Em mais de três horas de entrevistas à CNN, Ma Ruilin revelou o seu papel na conceção e implementação de programas de repressão das minorias religiosas na China. Detalhou ainda a expansão da escala e do âmbito do Departamento de Trabalho da Frente Unida (DTFU), um ramo obscuro do Partido Comunista onde trabalhou
Enquanto o vapor sobe do fogão, Ma Ruilin estica à mão a massa fresca para o almoço no restaurante chinês que gere em Nova Iorque. O próprio admite que a maioria dos seus antigos camaradas no seio do Partido Comunista Chinês não compreenderia o motivo pelo qual abandonou uma vida confortável como funcionário governamental para trabalhar numa cozinha do outro lado do mundo.
Mas, após um crescente sentimento de desilusão face às políticas de Pequim, o homem de 50 anos tomou a decisão de arriscar tudo (incluindo a própria família) e fugir para os Estados Unidos. Agora, dá um passo em frente para se tornar num raro denunciante do sistema chinês, expondo segredos bem guardados sobre a forma como a China espia os seus cidadãos no país e no estrangeiro, incluindo em território norte-americano.
"O sistema sempre foi perverso", alertou, justificando a fuga com um aviso: "Se não nos formos embora, continuaremos a fazer o mal lá dentro".
Em mais de três horas de entrevistas à CNN, Ma Ruilin revelou o seu papel na conceção e implementação de programas de repressão das minorias religiosas na China. Detalhou ainda a expansão da escala e do âmbito do Departamento de Trabalho da Frente Unida (DTFU), um ramo obscuro do Partido Comunista onde trabalhou.
Criada durante a era do líder revolucionário Mao Tsé-Tung, a Frente Unida transformou-se, sob a atual liderança de Xi Jinping, numa vasta máquina de propaganda e influência concebida para pressionar os cidadãos dentro e fora do país a apoiarem as políticas do regime.
A CNN confirmou a identidade do ex-governante de nível intermédio após analisar documentos, fotografias e registos telefónicos. No entanto, o canal não consegue verificar as suas alegações de forma independente.
A decisão de falar contra o sistema de onde escapou fornece provas importantes de alguém que esteve no interior da máquina, numa altura em que as autoridades norte-americanas intensificam o combate à "repressão transnacional" (as táticas de intimidação que Pequim é acusada de utilizar contra a sua própria diáspora).
O diretor adjunto da Divisão de Contraespionagem do FBI, Roman Rozhavsky, explicou à CNN tratar-se de "uma campanha do governo chinês para silenciar a dissidência em solo norte-americano", classificando-a como "muito agressiva e generalizada".
O responsável adiantou que "centenas" de operacionais chineses estão a trabalhar no interior dos Estados Unidos, o que constitui uma "grave violação da soberania norte-americana", havendo muitos mais a atuar remotamente a partir da China.
Centenas de funcionários do FBI estão concentrados nesta questão, tendo já sido deduzidas várias acusações contra indivíduos ligados a Pequim por suspeitas de espionagem. Contudo, o investigador alertou que as autoridades americanas são "superadas em recursos pela China em muitas áreas".
A CNN enviou um pedido detalhado de reação às alegações à Embaixada da China em Washington. No passado, Pequim tem negado veementemente quaisquer acusações de espionagem ou atividades ilegais em solo estrangeiro.
Em janeiro de 2024, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, acusou: "Os Estados Unidos, por um lado, disseminam repetidamente falsas informações sobre os chamados espiões chineses e, por outro, declaram abertamente querer lançar atividades de espionagem em larga escala contra a China".
"Clima de medo orwelliano"
A partir da sua pequena cidade natal no condado de Lintan, aninhada entre as montanhas cobertas de neve na orla do Planalto Tibetano, Ma Ruilin cresceu a sonhar escapar aos invernos longos e brutais.
Mudou-se para Lanzhou, a capital da província de Gansu, no noroeste da China, para frequentar a universidade. Passou depois 24 anos a subir na hierarquia do sistema partidário, tornando-se finalmente secretário-adjunto do Comité Provincial do Partido Comunista no Departamento de Trabalho da Frente Unida.
Desde a sua criação, a "frente unida" tem sido simultaneamente uma filosofia política e uma ramificação do Partido Comunista, descrita por Mao e Xi como uma das "armas mágicas" da China para fortalecer o regime. O departamento está profundamente interligado com o aparelho de segurança pública e estatal, criando "'um só tabuleiro de xadrez', tudo junto, um todo", ilustrou o ex-governante.
