Biden vai encontrar-se com Xi Jinping, quer discutir "linhas vermelhas" e promete não fazer cedências à China

10 nov, 04:35
Conferência de imprensa de Joe Biden

Presidente dos EUA estará no Camboja e na Indonésia e deverá ter o primeiro encontro presencial com Xi Jinping em Bali. Tensões militares e comerciais deverão dominar a conversa. Também haverá cimeira com o Japão e a Coreia do Sul

Superado o teste das eleições intercalares, Joe Biden parte esta quinta-feira para uma viagem internacional que começa no Egito, passa pelo Camboja e termina na Indonésia. A parte asiática da digressão inclui a participação nas cimeiras da ASEAN (organização de cooperação do sudeste asiático) e do G20 (que junta as 20 maiores economias globais). À margem destas cimeiras, Biden deverá ter um encontro bilateral com o líder chinês, Xi Jinping, marcado para dia 14 de novembro, próxima segunda-feira, e também com o presidente da Coreia do Sul e o primeiro-ministro do Japão. A tensão no Estreito de Taiwan e na Península da Coreia deverá estar no topo da agenda nestas conversações.

Foi o próprio presidente norte-americano quem anunciou, ontem, que tenciona reunir-se com Xi, naquele que será o primeiro encontro presencial de ambos desde que Biden ocupa a Casa Branca. Os dois líderes conhecem-se há alguns anos, desde o tempo em que ambos coincidiram como vice-presidentes dos respetivos países, entre 2009 e 2013. Porém, devido à pandemia, desde que Biden tomou posse todas as conversas com Xi aconteceram à distância, por videoconferência.

Não é claro em que momento acontecerá o encontro bilateral, que não tem ainda confirmação oficial, mas Biden revelou ontem que quer discutir com Xi as questões de segurança no Indo-Pacífico, em particular a situação de Taiwan e da Coreia do Norte. As forças de Pequim têm mantido um forte assédio militar em torno de Taiwan desde que a ilha foi visitada por Nancy Pelosi, em agosto, e no recente congresso do Partido Comunista Chinês Xi reafirmou o objetivo de “reunificar” a ilha com a China continental, ainda que para isso seja necessário recorrer à força. Biden, entretanto, reiterou o compromisso de segurança entre os EUA e Taiwan, e admitiu um envolvimento militar norte-americano na defesa da ilha, caso seja atacada pelas Forças Armadas chinesas. 

"Vou ter essa conversa com ele"

Em conferência de imprensa na quarta-feira, o presidente dos EUA disse que espera discutir Taiwan, comércio e outras questões com o seu homólogo chinês. O propósito de Biden, segundo o próprio, é discutir com Xi "o que são cada uma das nossas linhas vermelhas" e compreender os seus "interesses críticos". O objetivo é determinar se as linhas vermelhas de cada um dos lados “entram ou não em conflito e, se entrarem, como resolver". Mas, falando à comunicação social norte-americana, Biden prometeu que não fará quaisquer "concessões fundamentais".

Recentemente os EUA apresentaram uma série de documentos estratégicos sobre política externa e segurança, nos quais a China é invariavelmente apontada como o "único concorrente" que tem a intenção e o poder de desafiar os Estados Unidos e alterar a ordem internacional.

O pico de tensão em torno de Taiwan, após a visita de Pelosi, foi um dos momentos mais complexos das relações bilaterais nos tempos mais recentes, mas também os lançamentos de mísseis por parte da Coreia do Norte têm provocado choques entre Washington e Pequim: os Estados Unidos e os seus aliados pretendem impor novas sanções internacionais a Pyongyang, mas a China e a Rússia, com direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, têm protegido o regime de Kim Jong-un e travado as iniciativas nesse sentido. 

Os Estados Unidos têm defendido que só Xi tem capacidade de influenciar Kim Jong-un, bem como Vladimir Putin, e têm pressionado o líder chinês para que use o ascendente que tem sobre os seus aliados para desescalar as tensões.

Sobre Taiwan e a China, Biden reafirmou esta quarta-feira que "a doutrina de Taiwan não mudou em nada", garantindo que continua em vigor a política de uma só China, segundo a qual os EUA reconhecem Pequim como o único governo legal da China. Porém, Biden não só já se predispôs a envolver os EUA na defesa militar de Taiwan, para garantir o status quo na região, e o auto-governo de Taiwan, como afirmou recentemente que só os taiwaneses se podem pronunciar sobre o seu futuro e uma eventual declaração de independência. 

Questionado ontem sobre se dirá pessoalmente a Xi que os Estados Unidos estão empenhados em defender Taiwan de um ataque chinês, Biden respondeu: "Vou ter essa conversa com ele".

A concretizar-se, o encontro Biden-Xi deverá acontecer à margem da cimeira do G20, o grupo das 20 maiores economias globais, que acontece na ilha indonésia de Bali, durante dois dias, a partir de terça-feira. O presidente indonésio havia anunciado que também Vladimir Putin estaria na cimeira, mas ontem Biden disse que tem a informação de que o líder russo Vladimir Putin não irá à reunião.

EUA, Japão e Coreia do Sul discutem resposta a Kim Jong-un

Antes da cimeira do G20, Joe Biden estará na cimeira da ASEAN, à margem da qual deverá acontecer outro encontro relevante, com Fumio Kishida, primeiro-ministro do Japão, e Yoon Suk-Yeol, presidente sul-coreano. 

Na sua anterior visita à Ásia, em maio, Biden já havia juntado os dois líderes noutro encontro a três, num esforço para intensificar a cooperação de segurança entre Tóquio e Seul, que têm relações muito difíceis por razões históricas. Apesar do peso do passado, Biden exortou Kishida e Yoon a focarem-se numa colaboração que dê resposta às ameaças do presente, nomeadamente por parte da Coreia do Norte. A nova cimeira tripartida deverá acontecer no Camboja, neste domingo.

"Os três líderes vão trabalhar para continuar a reforçar a cooperação trilateral em todo o Indo-Pacífico, particularmente no que diz respeito aos nossos esforços conjuntos para lidar com a ameaça permanente representada pelos programas ilegais de armas de destruição maciça e mísseis balísticos da República Popular Democrática da Coreia", disse ontem à noite Adrienne Watson, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca (República Popular Democrática da Coreia é o nome oficial da Coreia do Norte).

Ainda esta quarta-feira a Pyongyang voltou a disparar um míssil balístico para o Mar do Japão, lançamento que coincidiu com a contagem dos votos das eleições intercalares nos EUA. Os serviços secretos da Coreia do Sul haviam avisado que o Norte poderia fazer um ensaio nuclear antes destas eleições, contudo, tal acabou por não acontecer - mas as informações de Washington e de Seul insistem que um novo teste nuclear poderá acontecer a qualquer momento, no que será o primeiro ensaio desde 2017.

Em outubro e novembro o regime de Kim Jong-un tem feito disparos reiterados de mísseis de vários tipos, tendo lançado 30 projéteis em apenas dois dias, na semana passada. A barragem de lançamentos terá sido uma resposta aos exercícios aéreos conjuntos entre EUA e Coreia do Sul, que envolveram mais de duas centenas de aviões de combate. Como retaliação, americanos e sul-coreanos prolongaram essa operação, batizada como “Tempestade Vigilante”.

Os exercícios conjuntos com força japonesas também se têm intensificado. Em outubro, Pyongyang lançou o míssil que voou para mais longe, tendo sobrevoando o Japão.

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