A China deixou sozinho o seu maior parceiro no Médio Oriente. E ainda ninguém percebeu porquê

3 mar, 22:00
Xi Jinping num encontro com militares (Li Gang/AP)

 

 

Apesar de ser dos países mais afetados pelos ataques ao Irão, a China mantém-se à margem do conflito no Médio Oriente. Cautela ou desinteresse?

No meio do conflito entre EUA, Israel e Irão, há um ator que parece particularmente "cauteloso" nas suas declarações e ações. A China sempre assumiu posições "ambíguas" e contidas nos conflitos mundiais, lembra Jorge Tavares da Silva, professor de Relações Internacionais, mas entretanto surgiu esta terça-feira um comunicado que sugere, no entender do professor, a intenção de Pequim de um maior envolvimento no que está a acontecer.

Enquanto os EUA e Israel atacavam o Irão, o parceiro mais próximo da China no Médio Oriente, anunciando a morte do aiatola Ali Khamenei e apelando aos iranianos para "acabarem o trabalho", Pequim respondeu com duras críticas, condenando os ataques e apelando à contenção, mas não indo além disso.

Esta terça-feira, porém, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, deixou claro, num comunicado emitido logo após um telefonema com o homólogo iraniano, que Pequim vai apoiar a defesa da soberania, da segurança e da integridade territorial do Irão. Jorge Tavares da Silva, especialista em estudos asiáticos, considera que esta declaração "não está no mesmo grau" das intervenções anteriores, mais cautelosas.

Neste comunicado, a China "predispõe-se, de uma maneira muito aberta, a apoiar o Irão neste conflito", conclui Jorge Tavares da Silva. "Não sabemos com que meios, mas poderá ser, por exemplo, não só do ponto de vista político, mas também do ponto de vista tecnológico - suporte logístico, equipamentos, know-how", aventa o professor.

O que é certo, para o especialista em assuntos asiáticos, com base neste comunicado, é que a China "parece mesmo disposta a apoiar com equipamento, de forma clara, a soberania do Irão".

Isto porque este conflito assume particular importância para Pequim, nomeadamente pelos seus interesses económicos na região. Basta lembrar que a China é o maior comprador de petróleo iraniano, sendo, por isso, dos países mais afetados pelo encerramento do Estreito de Ormuz, uma das principais vias energéticas e comerciais de todo o mundo.

Mas este argumento não convence Luís Mah, professor de Estudos Internacionais, que acredita que a China "vai encontrar outras soluções" para contornar as consequências económicas deste conflito, procurando outros fornecedores de petróleo bruto. "Poderá recorrer à Rússia", sugere o também especialista em assuntos asiáticos, salientando que Pequim não só "tem vindo a procurar uma forma de não ficar dependente energeticamente de nenhum lado" como também "depende cada vez menos dos combustíveis para a sua economia".

Por outro lado, acrescenta Luís Mah, a China tem de gerir este conflito de modo a não colocar em causa as restantes parcerias no Golfo Pérsico. Aliás, no telefonema com o homólogo iraniano, Abbas Araqchi, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros fez questão de sublinhar que Teerão deve atender às "preocupações legítimas dos seus vizinhos", vários dos quais foram alvo de ataques iranianos, como retaliação aos ataques dos EUA e Israel.

"Ou seja, a China não pode estar só do lado do Irão", argumenta Luís Mah, acrescentando que Pequim tem de "encontrar um equilíbrio" para defender igualmente a soberania dos outros países do Golfo Pérsico.

"A China não se vai envolver num conflito que não é seu"

Segundo The Economist, a realidade é que "a China não precisa do Irão da mesma forma que o Irão precisa da China". Além de importar mais de 80% das exportações de petróleo bruto iraniano, Pequim também vendeu recentemente tecnologia vital à República Islâmica do Irão, incluindo ferramentas de vigilância digital, que o regime usou para reprimir os protestos que eclodiram recentemente em várias cidades do país, refere o jornal.

Além disso, acresce que a China fez relativamente poucos investimentos diretos no Irão, apesar de ter prometido o contrário, no âmbito do acordo de cooperação estratégica de 25 anos firmado entre os dois países. "A China comprometeu-se a investir 400 mil milhões no país, mas de facto os dados que temos são 3 mil milhões. Ou seja, essa cooperação nem parece ter avançado muito", observa Luís Mah.

É por isso que, no entender do professor de Estudos Internacionais, o papel de Pequim neste conflito "não vai ser mais do que isto" de "mediar, moderar e tentar acalmar a situação".

"A China não se vai envolver num conflito que não é seu. Até lhe interessa manter-se distante deste conflito, porque, mantendo-se quieta, quem vai sair mal deste conflito são os Estados Unidos e Israel em termos internacionais", acrescenta.

Embora antecipe que a China pode "encontrar alternativas" para o abastecimento energético, Jorge Tavares da Silva admite que uma eventual "ameaça" à economia chinesa seria motivo para levar Xi Jinping a "reagir", não colocando "fora de hipótese um maior envolvimento da China neste conflito".

"Esse é um risco de qualquer conflito. Por isso é que as guerras são todas de evitar. Deve-se procurar sempre soluções de paz e diplomacia. Quando isso não é possível, enfim, nós não sabemos as consequências. Portanto, a possibilidade de alastramento [do conflito] está aí. Está aí e pode acontecer", prenuncia Jorge Tavares da Silva.

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