Caças chineses deixaram de voar à volta de Taiwan de repente e ninguém parece saber porquê

CNN , Will Ripley e Wayne Chang
12 mar, 08:53
Um caça chinês J-15 prepara-se para descolar do porta-aviões Shandong durante uma patrulha de prontidão para combate, a 9 de abril de 2023 (An Ni/AP)

É um mistério por resolver, mas a China já retomou as operações no estreito

As Forças Armadas de Taiwan habituaram-se à tarefa diária de rastrear aviões de guerra chineses que voavam perto da ilha. Em alguns dias, são poucos. Noutros, muito mais. Mas a sua presença é quase constante.

Por isso, quando as aeronaves pararam subitamente de sobrevoar a ilha durante quase duas semanas, o silêncio foi ao mesmo tempo surpreendente e profundamente intrigante.

O silêncio foi quebrado esta quinta-feira, com cinco aeronaves do Exército de Libertação Popular (ELP) a operar em torno do Estreito de Taiwan nas últimas 24 horas, segundo as Forças Armadas taiwanesas, com várias delas a voar perto da linha média que divide o estreito.

Os analistas afirmam que esta foi a pausa mais longa na atividade aérea chinesa desde que Taiwan começou a divulgar publicamente dados militares diários.

"Francamente, isto é diferente de tudo o que vimos na história recente em termos de atividade do ELP em torno de Taiwan", admite Ben Lewis, fundador do PLATracker, uma plataforma de dados abertos que acompanha os movimentos militares chineses em torno de Taiwan, Japão e Mar do Sul da China, à CNN.

"Desde que o Ministério da Defesa de Taiwan começou a divulgar estes dados em 2020, a tendência tem sido de aumento constante", frisa Lewis. “E agora, esta acalmia, que talvez tenha terminado, talvez não, representa uma mudança muito significativa no padrão.”

A partir de 27 de fevereiro, Taiwan registou 13 dias consecutivos sem aviões de guerra chineses a sobrevoar a ilha.

Uma breve exceção ocorreu no dia 6 de março, quando foram detetadas duas aeronaves no extremo sudoeste da zona de identificação de defesa aérea de Taiwan, mas os analistas afirmam que o padrão geral ainda representa uma quebra notável em relação aos últimos anos de crescente atividade militar chinesa.

A súbita tranquilidade intrigou os analistas e levantou uma série de possíveis explicações.

Uma teoria é que Pequim pode estar a tentar evitar o aumento das tensões antes de uma reunião planeada para o final deste mês entre o líder chinês Xi Jinping e o presidente dos EUA, Donald Trump, onde o comércio, a tecnologia e Taiwan devem ser temas centrais.

“Se eu estivesse em Las Vegas, atribuiria isso à visita de Trump”, afirma Lewis.

Outros apontaram a guerra que envolve o Irão e o potencial impacto nos mercados globais de energia, embora os analistas digam que esta ligação é menos certa.

Alguns observadores também notam que as reuniões parlamentares anuais da China, conhecidas como as "Duas Sessões", estão a terminar esta semana, um período em que a atividade militar diminuiu ocasionalmente no passado.

O ministro da Defesa de Taiwan, Wellington Koo, pediu cautela ao tirar conclusões da calmaria, referindo que a atividade naval chinesa em torno de Taiwan continuou durante todo o período.

"Há muitas teorias por aí", lembrou Koo aos jornalistas esta quarta-feira. "Mas ainda vemos navios de guerra chineses a operar diariamente em torno de Taiwan, e estes esforços para transformar o Estreito de Taiwan em águas interiores da China não cessaram."

De facto, Taiwan continuou a monitorizar vários navios de guerra chineses a operar em redor da ilha durante todo o período, mesmo com o céu acima a permanecer invulgarmente tranquilo.

Lewis diz que o número limitado de aeronaves detetadas esta quinta-feira pode não sinalizar um regresso completo à normalidade.

Os voos ocorreram no mesmo dia em que uma aeronave de vigilância P-8 da Marinha dos EUA transitou pelo Estreito de Taiwan, numa demonstração, segundo a 7.ª Frota, do “compromisso de Washington com um Indo-Pacífico livre e aberto”, e os aviões chineses podem ter sido enviados simplesmente para monitorizar a aeronave americana.

Ainda assim, a resposta pareceu discreta em comparação com incidentes anteriores, quando navios ou aeronaves dos EUA passaram pela via navegável.

“Em relação a incidentes anteriores, quando a Marinha dos EUA transitou pelo Estreito de Taiwan, o número de aeronaves chinesas enviadas foi, na verdade, bastante baixo”, aponta Lewis.

Esta incerteza faz com que os analistas observem atentamente os próximos acontecimentos.

Nos últimos cinco anos, Pequim aumentou drasticamente o número de aeronaves que envia para perto de Taiwan, normalizando gradualmente o que seria anteriormente considerado uma grande incursão militar.

Em poucos dias, Taiwan reportou dezenas de aeronaves chinesas a operar perto da ilha.

Neste contexto, reitera Lewis, o desaparecimento repentino dos voos foi tão surpreendente como o seu regresso.

“Antes, cinco aeronaves caíam nas manchetes”, conclui. “Agora estamos a falar de zero, e isso é que é invulgar.”

Por enquanto, o mistério permanece por resolver.

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