O partido tem expandido esta estratégia nos últimos anos, com apelos a "medidas mais fortes para implementar" o trabalho da Frente Unida e assim "melhorar a capacidade" da operação, de acordo com a agência noticiosa estatal chinesa Xinhua. O denunciante garantiu que o número de funcionários "basicamente duplicou" desde 2019.
"O Departamento de Trabalho da Frente Unida tem-se expandido continuamente", sublinhou Ma Ruilin, deixando uma constatação: "Quando estes departamentos do Partido se expandem, a sociedade contrai-se e aperta-se".
O mesmo admitiu ainda ter visto um documento interno que mostrava a detenção de alguns informadores nos Estados Unidos, garantindo sem reservas: "Há definitivamente trabalho nos Estados Unidos, não há qualquer dúvida sobre isso".
Os especialistas notam que, nos últimos anos, as táticas deste organismo evoluíram e tornaram-se cada vez mais agressivas.
A diretora da organização de direitos humanos Safeguard Defenders, Laura Harth, alertou que a Frente Unida "foi transformada numa arma", acrescentando que as táticas de repressão são o "reverso da medalha" das campanhas de influência.
Pessoas ligadas ao departamento têm sido acusadas de assediar e intimidar ativistas e críticos, na sua maioria pertencentes a grupos que a China define como os "Cinco Venenos": defensores da independência ou de maior liberdade para Taiwan, Hong Kong, Tibete, Xinjiang, e os seguidores do movimento espiritual proibido Falun Gong.
Ma confirmou esta teia de vigilância: "Cada departamento provincial tem a sua rede de informadores que visa Taiwan, Hong Kong e Macau".
Lin Hai, um cidadão chinês que vive em Nova Iorque e trabalha como motorista da Uber, relatou ter sido espancado e ferido por manifestantes pró-China durante um comício em 2019, de apoio a uma visita da então presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen.
"Fiquei em choque, porque nunca esperei ser ameaçado ou espancado em solo americano", desabafou.
Manifestantes opositores do regime chinês também protagonizaram confrontos violentos com grupos pró-Pequim perto da cimeira da APEC de 2023, em São Francisco, que contou com a presença de Xi Jinping.
A Frente Unida estende os seus tentáculos a algumas organizações estudantis e grupos comunitários nos Estados Unidos conhecidos como "associações de conterrâneos". A China defende que estes grupos ajudam os emigrantes em tarefas diárias, como a obtenção de cartas de condução. Porém, o diretor do FBI contraria esta tese, afirmando que os locais também servem para recrutar "pessoas dispostas a envolver-se na repressão transnacional".
O antigo funcionário explicou que o recrutamento é por vezes feito com recurso a dinheiro ou benefícios, deixando um aviso: "Há demasiadas formas de conquistar alguém e de o corromper".
Um relatório recente da Fundação Jamestown, um centro de reflexão sediado em Washington, identificou mais de 2 mil organizações ligadas ao sistema da Frente Unida em quatro países democráticos: Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Alemanha. Quase metade destes grupos está sediada em território norte-americano.
A Frente Unida é referida em várias acusações do Departamento de Justiça norte-americano em casos de repressão transnacional, incluindo um processo de 2023 contra dois sino-americanos acusados de gerir uma esquadra de polícia chinesa secreta no bairro de Chinatown, em Manhattan.
De acordo com a acusação, um dos homens (que se declarou inocente) foi abordado por um funcionário da Frente Unida para instalar a esquadra. O outro arguido confessou ter conspirado para atuar como agente do governo chinês.
O posto de Manhattan era uma de pelo menos 102 esquadras chinesas a operar a nível mundial, geridas por serviços regionais de segurança pública com ligações diretas ao departamento, segundo um relatório de 2022 da Safeguard Defenders.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Lin Jian, negou as acusações em dezembro de 2024, asseverando que "não existem as chamadas esquadras de polícia secretas". E acrescentou que a China "sempre cumpriu rigorosamente o direito internacional e respeitou a soberania judicial de todos os países".
A Freedom House, uma organização não-governamental com sede em Washington, documentou 1.219 incidentes de repressão transnacional a nível global entre 2014 e 2024. A diretora de investigação da entidade, Yana Gorokhovskaia, alertou que os números representam apenas "a ponta do icebergue", uma vez que só registam ocorrências físicas e não situações online.
