Paul Tsai China da Faculdade de Direito da Universidade norte-americana de Yale, sugere que apenas 8% dos processos judiciais civis por assédio sexual envolvem casos em que as alegadas vítimas estão a pôr os abusadores em tribunal. A maioria desses processos, é indicado no mesmo estudo, é intentada pelos suspeitos dos abusos, que invocam o crime de difamação.
