China falha meta de crescimento pela primeira vez desde a pandemia. Guerra dos EUA no Irão pressiona Pequim

CNN , Stephanie Yang e John Liu
15 jul, 11:20
A central eólica e fotovoltaica no topo do Monte Mi, em Xuzhuang, no distrito de Shanting, cidade de Zaozhuang, província chinesa de Shandong, a 8 de julho de 2026. CFOTO/Future Publishing/Getty Images
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Consumo fraco trava economia da China apesar do impulso das exportações

A China está a ter dificuldades em compensar os desafios económicos internos e externos, numa altura em que a economia cresceu a um ritmo inferior ao esperado no segundo trimestre do ano.

O Gabinete Nacional de Estatísticas da China anunciou esta quarta-feira que a economia cresceu 4,3% no trimestre terminado a 30 de junho, face ao mesmo período do ano passado.

O valor ficou abaixo das previsões dos analistas, que apontavam para um crescimento de 4,5%, representando um raro reconhecimento de fragilidade económica por parte de Pequim, que durante anos procurou sustentar a atividade industrial através do investimento em infraestruturas e das exportações.

Os números também ficam aquém da meta de crescimento fixada pela China para este ano, entre 4,5% e 5%, a mais baixa desde que Pequim começou a anunciar objetivos oficiais de crescimento no início da década de 1990. Em 2020, durante a pandemia de covid-19, as autoridades optaram por não estabelecer qualquer meta.

Os dados mais fracos sugerem que o consumo interno continua demasiado débil para compensar o recente dinamismo das exportações chinesas e mostram igualmente que o país não está imune à turbulência económica provocada pela guerra no Irão.

"Não há procura interna, tudo depende das exportações — para ser sincera, isto é completamente insustentável", afirma Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico da Natixis.

A desaceleração do setor imobiliário e um mercado de trabalho difícil têm levado os consumidores chineses a conter os gastos, apesar de a economia continuar a crescer de forma relativamente estável. No início desta semana, Pequim apresentou o seu primeiro plano estratégico de cinco anos destinado a estimular o consumo e aumentar as vendas anuais no comércio a retalho para cerca de 9 biliões de dólares (cerca de 7,7 biliões de euros) até 2030.

O investimento industrial e imobiliário caiu acentuadamente no primeiro semestre, sinalizando que dois dos pilares históricos da economia chinesa estão a perder capacidade para compensar a fraqueza do consumo. O investimento em ativos fixos recuou 5,7% em termos homólogos, enquanto o investimento imobiliário caiu 18%.

"São provavelmente os piores dados possíveis para o investimento", considera Garcia-Herrero. "Mesmo com as infraestruturas a atenuarem parte do impacto, isso está longe de ser suficiente."

Fragilidades estruturais

Os números divulgados esta quarta-feira surgem depois de um arranque de ano mais forte do que o esperado, com a economia chinesa a crescer 5% no primeiro trimestre. No segundo trimestre, as exportações aumentaram 27%, superando as previsões graças ao forte desempenho das vendas de semicondutores e componentes informáticos.

Mas, apesar da procura internacional pelos produtos chineses continuar robusta, o consumo interno permanece um dos principais pontos fracos do desenvolvimento económico do país.

Esta divergência evidencia uma "economia a duas velocidades" cada vez mais pronunciada na China: as tecnologias avançadas alimentam o forte motor exportador, enquanto a procura por bens de consumo do dia a dia continua estagnada no mercado interno. Os analistas consideram que estas fragilidades levantam também a questão de saber se Pequim recorrerá a novos estímulos orçamentais para incentivar o consumo.

"Embora um pacote de estímulos em larga escala pareça improvável, medidas seletivas e direcionadas para reforçar o consumo e o investimento poderão ajudar a estabilizar o dinamismo da economia chinesa", afirma Woei Chen Ho, economista do UOB especializado nos mercados da Grande China.

As vendas a retalho, um dos principais indicadores do consumo, cresceram 1% em junho face ao mesmo mês do ano passado, recuperando da primeira quebra registada desde dezembro de 2022, observada em maio.

O aumento dos custos da energia durante a guerra no Irão ajudou a retirar a China de um dos períodos mais longos de deflação, numa altura em que o país enfrenta excesso de capacidade industrial e uma procura interna fraca. Em maio, o preço internacional do petróleo chegou aos 114 dólares por barril (cerca de 97 euros), devido aos ataques no Médio Oriente e ao encerramento efetivo do Estreito de Ormuz, que limitou o fornecimento proveniente do Golfo.