A investigadora detalhou que quase um quarto dos incidentes registados terá sido levado a cabo pela China, o "maior perpetrador do mundo" com "a campanha mais sofisticada e abrangente a nível global".
O leque de táticas de Pequim inclui pressões físicas, digitais, coação sobre familiares e controlo de passaportes, a par de "detenções, extradições, ameaças credíveis e agressões físicas", enumerou.
O FBI admite que a diáspora chinesa se encontra vulnerável nos Estados Unidos.
Roman Rozhavsky resumiu o perigo: "Se for popular, tiver voz ativa e muitos seguidores, será visto como uma ameaça".
As táticas incluem ameaçar as famílias, enviar funcionários chineses para os Estados Unidos para assediar indivíduos e contratar investigadores privados para vigiar pessoas ou mesmo cometer atos de violência, detalhou o responsável. Apontou ainda o dedo à cúpula do regime: "Estão a criar um clima de medo orwelliano em que todos têm receio de falar, muito embora estejam em solo norte-americano e tenham o direito de o fazer. Isto é dirigido a partir dos níveis mais altos do governo chinês".
Minorias "acorrentadas"
As alegadas táticas de vigilância e intimidação dos emigrantes nos Estados Unidos foram aperfeiçoadas ao longo de anos de prática no interior da China, de acordo com o denunciante.
Enquanto muçulmano Hui, uma minoria que fala maioritariamente chinês, foi incumbido de vigiar grupos religiosos durante grande parte da sua carreira, incluindo cristãos e os seus próprios companheiros muçulmanos.
O antigo governante relatou que o seu departamento esteve envolvido no encerramento de mesquitas, na remoção de cúpulas, na expulsão de imãs, na contratação de informadores e na instalação de câmaras de vigilância em locais de culto em Gansu. A informação recolhida levou ao envio de pessoas inocentes para campos de prisioneiros ou cadeias.
Ma Ruilin começou a prestar mais atenção à situação por volta de 2014, quando a China iniciou uma repressão brutal sobre a etnia uigur e outras minorias muçulmanas na região ocidental de Xinjiang (uma política que o governo norte-americano descreveu como genocídio). Os Estados Unidos e as Nações Unidas estimam que até dois milhões de pessoas tenham sido detidas numa gigantesca rede de campos de internamento, locais que a China rotulou como "centros de formação profissional" voluntários.
Nos últimos anos, a CNN tem noticiado extensamente a situação em Xinjiang, recolhendo testemunhos de quem alega ter sofrido tortura e violação dentro do sistema de campos, bem como esterilização forçada e a separação violenta de pais e filhos.
"Conheço todos os detalhes e tudo o que aconteceu nos campos de Xinjiang, até os pormenores. Sei quão cruel foi, como faziam as coisas e como 'geriam' as pessoas", confessou o ex-funcionário.
Em 2016, assumiu o cargo de diretor do gabinete do Hajj (parte do Departamento de Assuntos Religiosos local, que viria mais tarde a ser integrado na Frente Unida). O responsável acompanhou pessoalmente muçulmanos chineses nas suas peregrinações a Meca, na Arábia Saudita, tendo desenvolvido uma pulseira equipada com tecnologia de radiofrequência para rastrear os viajantes. Pensou que o dispositivo os manteria seguros, mas mais tarde percebeu que a verdadeira finalidade era a vigilância.
Ma criou também uma base de dados de locais e funcionários religiosos em Gansu, com o objetivo inicial de melhorar a eficiência administrativa. Quando a política foi mais tarde expandida a todo o país, arrependeu-se de ter iniciado o projeto, percebendo que este se tornaria numa "corrente" para os grupos religiosos.
"Apercebi-me de que tinha feito algo terrivelmente e enormemente errado", admitiu.
O denunciante revelou que quadros das províncias de Gansu e Ningxia foram enviados para Xinjiang para aprender como os funcionários locais tratavam a população muçulmana. A mensagem transmitida era clara: "Vejam como Xinjiang faz a gestão; vocês estão a ser demasiado tolerantes".
Na última vez que visitou Xinjiang como turista, em 2023, ficou chocado com a transformação da capital, Urumqi. O local, culturalmente único quando o visitou pela primeira vez em 1996, parecia agora igual a qualquer outra cidade chinesa. A CNN já tinha documentado anteriormente a remoção de mesquitas, cemitérios e outros locais religiosos na região.
