"Dogfighting" no espaço: EUA alertam que China já pratica manobras de combate com satélites

CNN , Simone McCarthy
23 mar 2025, 18:00
Estados Unidos e China (Kiichiro Sato/AP)

A China já está a praticar manobras de combate com satélites como parte das suas crescentes capacidades espaciais, segundo a Força Espacial dos Estados Unidos, que alerta que os principais rivais de Washington estão a reduzir a diferença tecnológica à medida que o Espaço se torna cada vez mais crítico para a segurança na Terra.

Na Conferência de Programas de Defesa McAleese, em Arlington, na Virgínia, o vice-chefe das operações espaciais, Gen. Michael A. Guetlein, revelou que o organismo norte-americano notou “cinco objetos diferentes no Espaço a manobrar uns com os outros de forma sincronizada e controlada”. “Isso é o que chamamos de dogfighting [manobras de combate] no Espaço. Eles [os chineses] estão a praticar táticas, técnicas e procedimentos para realizar operações espaciais em órbita de um satélite para outro”, continuou Guetlein, utilizando o termo ‘dogfighting’, que também se refere a combates de curta distância entre caças. 

Durante as suas declarações na conferência, Guetlein referiu-se aos “quase pares” dos EUA como praticantes dessas manobras em órbita. Um porta-voz da Força Espacial dos EUA confirmou depois à CNN que Guetlein se referia a operações realizadas pela China, que foram observadas através de informações disponíveis comercialmente.

Embora o propósito dessas operações não tenha sido claro - e alguns especialistas questionam o uso do conceito de manobras de combate espacial -, os comentários de Guetlein surgem numa altura em que analistas afirmam que um número crescente de países, incluindo a China, procuraram desenvolver tecnologias contra o Espaço.

Tais capacidades poderiam permitir a um país destruir ou desabilitar satélites, ou até que interrompesse as comunicações ou operações militares de um rival, como o lançamento e a deteção de mísseis. Essa interferência poderia também causar estragos nos sistemas de navegação global usados para tudo, desde serviços bancários e transporte de mercadorias até o envio de ambulâncias.

Os EUA têm analisado de perto a ascensão rápida da China como potência espacial nas últimas décadas, não apenas através dos seus ambiciosos programas de exploração lunar e do Espaço profundo, mas também o que os analistas descrevem como o aprofundamento das suas capacidades contra o Espaço.

Em resposta a uma pergunta sobre a China e a Rússia, Guetlein afirmou que ambos desenvolveram capacidades “excecionais” e citou o uso de bloqueadores para interromper os sinais dos satélites, a capacidade de deslumbrar satélites de vigilância e reconhecimento com lasers, bem como manobras que envolvem a captura de um satélite e o seu reboque para uma órbita diferente.

“Este é o ambiente estratégico mais complexo e desafiante que vimos nos últimos tempos, se não desde sempre”, vincou Guetlein, acrescentando que a força precisa de “capacidades para dissuadir e, se necessário, derrotar a agressão” para “garantir que a vantagem está do nosso lado” no futuro. “Antigamente havia uma diferença de capacidades entre nós e os nossos quase pares, principalmente devido ao avanço tecnológico dos Estados Unidos… essa diferença de capacidades reduziu-se significativamente”, reconheceu o vice-chefe das operações espaciais dos Estados Unidos.

O incidente de ‘dogfighting’ referido por Guetlein, as tais manobras de combate espaciais, envolveu uma série de manobras de satélites chineses em 2024 na órbita terrestre baixa, envolvendo três satélites experimentais Shiyan-24C e dois objetos espaciais experimentais chineses, os Shijian-6 05A/B, vincou um porta-voz da Força Espacial.

Pequim divulgou poucas informações públicas sobre os seus satélites experimentais e essas operações. O país incluiu a proteção dos seus “interesses de segurança no espaço exterior” entre os seus objetivos de defesa nacional num livro branco de 2019, mas afirmou sempre ser a favor do “uso pacífico do espaço exterior” e opõe-se a uma corrida armamentista no Espaço.

A CNN contactou o Ministério da Defesa da China e a Administração Estatal de Ciência, Tecnologia e Indústria para Defesa Nacional para obter comentários.

‘Dogfighting’ no espaço?

Dadas as dinâmicas físicas no espaço, as manobras descritas por Guetlein como 'dogfighting' seriam muito diferentes das realizadas no ar entre caças, neste caso envolvendo satélites a manobrar uns em torno dos outros usando propelente, dizem os especialistas.

Os analistas têm analisado de perto as interações entre satélites e outros objetos no espaço. Normalmente referidas como "operações de encontro e proximidade", essas manobras podem ser usadas para operações pacíficas, como manutenção de satélites ou limpeza de detritos - mas também poderiam permitir que países interferissem com os ativos de adversários. “As manobras próximas de outros satélites poderiam sugerir o desenvolvimento de uma arma contra o Espaço, porque aproximar-se de outro satélite significa que poderia potencialmente agarrá-lo, lançar uma rede ou projétil contra ele, ou usar uma arma de energia, como um laser ou bloqueador”, explica Clayton Swope, vice-diretor do Projeto de Segurança Aeroespacial no think tank Center for Strategic and International Studies, em Washington.

“Mas aproximar-se de outro satélite também poderia sugerir outros propósitos, como serviços no Espaço ou reabastecimento. Poderia também ser um satélite a tentar tirar uma fotografia de outro”, adianta, acrescentando que a China está a lançar “cada vez mais satélites que demonstram a capacidade de realizar manobras sofisticadas”.

“Não sabemos ao certo, pelo menos não publicamente, o que qualquer um desses satélites está a fazer, mas alguns estão provavelmente a fazer vigilância e também a testar novas tecnologias espaciais que poderiam ser usadas como armas contra o espaço”, diz ainda Swope.

Não há evidência pública confirmada de que a China tenha usado capacidades contra o Espaço contra alvos militares, segundo a Fundação Secure World, sediada nos EUA, num relatório anual sobre as capacidades contra o espaço dos países no ano passado.

A China realizou operações de encontro e proximidade semelhantes às referidas por Guetlein no passado, mas este incidente parece ter envolvido mais satélites do que outros, como revela à CNN Victoria Samson, diretora-chefe de segurança e estabilidade espacial da SWF. A Rússia e os EUA também são conhecidos por realizar operações de proximidade com os seus próprios satélites e com outros, acrescenta.

“É difícil dizer se esta capacidade chinesa é algo que os EUA não tenham, já que estamos a aprender sobre ela a partir de empresas comerciais dos EUA em SSA [consciência situacional no espaço], que geralmente são relutantes em discutir o que os satélites dos EUA estão a fazer”, vinca Samson, adiantando que referir-se às operações da China como “dogfighting” - ou manobras de combate no Espaço - “não é útil”, porque “automaticamente atribui intenções hostis a atividades que, francamente, os EUA também realizam”.

Os EUA não têm de momento um programa operacional reconhecido para atacar satélites a partir da órbita usando outros satélites ou naves espaciais, embora possam rapidamente desenvolver um no futuro, segundo o relatório anual da SWF. Isso porque os EUA realizaram testes “não ofensivos” extensivos de tecnologias para se aproximar e realizar encontros com satélites, incluindo aproximações de seus próprios satélites militares e vários satélites militares russos e chineses, disse a SWF.

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