A China é a superpotência das energias limpas, mas há outro país à perna e a avançar ainda mais depressa

CNN , Laura Paddison
1 mar, 12:00
O Parque Solar de Pavagada, em Karnataka, na Índia, a 11 de outubro de 2021. Uma nova investigação concluiu que a Índia está a eletrificar-se mais rapidamente e a utilizar menos combustíveis fósseis do que a China num nível semelhante de desenvolvimento económico. (Abhishek Chinnappa/Getty Images)

Embora muitos olhem para a China como uma superpotência inalcançável no setor, o caminho da eletrificação na Índia pode acabar por ser ainda mais rápido

Prem Chand é um dos muitos condutores de riquexó que passam os dias a fintar o trânsito nas agitadas estradas de Nova Deli. E, tal como um número crescente dos muitos milhares de veículos deste tipo a circular na cidade indiana, o modelo deste condutor é elétrico.

Antigamente, conduzia um táxi a combustão, mas abandonou-o há oito meses quando fez as contas e percebeu que a manutenção de um riquexó elétrico ficava muito mais barata. Além disso, há uma vantagem adicional: não liberta emissões poluentes para o ar da cidade, tristemente célebre pela sua toxicidade.

O condutor questiona por que razão não haveria de fazer a mudança, justificando que "isto é bom para a carteira e para o ambiente".

Os veículos elétricos de três rodas dominam em muitas cidades indianas, sendo essenciais para viagens curtas entre estações de metro, escritórios, lojas e habitações. E não se trata apenas de um fenómeno urbano, já que os riquexós elétricos também proliferaram nas zonas rurais. Em toda a Índia, quase 60% das vendas de veículos de três rodas são agora de modelos elétricos.

Um condutor de riquexó elétrico circula numa rua em Nova Deli, na Índia, a 22 de setembro de 2018. (Prashanth Vishwanathan/Bloomberg/Getty Images)

A revolução nos transportes que decorre no país mais populoso do mundo é, em grande parte, caótica (com muitos riquexós elétricos não autorizados e a funcionar com eletricidade roubada), mas a sua velocidade e dimensão refletem um notável crescimento das energias limpas.

Embora muitos olhem para a China como uma superpotência inalcançável no setor, o caminho da eletrificação na Índia pode acabar por ser ainda mais rápido, com grandes implicações para o resto do mundo. A conclusão é de um novo relatório do grupo de reflexão focado no clima Ember. A Índia é o terceiro maior poluidor climático do planeta e o que acontece no país afeta o mundo inteiro.

Para comparar as trajetórias energéticas dos dois países, o instituto analisou o que se passava na China em 2012, altura em que apresentava níveis de rendimento semelhantes aos da Índia atual, a rondar os 11 mil dólares por pessoa. Nessa época, a China não tinha praticamente nenhuma capacidade instalada de base solar. Hoje, a energia solar representa nove por cento do cabaz elétrico da Índia, desde instalações em telhados a vastos parques fotovoltaicos. O país é já o terceiro maior produtor mundial de energia solar.

A história é semelhante no caso da mobilidade. Os veículos elétricos representam cerca de cinco por cento de todas as vendas de automóveis na Índia, um mercado que comercializa mais modelos de três rodas movidos a bateria do que qualquer outro país. Em 2012, a China tinha muito poucos automóveis elétricos nas estradas.

Isto não significa que a Índia não continue fortemente dependente dos combustíveis fósseis que aquecem o planeta. O país tem planos para aumentar a utilização de carvão nas próximas duas décadas e o seu consumo de petróleo continua a crescer.

O aumento exponencial da procura de energia no país reflete que, apesar de se estarem a incorporar fontes renováveis a um ritmo acelerado, o carvão ainda não está a ser retirado da rede elétrica. A observação é feita por Debajit Palit, do Centro para as Alterações Climáticas e Transição Energética da Chintan Research Foundation, um grupo de investigação independente.

Ainda assim, e embora a Índia continue refém do combustível fóssil mais poluente, o seu consumo de carvão representa cerca de 40% daquele que era registado pela China na mesma fase de desenvolvimento, concluiu o relatório. A Índia tem também uma procura de petróleo para transportes muito inferior, cifrando-se em cerca de metade dos níveis exigidos por Pequim por pessoa em 2012.