A partir de 2018, segundo o ex-governante, funcionários de Xinjiang foram também enviados em visitas ao Ruanda para estudar "um genocídio real", numa referência aos massacres de 1994 que mataram centenas de milhares de pessoas. As viagens destinavam-se a reduzir a culpa dos responsáveis ao constatarem quão "benevolente" o Partido era em comparação, servindo igualmente para lhes dar novas ideias.
"Isso ensina-nos a usar métodos ainda mais brutais para atormentar as pessoas", frisou.
Ao longo destes anos, Ma Ruilin começou a sentir um remorso crescente pela sua cumplicidade no sistema, o que desencadeou uma reflexão mais profunda sobre a sua identidade enquanto muçulmano e o significado disso no seio da sociedade chinesa. A crescente islamofobia na China agravou o que descreve como "ansiedade identitária", passando a sentir-se cada vez mais como um cidadão de segunda classe.
"O Partido Comunista tem um plano sistemático de genocídio contra as minorias e, passo a passo, está a implementá-lo junto de uigures, mongóis, tibetanos e hui", denunciou. E deixou um alerta: "Desde que a vossa aparência não seja exatamente igual à corrente dominante do partido, eles vão assimilar-vos".
Pequim tem negado repetidamente as alegações de genocídio e violações dos direitos humanos contra as minorias religiosas, defendendo que estes grupos estão protegidos pela lei chinesa. Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros assegurou, em fevereiro de 2024, que a região "goza de estabilidade social, desenvolvimento económico, unidade étnica e harmonia religiosa, estando os direitos e interesses das pessoas de todos os grupos étnicos em Xinjiang efetivamente salvaguardados".
Desde que chegou ao poder, Xi Jinping intensificou os esforços para assimilar as minorias étnicas e lançou uma campanha nacional para "sinizar" a religião, garantindo o alinhamento com a liderança e os valores comunistas.
O ex-funcionário lamentou este endurecimento: "Nunca foi tão grave como sob a alçada de Xi: tão sistemático, tão intenso". E, referindo-se aos antigos colegas do partido em Gansu, confidenciou: "Com base no meu entendimento, em privado ninguém gosta dele. Mas, à superfície, todos têm de o elogiar".
"Dar alguma esperança aos outros"
Após anos a debater-se com a própria identidade, Ma concluiu finalmente que não podia permanecer na China.
"Quanto mais tempo passava dentro daquele sistema, maior era o sentimento de culpa", justificou, acrescentando: "Sempre quis escapar daquela vida de prisão".
Quando chegou aos Estados Unidos em fevereiro de 2024, com a mulher e dois filhos, o desafio seguinte foi a adaptação a um nível de vida inferior, em forte contraste com a existência privilegiada que tinham deixado para trás.
"A minha mulher era professora universitária, e eu estava dentro do sistema do partido e numa trajetória ascendente. Por isso, vivia uma vida sem preocupações", recordou.
O seu primeiro emprego em Nova Iorque foi a entregar comida pela Uber Eats. Mudou-se também para uma casa partilhada em Flushing, um bairro popular entre os imigrantes chineses. Atualmente, gere dois restaurantes de massa típica de Lanzhou, servindo o prato de assinatura da sua terra natal: caldo de carne halal com massa esticada à mão e rabanete.
Ma garantiu que o trabalho é exaustivo, mas confessou estar "muito, muito feliz" em Nova Iorque, sem quaisquer arrependimentos. Avançou ainda que a mãe e as irmãs ainda se encontram na China, apesar das tentativas para obterem vistos americanos. Embora reconheça que a decisão de denunciar as práticas do regime "lhes trará muitos problemas", sente que não tem outra alternativa.
"Se eu não der o passo em frente, sinto genuinamente que ninguém o fará", desabafou.
Traçando um retrato negro, avisou que "a comunidade muçulmana da China vive num mundo muito sombrio, numa era sem esperança". E delineou a sua missão: "Quero erguer-me nesta era e dar alguma esperança aos outros".
O antigo responsável reconheceu que tornar esta informação pública pode causar-lhe "um grande desastre", mas espera que o gesto lhe traga também alguma redenção.
"O que estou a fazer agora é o meu arrependimento, o meu pedido de desculpas", declarou. Quanto à família que ficou na China, conforma-se gradualmente com a ideia de nunca mais a voltar a ver. Como última reflexão, deixou apenas um desejo: "Só posso rezar para que me perdoem".