Taiwan volta a provocar faísca entre EUA e China

11 mai, 07:02
Caça J-15 levanta voo do porta-aviões chinês Liaoning (foto de arquivo)

Washington desconfia que a China está a "trabalhar arduamente" para poder invadir a ilha rebelde; Pequim acusa os EUA de provocações no Estreito de Taiwan e de "atos mesquinhos" no plano diplomático, que podem provocar um incêndio na região mais problemática do Pacífico

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da China criticou os Estados Unidos por terem alterado o texto sobre Taiwan no site do Departamento de Estado norte-americano. Na ficha sobre Taiwan que o Departamento de Estado tem online, foi eliminada a referência sobre os EUA não apoiarem a independência daquele território. Também desapareceu a parte em que Washington reconhecia a posição de Pequim de que Taiwan faz parte da China.

Em reação à nova redação do documento, Pequim diz que se trata de "manipulação política", que não conseguirá alterar o status quo sobre a ilha. Washington já reagiu às críticas do governo chinês, assegurando que a atualização do texto não reflete uma mudança na política.

Taiwan é um dos principais pontos de tensão entre a China e os EUA. A ilha é uma democracia com autogoverno desde 1949, mas o governo de Pequim sempre considerou que aquele é território chinês inviolável. Taiwan rejeita as reivindicações de soberania chinesa, afirmando que apenas os 23 milhões de habitantes da ilha podem decidir o seu futuro. O equilíbrio é muito precário e tenso, e já por duas vezes no passado a China tentou tomar o controlo da ilha pela força - de ambas as vezes, foi a intervenção dos EUA que permitiu a Taipé manter-se como território autónomo.

Tensão naval

São recorrentes as demonstrações de força de chineses e de americanos em torno da ilha, tanto com forças navais como meios aéreos. No fim de semana passado a China fez um grande exercício naval que cercou Taiwan e envolveu um dos seus principais porta-aviões, o Liaoning. 

Entretanto, ontem, um navio da Marinha de guerra dos EUA passou pelo Estreito de Taiwan, as águas que separam a ilha do território da China continental. Uma manobra que Pequim considerou “uma provocação”. “O trânsito do navio de guerra dos EUA [teve] o objetivo de mostrar apoio às forças secessionistas da ‘independência de Taiwan’”, escreveu o jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista da China.

Segundo o porta-voz das forças navais chinesas naquela região, “o Comando do Teatro Oriental do Exército de Libertação Popular organizou forças, acompanhou e monitorizou em alerta máximo o navio dos EUA durante todo o seu percurso”. “Ao montar frequentemente espetáculos como este, agitando problemas e fazendo provocações, os EUA estão a enviar sinais errados às forças da ‘independência de Taiwan’ e estão a aumentar intencionalmente as tensões no Estreito de Taiwan”, acusou o coronel Shi Yi.

“Ato mesquinho de ficção”

Na terça-feira, reagindo à nova redação do site do Departamento de Estado norte-americano sobre a realidade de Taiwan, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Zhao Lijian, reiterou que existe apenas uma China, Taiwan pertence à China e que a República Popular da China é o único governo legal que representa todo o país.

Citado pela Reuters, o responsável chinês afirmou que a mudança dos Estados Unidos na sua folha de factos sobre os laços Taiwan-EUA é "um ato mesquinho de ficção e esvaziamento do princípio de uma só China". Mais: "Este tipo de manipulação política sobre a questão de Taiwan é uma tentativa de alterar o status quo no Estreito de Taiwan, e irá inevitavelmente provocar um incêndio que só queima [os Estados Unidos]", disse Zhao.

Em resposta a estas acusações, o porta-voz do Departamento de Estado disse que, embora algumas palavras possam ter mudado, "a nossa política subjacente não mudou". "Fazemos regularmente atualizações nas nossas fichas informativas. As nossas folhas de factos refletem, no caso de Taiwan, a nossa sólida relação não oficial com Taiwan, e exortamos a RPC [República Popular da China] a comportar-se de forma responsável e a não fabricar pretensões para aumentar a pressão sobre Taiwan", disse Ned Price numa conferência de imprensa.

O Departamento de Estado também acrescentou no seu site uma redação sobre as Seis Garantias, referindo-se às garantias de segurança dadas a Taiwan no tempo de Ronald Reagan, e que os Estados Unidos só desclassificaram em 2020.

Reunificação a bem… ou a mal

Em simultâneo, os chefes dos serviços secretos norte-americanos disseram numa audiência do Congresso, também ontem, que a China poderá estar a preparar-se para reanexar Taiwan pela força. 

"É nossa opinião que [a China] está a trabalhar arduamente para se colocar efetivamente numa posição em que os seus militares sejam capazes de tomar Taiwan”, mesmo com uma intervenção norte-americana, disse Avril Haines, directora dos Serviços Secretos Nacionais.

Segundo Haines, Pequim preferia tomar Taiwan sem uma ação militar, mas está a trabalhar para chegar a uma posição em que os seus militares pudessem prevalecer mesmo que os Estados Unidos acorressem em defesa da ilha. 

"Penso que eles prefeririam fazê-lo pacificamente ao longo do tempo", reiterou o chefe da Agência de Inteligência da Defesa, Scott Berrier. "Acredito que [a China] preferiria não o fazer pela força", disse Berrier, embora admita que Pequim também está a preparar-se para esse cenário. 

Porém, ambos os responsáveis disseram que os EUA ainda não sabem que lições tirará o presidente chinês Xi Jinping daquilo que está a acontecer na guerra da Rússia na Ucrânia. A forma como Xi e o Partido Comunista Chinês interpretam os acontecimentos no Leste da Europa, e a reação das democracias aliadas dos Estados Unidos, podem ter impacto na sua abordagem a Taiwan e nos seus timings.

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