ANÁLISE || Administração Trump desejava pintar de ouro a viagem a Pequim, mas a guerra no Irão veio complicar tudo, e é improvável que o presidente norte-americano consiga alcançar os dividendos que pretende. Os analistas mantêm as expectativas baixas por agora, mas vão estar atentos a tudo o que vai - e não vai - ser dito
É a sétima vez que Donald Trump se encontra com Xi Jinping na última década, mas apenas a segunda desde o início do seu segundo mandato presidencial, em janeiro de 2025. No final de outubro desse ano, o presidente norte-americano reuniu-se com o homólogo chinês à margem da cimeira da APEC, na Coreia do Sul, para discutirem uma trégua na guerra tarifária global que Trump tinha inaugurado meses antes - que, no caso da China, envolvia taxas de 145% sobre produtos exportados pelo país para os EUA, levando Pequim a prometer tarifas retaliatórias de 125% sobre importações norte-americanas.
Foi uma guerra comercial curta que foi suspensa precisamente nesse encontro por um período de um ano, uma pausa que deverá terminar em outubro deste ano se os dois líderes não chegarem a um novo entendimento. Foi também uma primeira demonstração de como o arquirrival dos norte-americanos tinha cartas na manga para forçar uma cedência da administração Trump, no caso os minerais raros de que a indústria tecnológica dos EUA tanto depende.
A questão da guerra comercial em suspenso será um dos tópicos incontornáveis da cimeira que vai ter lugar esta quinta-feira, no contexto da primeira visita oficial de Trump à China neste segundo mandato, após uma primeira em 2017 - e uma que o líder norte-americano espera que seja retribuída com uma viagem de Xi a Washington DC ainda este ano. A questão da guerra comercial em suspenso será um dos temas a abordar, mas está longe de ser o único - até porque a mesma guerra no Irão que levou Trump a adiar esta viagem para maio continua sem fim à vista, dificultando a vida ao presidente norte-americano na sua senda de projetar uma imagem de força e poderio incontestável.
“É notável que o presidente Trump esteja disposto a ir à China nestas circunstâncias”, dizia no início da semana Kurt Campbell, presidente do The Asia Group que foi assessor de Joe Biden para assuntos da China - “mas também devo dizer que é profundamente incomum que a China esteja disposta a recebê-lo”.
Geopoliticamente, a cimeira não podia ser de mais alto risco. E o facto de a guerra no Irão ainda não ter chegado ao fim acrescenta um elemento de imprevisibilidade a uma cimeira que foi inicialmente preparada com foco exclusivo em questões económicas. “Há um elemento [a guerra no Médio Oriente] que é de extrema importância para ambos os lados” e que “complicou as coisas” para Trump, dizia à CNN Edgard Kagan, ex-embaixador dos EUA na Malásia e atual cátedra Freeman de estudos sobre a China no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). “Obviamente, o presidente teria preferido ir à China com uma resolução satisfatória e que lhe desse um grande impulso para o futuro.”
Em busca de dividendos improváveis
Há quem acredite que a visita de Trump a Pequim será “o último ato” do presidente norte-americano antes de avançar com uma operação terrestre no Irão, como referia ontem o especialista militar Jorge Saramago na CNN Portugal. No mínimo, é esperado que o presidente norte-americano tente obter algum tipo de ajuda diplomática da China para reabrir o Estreito de Ormuz - cujo encerramento não só está a ter consequências nefastas para a economia global, incluindo para Washington e Pequim, como também abriu um enorme buraco na imagem de hegemonia norte-americana.
A grande questão no ar é que tipo de cedências vai Pequim exigir em troca dessa ajuda, mesmo que encoberta, para ajudar a que as travessias em Ormuz sejam retomadas - serão cedências comerciais ou também em relação a Taiwan, território sobre o qual a China reivindica soberania e que define como uma "prioridade" nesta cimeira, que antes da administração Trump teve sempre nos EUA o seu grande aliado? Como ressaltou à CNN um ex-alto funcionário norte-americano: “Estas não são as condições estratégicas desejáveis para uma cimeira entre grandes potências.”
Antes de partir para Pequim, Trump anunciou nas redes sociais que está “muito ansioso” pela viagem à China - “um país incrível, com um líder respeitado por todos” - antes de prometer que “grandes coisas vão acontecer para os dois países”. Mas não é de somenos importância que a sua chegada à capital chinesa tenha lugar uma semana depois da visita do ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão a Pequim.
Essa visita alimentou esperanças em Washington de que a China poderia estar preparada para intermediar uma solução para a guerra, mas vários especialistas ouvidos pelos media americanos contrapõem que pode ter sido coreografada para Xi poder dizer a Trump que já fez o que podia em termos diplomáticos para reabrir o Estreito de Ormuz e repor a navegação naquela que é uma das artérias do comércio marítimo mais importantes do mundo.
O interesse em ter Ormuz desbloqueado é importante para os dois países, mas, como refere Manuel Serrano, Pequim pode ter mais a ganhar com o impacto do seu encerramento para a administração Trump, dentro de portas mas sobretudo no plano internacional. “Se calhar é muito mais interessante para a China que os Estados Unidos estejam a sacrificar a sua respeitabilidade e a sua legitimidade do que realmente o que está a acontecer”, defende o analista de política internacional. Até porque "a China está a observar um adversário a dar tiros nos pés e não o vai parar de dar tiros nos pés".
Trump continua a insistir que um acordo com o Irão está próximo, mas antes de partir para Pequim também assumiu que o cessar-fogo em vigor está “em suporte de vida”, uma contradição que põe em dúvida as reais capacidades de Washington pôr fim à guerra sem que a administração norte-americana tenha de assumir uma derrota total. E como ressalta o antigo ministro português da Defesa Azeredo Lopes, “a circunstância de Donald Trump surgir na China como alguém que é capaz de resolver as coisas não é muito compatível com o início - ou o reinício - das hostilidades, que desta vez teriam de ser muito mais fortes do que as escaramuças dos últimos tempos, sobretudo considerando que a China tem uma inclinação forte para o Irão”.
A verdade, adianta Azeredo Lopes, é que Trump gostaria de “retirar dividendos” desta visita à China, quando o facto é que chega a Pequim sem conquistas para alardear e “com a criança nas mãos” - “e o Irão está a jogar com isso”.
Por tudo isto, e tendo em conta o que vai estar nas entrelinhas da visita, o governo Trump continua a invocar como principal objetivo a manutenção do que tem sido o statu quo da relação sino-americana - manter o máximo de estabilidade entre os rivais, sobretudo no plano económico e comercial. Na segunda-feira, em declarações aos jornalistas, Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca, sublinhou que o fito de Trump está em “reequilibrar a relação com a China e priorizar a reciprocidade e a justiça para restaurar a independência económica americana”.
Por agora, os especialistas mantêm as expectativas baixas quanto a possíveis resultados geopolíticos dos encontros de quinta e sexta-feira, até porque os dois lados têm incentivos para amenizar as tensões e evitar incidentes internacionais. Acima de tudo, considera Kyle Chan, do Brookings Institute, Trump e Xi querem “reafirmar o seu relacionamento e ter estabilidade - tudo o resto é secundário”. Mas mesmo assim, as declarações ao longo da visita vão ser escrutinadas ao máximo, em busca de pistas sobre o que poderá vir a seguir. E o que virá logo a seguir será a visita de Vladimir Putin à China, num momento de incógnitas igualmente grandes em relação à guerra na Ucrânia.
