“A escala é de tirar o fôlego”. Serviços secretos preocupados com atividade chinesa na Europa

1 set, 20:39
China (Getty Images)

Da informação comercial à influência política, os interesses de Pequim são vastos e as técnicas que a China está a aplicar na Europa são cada vez mais sofisticadas

A história podia servir de base para um filme de espiões. Pierre M, um espião francês, foi enviado para o Oriente para ser os olhos e ouvidos do embaixador francês em Pequim. Chegado à capital chinesa, o espião encontrou uma jovem chinesa que tinha acabado de ser contratada como tradutora do embaixador. Os dois apaixonaram-se e o espião acabou por provar do seu próprio veneno, acabando por ser o espiado e condenado pela justiça francesa a oito anos de prisão por passar “informação prejudicial” a uma potência estrangeira.

Mas esta é apenas uma de muitas histórias que, segundo as autoridades europeias, se está a tornar cada vez mais frequente no velho continente, particularmente no que toca à espionagem chinesa. Durante décadas, a Europa cresceu habituada a histórias de espiões soviéticos infiltrados nas mais variadas organizações ocidentais, mas, segundo a comunidade dos serviços secretos, a China está a tornar-se num gigante da espionagem – e isso está a deixar as autoridades europeias nervosas.

“Os agentes de inteligência chineses estão em pé de igualdade com os russos”, disse um ex-chefe da CIA para Europa, em declarações ao jornal Financial Times. Esta ideia foi corroborada por dois oficiais dos serviços secretos americanos que operam em território europeu, garantido que “as melhores operações da China agora são tão boas quanto as melhores da Rússia” e, além disso, têm algumas operações que são descritas como “requintadas”.

“A escala dos esforços da China é de tirar o fôlego”, alertou o diretor do FBI, Christopher Wray.

As capacidades de ciberespionagem do Ministério de Segurança do Estado da China (a instituição estatal responsável pela espionagem chinesa) são bem conhecidas no mundo dos espiões. O caso da fuga de informação dos servidores da Microsoft, em 2021, e que tornaram a informação de 30 mil empresas de todo o mundo disponíveis, foram prova de que têm o potencial para levar a cabo operações complexas e encontrar falhas em sistemas bem guardados. Porém, estes ataques costumam estar ligados ao roubo de propriedade intelectual e espionagem económica. Fontes oficiais chinesas rejeitam as alegações e classificam-nas como sendo “irresponsáveis”.

Mas o progresso feito na área da espionagem humana, ou “humint” (do inglês human intellegence), tem vindo a surpreender todos. Esta é uma área onde a Rússia tem demonstrado ao longo dos anos uma tendência para dominar e, por isso, era encarada pelas autoridades europeias como o alvo prioritário dos esforços de contraespionagem. No entanto, de acordo com oito fontes distintas ouvidas pelo jornal, o aumento do número de espiões e a qualidade dos seus operacionais tem vindo a subir consideravelmente.

A situação é de tal forma grave que uma comunidade conhecida pelo seu secretismo sentiu a necessidade de vir a público expressar a sua preocupação. Foi o que aconteceu em julho, quando o o líder da polícia federal norte-americana, o FBI, e o líder do MI5, os serviços secretos internos do Reino Unido, deram uma conferência de imprensa a descrever a atividade de espionagem chinesa como “um desafio que muda todo o jogo”. Este é, insistem, o maior perigo de segurança de uma geração inteira.

E as técnicas são cada vez mais variadas. O caso de Pierre M. é o que os espiões norte-americanos chamam de “sexpionage”, uma de muitas técnicas de “humint”. Consistem em envolver o “alvo” emocionalmente de forma a conseguir extrair a informação desejada. Mas os especialistas alertam que os objetivos chineses são diferentes dos russos e é preciso compreender esse fator para perceber que o espectro de atuação destes é muito mais vasto. A China tem vários objetivos que vão da informação comercial à influência política. Isso faz com que a China utilize todos os cidadãos chineses como uma potencial fonte de informação para o Estado.

“A espionagem russa tende a ser bem focada, enquanto a China usa uma abordagem de ‘toda a sociedade’”, explicou uma fonte dos serviços secretos à publicação norte-americana. É isso que ficou estabelecido na lei de 2017 que rege os serviços secretos da China e que exige a “todas as organizações e cidadãos” que “apoiem, ajudem e cooperem com os esforços nacionais de inteligência”.

A comunidade de espionagem nota também a existência de um padrão diferente do russo no que toca à abordagem. A China exerce um maior cuidado na utilização de espiões, numa tentativa de evitar ser apanhada e ver o seu nome envolvido em grandes escândalos. Por isso, o Partido Comunista Chinês tenta fazer de todos os cidadãos chineses potenciais espiões, mesmo que não tenham conhecimento disso. Esta táctica pode tornar-se extremamente ineficiente, acabando por ter vários operacionais a espiar o mesmo alvo.

“A eficácia é mais importante para os serviços de segurança da China do que a eficiência”, disse Nigel Inkster, ex-diretor de operações do MI6 e agora consultor sénior do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.

Mas estes não foram casos isolados. Em 2021, as autoridades da Estónia sentenciaram um cientista com ligações ao exército que trabalhava em diversos projetos sensíveis a três anos de prisão por colaborar com as autoridades chinesas.

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