Quando a administração Trump apresentou, na semana passada, a sua nova Estratégia de Segurança Nacional (ESN), muitos especialistas repararam numa mudança significativa: a forma como fala - ou, mais precisamente, como não fala - da China.
Desapareceram as declarações abrangentes que classificavam a China como “o desafio geopolítico mais importante para os Estados Unidos”, tal como defendia a administração Biden. Também não surge grande parte da linguagem mais dura da ESN do primeiro mandato de Donald Trump, que em 2017 descrevia a China como um país que desafiava o “poder, a influência e os interesses” americanos.
Em vez disso, este novo documento - que todos os presidentes apresentam ao Congresso para expor a sua visão de política externa - coloca a rivalidade económica entre os EUA e a China no centro das atenções, quase não mencionando preocupações com autoritarismo ou abusos dos direitos humanos, temas recorrentes nos relatórios de administrações anteriores.
“Não há uma única referência à competição entre grandes potências com a China. A China é vista muito mais como um concorrente económico”, afirmou David Sacks, investigador na área de estudos asiáticos do Council on Foreign Relations.
Wen Ti-Sung, investigador não residente do Global China Hub do think tank Atlantic Council, descreveu o documento como um “reequilíbrio entre interesses e valores”.
Em vez de os EUA se apresentarem como a “cidade luminosa no topo da colina” - o modelo do presidente Ronald Reagan, de uma nação que atua como farol de liberdade para o mundo - a nova ESN de Trump é “sobre a América em primeiro lugar, sobre concentrar-se no desenvolvimento interno do país e falar de comércio, quase acima de tudo”, acrescentou Wen.
Outro indício da forma como Trump encara a China na sua lista de prioridades em matéria de segurança está no simples facto de o país ser pouco mencionado: surge pela primeira vez apenas na página 19 de um documento com 33 páginas e ocupa apenas uma secção, num relatório que também aborda a Europa, África, o Médio Oriente e outras regiões. Em comparação, a ESN de Biden, de 2022, discute a China repetidamente ao longo das suas 48 páginas.
Esta mudança de tom e o enfoque estritamente económico parecem ter sido bem recebidos em Pequim. Questionado sobre a ESN numa conferência de imprensa na segunda-feira, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Guo Jiakun, sublinhou os benefícios do “respeito mútuo, da coexistência pacífica e da cooperação vantajosa para ambas as partes”.
“A China está disposta a trabalhar com os EUA para promover o desenvolvimento estável e contínuo das relações sino-americanas, salvaguardando firmemente a sua própria soberania, segurança e interesses de desenvolvimento”, afirmou.
Embora Guo tenha reiterado a posição da China sobre temas sensíveis como Taiwan - uma democracia insular autogovernada que Pequim reivindica como seu território -, a sua declaração foi, de resto, cautelosamente neutra, sem a retórica agressiva que frequentemente caracteriza as respostas chinesas à política norte-americana.
“Li isso como algo bastante positivo”, disse Sacks, apontando para o facto de Trump planear visitar Pequim na próxima primavera, numa cimeira muito aguardada.
“Acho que os chineses também estão a dizer que a porta está aberta à cooperação económica e que querem trabalhar com vista à reunião de abril entre os dois líderes.”
No entanto, alguns sectores na China interpretaram a ESN de Trump com maior prudência, alertando que a mudança de linguagem não equivale necessariamente a um recuo.
O tabloide estatal Global Times citou um especialista que advertiu que a nova estratégia dos EUA “enfatiza repetidamente a necessidade de eliminar quaisquer concorrentes externos ou ameaças aos interesses americanos”, refletindo a competição contínua entre as duas nações.
Meng Weizhan, investigador do Instituto Fudan para Estudos Avançados em Ciências Sociais, fez um aviso semelhante. “A mudança na formulação não significa que os EUA deixaram de ver a China como um concorrente”, escreveu num artigo, acrescentando que Trump poderá estar a mudar de tática para “procurar uma posição mais vantajosa”.
A economia como a "aposta final"
A ESN deixa claro o seu foco logo desde o início, declarando a economia como “as apostas finais”. O documento fala longamente sobre a relação comercial entre os dois países, incluindo o desequilíbrio entre as exportações da China para países de baixo rendimento e para os EUA.
“Daqui para a frente, iremos reequilibrar a relação económica da América com a China, dando prioridade à reciprocidade e à equidade, para restaurar a independência económica americana”, lê-se no texto.
Trata-se de uma diferença marcante face à ESN de 2017, que “descrevia a China como uma potência revisionista”, explicou Sacks. “Esta não diz nada sobre as ambições estratégicas da China… nem sobre se estas são compatíveis com os interesses dos EUA.”
Particularmente notória é a ausência de qualquer contraste ideológico ou referência a preocupações com os direitos humanos, aspetos centrais nos dois documentos anteriores.