Ainda assim, a continuação das hostilidades entre os Estados Unidos e o Irão poderá representar novos desafios para a economia chinesa. Embora a China tenha conseguido amortecer parte dos choques nas cadeias de abastecimento, combustíveis e matérias-primas mais caros poderão prejudicar a confiança dos consumidores e afetar a atividade industrial.

"A possibilidade de um novo agravamento do conflito no Médio Oriente continua elevada e poderá prolongar a volatilidade dos preços das matérias-primas, ameaçar ainda mais as cadeias de abastecimento, aumentar os preços e agravar as condições financeiras", escreve o Fundo Monetário Internacional (FMI) no relatório divulgado em julho.

No início deste mês, o FMI reviu em alta a previsão de crescimento da China para este ano, de 4,4% para 4,6%, sustentado pelo desempenho da indústria tecnológica e das exportações. Em contrapartida, reduziu a previsão de crescimento da economia mundial de 3,1% para 3,0%.

Fatores que amortecem o impacto

A maior resiliência energética da China e a capacidade de produzir rapidamente bens a baixo custo para exportação ajudaram a limitar parte do impacto económico da guerra no Irão. Ao mesmo tempo, o forte investimento mundial em inteligência artificial e centros de dados impulsionou a procura por equipamento informático, oportunidade que os fabricantes chineses estão a aproveitar.

No entanto, sem um consumo interno robusto, a forte dependência das exportações deixa a economia chinesa particularmente vulnerável a uma eventual inversão do entusiasmo em torno da inteligência artificial, o que afetará as vendas de produtos tecnológicos.

Numa nota de investigação publicada esta semana, a Macquarie refere que os semicondutores, componentes informáticos e equipamentos elétricos representaram cerca de metade do crescimento das exportações chinesas no primeiro semestre.

"A procura externa tem sido o principal ponto forte da economia chinesa em 2026", escrevem os analistas da Macquarie. "A força dessa procura determinará até que ponto Pequim terá de apoiar a procura interna."

A crise petrolífera provocada pelo conflito no Irão também impulsionou a procura pelas tecnologias chinesas de energia limpa, como baterias e veículos elétricos, à medida que os grandes importadores de energia procuram reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Dados do comércio externo divulgados esta semana mostram que as exportações mensais de automóveis ultrapassaram um milhão de unidades pela primeira vez em junho.

Ao mesmo tempo, as importações aumentaram 36% em termos homólogos, atingindo o nível mais elevado dos últimos cinco anos, apesar de a China ter reduzido as importações mensais de petróleo bruto para valores próximos dos mínimos da última década, menos 41,3% do que no mesmo período do ano passado.

O excedente comercial da China, que aumentou para 125,62 mil milhões de dólares (cerca de 107 mil milhões de euros) em junho, poderá agravar as tensões com parceiros comerciais, incluindo a União Europeia, que acusa Pequim de inundar o mercado europeu com exportações industriais.

Um porta-voz das alfândegas chinesas afirmou esta terça-feira que o país continuará a aumentar as importações para promover um desenvolvimento mais equilibrado do comércio.

Ainda assim, o recente degelo nas relações entre Washington e Pequim, depois da visita do presidente norte-americano Donald Trump à capital chinesa em maio, poderá abrir caminho a mais comércio e investimento entre os dois países. As exportações chinesas para os Estados Unidos cresceram 26% em junho face ao mesmo mês do ano passado, um mês depois de terem registado o ritmo mais rápido desde o início de 2021.

Julian Evans-Pritchard, economista-chefe para a China da Capital Economics, escreve que, embora o abrandamento do crescimento fosse esperado há muito tempo, os dados mais recentes mostram alguns sinais encorajadores de estabilização da atividade dos consumidores.

Mais surpreendente, acrescenta, foi a decisão das autoridades chinesas de divulgarem números do PIB abaixo da meta oficial, o que poderá dar ao governo maior margem para publicar no futuro dados de crescimento que reflitam de forma mais fiel a realidade económica.

"As autoridades parecem dispostas a limitar a sobrestimação dos dados e a permitir que o crescimento publicado fique próximo do limite inferior do objetivo estabelecido", afirma Evans-Pritchard numa nota de investigação. "Se for esse o caso, os números do PIB não devem ser interpretados como um sinal de que a economia está subitamente a desacelerar de forma acentuada."

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