Neutralidade europeia está a acabar. "A Rússia ensinou à Europa que já não pode confiar na China"

21 out, 20:32

O alerta vem de alguns dos principais líderes europeus: a União Europeia tem de estar vigilante em relação às "dependências de tecnologias e matérias-primas" e ter uma visão mais crítica. Como vai ser a relação da Europa com Pequim?

O mundo está a mudar e com ele a relação entre a União Europeia e a China. Após dois dias reunidos no Conselho Europeu, vários líderes pediram uma revisão da relação europeia com o gigante asiático e alertaram para várias dependências da Europa. É uma mudança de paradigma inevitável, motivada por uma lição que está a custar muito caro à União Europeia.

“Já não se pode confiar na China como parceiro económico, A Rússia ensinou à Europa a lição de que as dependências económicas de terceiros, principalmente de estados autocráticos, podem trazer à Europa problemas muito sérios de segurança”, explica à CNN Portugal a especialista em relações internacionais Diana Soller.

E é esse o alerta que a presidente da Comissão Europeia deu à saída do Conselho Europeu, quando pediu aos vários Estados-membros para serem “muito vigilantes” para com a relação de dependência económica com a China, particularmente em relação a várias tecnologias cruciais e matérias-primas. A antiga ministra da Defesa alemã insistiu também que as prioridades da União devem passar por “reforçar as próprias capacidades” e diversificar o fornecimento de matérias-primas com “fornecedores fiáveis e dignos de confiança”.

Por isso, os analistas acreditam que devemos antecipar que as economias europeias e chinesa venham a afastar-se uma da outra, até porque a guerra na Ucrânia não é o primeiro “aviso” que a Europa teve de que estas dependências comerciais podem causar fortes disrupções no normal funcionamento da economia. Foi isso que aconteceu com o choque das disrupções da cadeia de fornecimento durante a pandemia.  

A situação torna-se ainda mais problemática quando, a meio de uma transição energética forçada pela falta de gás natural russo, a União Europeia tem na China um dos maiores produtores de matérias-primas para a produção de energias verdes. “Quer a Europa quer os Estados Unidos estão a criar uma diversificação de mercados, com o lítio e os materiais raros. A Europa vai ter muito mais cuidado na venda de ativos europeus à China e a uma eventual dependência tecnológica da China”, sublinha Diana Soller.

Cerca de 90% dos metais de terras raras são atualmente extraídos pela China – tornando a UE amplamente dependente do gigante asiático em relação a esse recurso essencial. “Lítio e terras raras em breve serão mais importantes que petróleo e gás”, destacou Von der Leyen em setembro, durante o discurso do Estado da União.

Devido à transição verde e digital, espera-se que a procura por matérias-primas críticas aumente drasticamente. Segundo a Comissão, a procura deve aumentar 500% até 2030. Outras projeções do Banco Mundial sugerem que a procura global também vai aumentar cinco vezes até 2050.

Apesar de não se antever que o discurso dos vários líderes europeus seja bem recebido em Pequim, a especialista não prevê que este afastamento económico e político se manifeste através de uma crescente hostilidade entre os dois blocos, uma vez que que esse não é o papel que a União Europeia “costuma desempenhar no sistema internacional”.

Também o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, expressou preocupações em relação à postura cada vez mais "assertiva" da China no palco global, apelando a uma “visão mais crítica” para com a China, acabando com uma posição que até agora era equidistante. “Efetivamente, a doutrina da União Europeia era a da equidistância e da neutralidade” para com os vários blocos, como os Estados Unidos, a Rússia ou a China.

Para Diana Soller, esta situação já não era uma novidade, uma vez que a vasta maioria dos países que faz parte da NATO já tinha assinado o novo conceito estratégico da Aliança, em julho de 2022, onde a China passa a ser classificada como uma ameaça.

“A China já não pode ser vista da maneira que a Europa gostaria de a ver, que é, por um lado, como competidor que pode ter interesses de segurança antagónicos aos da Europa, mas por outro lado como um parceiro económico com quem pode ter uma relação de win-win”, destaca.

O resultado será uma economia em blocos, a longo prazo, antevê Diana Soller. Com o mercado livre a funcionar exclusivamente entre os vários blocos, com a Europa e os Estados Unidos a aumentarem as relações comerciais e a reduzirem-nas com as potências autocráticas. E, no sentido inverso, com as potências “a tender para estender os seus laços entre si e não com as potências democráticas”.

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