A administração Biden tinha destacado o papel de Pequim em alegados crimes de genocídio em Xinjiang, violações dos direitos humanos no Tibete e o desmantelamento das liberdades e da autonomia em Hong Kong. Em 2017, o documento do primeiro mandato de Trump criticava a China pelo seu autoritarismo, vigilância em massa e pela tentativa de criar uma nova ordem mundial em conjunto com a Rússia.
“Isso está completamente ausente deste documento”, afirmou Sacks, acrescentando que Pequim estará “provavelmente bastante satisfeita… porque (a ESN) não estabelece uma competição existencial com a China”.
Poderão existir várias razões para esta mudança. A administração Trump pode estar a tentar jogar pelo seguro antes da reunião de abril entre o presidente e o líder chinês Xi Jinping, evitando pôr em risco acordos ou negociações, sugeriu Sacks.
Pode também refletir uma mudança na composição do gabinete de Trump, que no primeiro mandato incluía mais “pensadores republicanos tradicionais na área da segurança nacional” do que no atual. Ou talvez a mais recente guerra comercial tenha sido inesperadamente humilhante para os EUA, alterando a forma como a Casa Branca encara Pequim.
“Havia muitos que acreditavam que os Estados Unidos tinham domínio na escalada”, disse Sacks. Mas “temos visto nos últimos meses que existe um nível de interdependência entre EUA e China… e que ambos os países podem causar danos significativos um ao outro no plano económico”.
Um novo foco: Taiwan
Esta nova ESN também dá menos atenção a pontos de tensão geopolítica sensíveis, segundo os especialistas. Por exemplo, a ESN de Biden mencionava vários conflitos regionais em curso, incluindo o golpe militar em Myanmar e a desnuclearização da Península Coreana. Em contraste, esta versão não menciona a Coreia do Norte uma única vez.
A única questão geopolítica que aborda é Taiwan - um tema delicado em relação ao qual Washington tem andado há muito tempo sobre uma linha ténue.
O Partido Comunista Chinês, no poder, prometeu assumir o controlo da ilha um dia, recorrendo à força se necessário, e considera esta questão uma das suas principais linhas vermelhas.
Washington mantém laços estreitos, ainda que não oficiais, com Taiwan e está legalmente obrigado a vender armas à ilha para a sua autodefesa - apesar de reconhecer a República Popular da China como o único governo legítimo da China e de reconhecer a posição de Pequim de que Taiwan faz parte da China.
No entanto, embora os EUA nunca tenham aceite a reivindicação de soberania do PCC sobre a ilha, Washington tem permanecido, em grande medida, vago quanto a uma eventual intervenção em caso de ataque chinês - uma política conhecida como “ambiguidade estratégica”.
Na mais recente ESN, e em comparação com versões anteriores que apenas faziam uma breve referência a Taiwan, Trump dedica vários parágrafos à ilha - sublinhando a sua maior importância na agenda presidencial, segundo Sacks.
“Existe, justificadamente, um forte foco em Taiwan, em parte devido ao domínio de Taiwan na produção de semicondutores, mas sobretudo porque Taiwan proporciona acesso direto à Segunda Cadeia de Ilhas e divide o Nordeste e o Sudeste Asiático em dois teatros distintos”, lê-se no novo documento.
“Tendo em conta que um terço do transporte marítimo mundial passa anualmente pelo Mar do Sul da China, isto tem grandes implicações para a economia dos EUA. Assim, dissuadir um conflito em torno de Taiwan, idealmente através da manutenção de uma superioridade militar, é uma prioridade”, acrescenta, defendendo que os EUA e os seus aliados devem aumentar a despesa em defesa para impedir que “uma potência potencialmente hostil imponha um sistema de portagens numa das mais vitais rotas comerciais do mundo”.
O documento envia uma mensagem forte de dissuasão a Pequim, o que pode ser uma boa notícia para Taiwan, disse Sacks. No entanto, suaviza a linguagem noutros pontos - afirmando que os EUA “não apoiam qualquer alteração unilateral ao status quo no Estreito de Taiwan”, em vez da formulação anterior de “se oporem” a qualquer alteração desse tipo.
Isso poderá ser bem acolhido por Pequim, tornando a secção sobre Taiwan na ESN num conjunto confuso de mensagens contraditórias, acrescentou Sacks.
A resposta do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, na segunda-feira, foi igualmente contida, com o porta-voz Guo a instar os EUA a “tratarem a questão de Taiwan com a máxima cautela”.
As pessoas em Taiwan estarão provavelmente numa postura de “esperar para ver”, talvez sentindo ambivalência ou incerteza quanto à sua posição sob a nova ESN, disse Wen, do Atlantic Council.
“Acho que Taiwan está a olhar para Washington para perceber se esta demonstração de boa vontade e responsabilidade conduzirá finalmente a maior consolidação e previsibilidade num apoio firme dos EUA a Taiwan no futuro”, concluiu.