A China pode agora estar a caminho de se tornar o primeiro estado do mundo movido a eletricidade, mas construiu o seu poderio com base nos combustíveis fósseis. A análise é de Kingsmill Bond, estratega de energia do Ember e um dos autores da investigação. O responsável sublinha que o país optou pela energia mais barata e acessível, "que, há 30 anos, era a tecnologia fóssil, mas agora não é, é a eletrotecnologia".

Em contrapartida, a Índia poderá evitar uma era de queima mais intensiva de combustíveis fósseis, através de um salto tecnológico que sirva de atalho para um futuro energético mais limpo, defende o estratega.

Esta transição está a ser impulsionada principalmente por um fator: o custo.

Em 2004, quando a China consumia uma quantidade de energia per capita semelhante à que a Índia consome atualmente, o carvão era cerca de dez vezes mais barato do que a energia solar. Hoje, o custo da energia solar, somado à despesa do respetivo armazenamento, representa cerca de metade do valor associado à operação de novas centrais a carvão, indicam os dados do grupo de reflexão.

Os custos dos painéis solares, das turbinas eólicas e das baterias caíram a pique. Só os preços das baterias desceram 40% em 2024, recorda Kingsmill Bond, acrescentando que este tipo de reduções acentuadas é simplesmente impossível de obter nos combustíveis fósseis.

Instaladores montam um sistema de painéis solares no telhado de uma casa em Prayagraj, na Índia, a 14 de outubro de 2024. Rajesh Kumar Singh/AP

As energias limpas podem também ajudar a garantir à Índia algo que muitos países procuram: independência energética.

Para a administração Trump, a expressão é sinónimo de impulsionar a extração de petróleo e de gás natural, reavivar o carvão e asfixiar os setores eólico e solar. Para a Índia, contudo, a energia limpa oferece a oportunidade de reduzir a dependência face ao exterior num mundo cada vez mais volátil.

Atualmente, o país importa perto de 90% do seu petróleo e metade do seu gás natural, ficando exposto a choques de preços e turbulência geopolítica. Como salienta Thijs Van de Graaf, professor associado de política internacional na Universidade de Ghent, "as energias renováveis ajudam a reduzir esta vulnerabilidade".

Mas os desafios mantêm-se. A implementação de fontes limpas na Índia continua a depender da China, que domina as cadeias de abastecimento de minerais críticos e de eletrotecnologia.

Ainda assim, há medidas em curso para reduzir esta fragilidade. Na última década, a produção nacional de módulos solares multiplicou-se 12 vezes, assinala o relatório. O Governo lançou também uma "missão nacional de minerais críticos" dedicada a acelerar a produção local, destaca Debajit Palit.

Isto constitui uma enorme vantagem potencial. Os Estados Unidos estão a tornar-se um parceiro comercial cada vez menos previsível e os monopólios da cadeia de abastecimento chinesa têm assustado várias capitais. Nota-se uma procura crescente por parceiros comerciais alternativos, reflete o documento do Ember. O vasto acordo comercial assinado no mês passado entre a Índia e a União Europeia tem sido interpretado como um forte sinal dessa mesma mudança.

Ainda não é claro com que rapidez (nem com que grau de desorganização) se poderá concretizar a revolução das energias limpas no mercado indiano. A conclusão geral aponta, contudo, para uma Índia a traçar um caminho mais rápido rumo à descarbonização do que o trajeto seguido pela China, resume Kingsmill Bond. O país está a gerar mais energia solar, a queimar consideravelmente menos combustíveis fósseis e a eletrificar os transportes a um ritmo bastante mais acelerado.

O que acontece em Nova Deli poderá também servir de espelho para outras economias emergentes, com a possibilidade de tirarem partido de fontes eólicas e solares cada vez mais baratas, e a um ritmo ainda mais rápido, para impulsionar o seu desenvolvimento económico, perspetiva o investigador.

O lado irónico é que o presidente Donald Trump (que detesta abertamente as tecnologias verdes e promove os combustíveis fósseis) pode estar a ajudar a consolidar esta revolução. O professor Van de Graaf avalia que a abordagem transacional e isolacionista do novo inquilino da Casa Branca apenas serve para empurrar os países dependentes de importações no sentido das energias limpas. A consequência torna-se evidente: "O resultado é uma divergência crescente, com os EUA a dar prioridade ao domínio dos combustíveis fósseis e as economias emergentes a posicionarem-se para um futuro energético eletrificado".

Esha Mitra, da CNN em Nova Deli, contribuiu para este artigo.

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