Sim, os EUA acabam de "apagar" dois grandes amigos da China. Por que razão Pequim pouco reagiu?

CNN , John Liu, Simone McCarthy
4 mar, 10:34
Nicolas Maduro, Xi Jinping and Ali Khamenei

ANÁLISE || Detenção de Nicolás Maduro e morte de Ali Khamenei ocorreu num período de dois meses

Numa sucessão rápida de acontecimentos, o presidente dos EUA, Donald Trump, "eliminou" dois dos aliados mais próximos de Pequim: o presidente venezuelano Nicolás Maduro e o líder supremo iraniano Ali Khamenei.

O primeiro está agora algemado numa prisão em Nova Iorque, depois de ter sido capturado em Caracas pelas forças especiais norte-americanas numa operação extraordinária realizada durante a noite. O segundo foi morto num ousado bombardeamento à luz do dia no centro de Teerão, numa missão conjunta dos EUA com Israel.

Na sequência disso, a China reagiu com indignação — condenando a captura ou morte de um líder soberano e a aparente tentativa dos EUA de mudar o regime, ao mesmo tempo que estendeu a mão ao Irão para expressar a sua amizade. Mas Pequim pouco fez além de observar, enquanto o seu rival geopolítico alterou as regras de conflito.

Para o líder chinês, Xi Jinping, está em jogo um pragmatismo inflexível.

O Irão acaba por ficar abaixo das suas principais prioridades, incluindo a estabilidade das relações da China com os EUA, especialmente tendo em vista a cimeira com Trump em Pequim no final deste mês. A China pode também acolher com agrado o facto de a atenção e os recursos militares de Washington estarem a ser desviados da região Indo-Pacífico, afirmam especialistas.

"A China é uma amiga de ocasião — fala muito, mas corre poucos riscos", diz Craig Singleton, diretor sénior para a China da Fundação para a Defesa das Democracias, com sede em Washington, DC. "Pequim irá manifestar-se na ONU, mas evitará dar qualquer apoio significativo a Teerão."

Embora Pequim seja o maior comprador de petróleo iraniano, a importância estratégica do país para a China é muito mais limitada do que se pode supor. A cooperação militar entre os dois países permaneceu restrita, e os fluxos comerciais e de investimento são ofuscados por outros de vários Estados do Golfo, uma vez que Pequim procura manter relações equilibradas em todo o Médio Oriente.

A China "não vê qualquer benefício em aumentar a tensão com os EUA em relação ao Irão", afirma William Yang, analista sénior do grupo de reflexão International Crisis Group, que tem sede na Bélgica.

A China “ainda atribui maior importância à manutenção das tréguas comercial e da estabilidade geral nas relações bilaterais com os EUA, por isso não vai querer comprometer o impulso positivo que construiu com a administração Trump ao longo do último ano.”

Os cálculos de Pequim

Um petroleiro atraca e descarrega petróleo bruto importado no terminal de petróleo bruto do porto de Qingdao, em Qingdao, China, a 28 de novembro de 2025. CFOTO/Future Publishing/Getty Images

A China tem sido há muito tempo a fonte mais importante de apoio diplomático e económico do Irão. Além de comprar a maior parte das exportações de petróleo do Irão, Pequim denunciou o que chama de sanções "unilaterais" impostas pelos EUA ao Irão e apoiou a insistência de Teerão de que seu programa nuclear é pacífico.

Nos últimos anos, a China elevou a posição global do Irão, trazendo-o para grupos apoiados por Pequim, como o BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai, ampliando o espaço diplomático de Teerão num momento de isolamento ocidental.

As empresas chinesas também forneceram produtos químicos utilizados no programa de mísseis do Irão e ajudaram a construir a sua infraestrutura de vigilância interna. Pequim afirma que o seu comércio com o Irão está em conformidade com o direito internacional.

Mas a China tem-se mantido consistentemente afastada do envolvimento direto nos conflitos dos seus parceiros, mostrando pouca vontade de se envolver em questões de segurança no Médio Oriente para além da proteção dos seus próprios ativos.

Essa contenção ficou evidente durante o conflito do Irão com Israel no ano passado e os subsequentes ataques aéreos dos EUA, quando a China também ofereceu apenas apoio retórico.

“A China evita há muito apresentar-se como garante da segurança dos países do Sul Global, já que o envolvimento dos EUA no Afeganistão e no Iraque serve como um exemplo cautelar que impede Pequim de perseguir tal ambição”, diz Yang.

A relação de Pequim com o Irão ajuda a fortalecer a sua segurança energética e influência no Médio Oriente, mas também cortejou outros atores regionais, como a Arábia Saudita, rival do Irão, na tentativa de alcançar um equilíbrio no Médio Oriente. Em 2023, desempenhou um papel importante na mediação de uma aproximação entre os dois países.

Ainda assim, a preocupação em Washington com o fortalecimento dos laços entre a China, o Irão, a Rússia e a Coreia do Norte tem crescido. Os líderes dos quatro países reuniram-se em Pequim em setembro passado para uma surpreendente demonstração de unidade num grande desfile militar. Além disso, a China, a Rússia e o Irão também realizaram exercícios militares conjuntos regulares nos últimos anos.

Xi Jinping, da China, com os seus convidados, o presidente russo, Vladimir Putin, e Kim Jong Un, da Coreia do Norte, antes de um desfile militar na Praça Tiananmen, em Pequim, a 3 de setembro de 2025. Alexander Kazakov/AFP/Getty Images

“O Irão é um parceiro de longa data da RPC, mas está longe e não é essencial e talvez nem sequer crítico para a RPC”, declara Ja Ian Chong, cientista político da Universidade Nacional de Singapura, referindo-se à China pelo seu nome formal, República Popular da China.

Mas o apoio limitado que Pequim ofereceu ao Irão durante dois grandes ataques militares no ano passado levanta questões sobre a sua fiabilidade como parceiro em tempos difíceis.

“Outros que trabalham ou desejam trabalhar com a RPC em questões de segurança podem perguntar, com razão, se Pequim os irá abandonar, especialmente se estiverem longe da RPC – como no caso do Irão e da Venezuela anteriormente”, completa.

Analistas, no entanto, concordam que, independentemente de quem suceder a Khamenei, Teerão provavelmente manterá os seus laços com a China, devido ao seu peso económico.

Os acontecimentos no Irão também apresentam várias oportunidades estruturais para a China, diz Zhu Zhaoyi, diretor do Instituto do Médio Oriente da Escola de Negócios HSBC da Universidade de Pequim.

"O profundo envolvimento dos Estados Unidos no conflito militar no Médio Oriente desvia inevitavelmente os seus recursos estratégicos e atenção, limitando objetivamente a sua capacidade de manter a pressão sobre a China no Indo-Pacífico", escreveu Zhu num artigo online na segunda-feira.

Uma campanha sustentada contra o Irão também poderá esgotar as reservas de armas dos Estados Unidos. Pequim proibiu a exportação de elementos de terras raras para uso militar, o que pode tornar mais difícil para Washington reabastecer os seus recursos. Esses elementos são cruciais para uma ampla gama de armas, desde mísseis a caças a jato.

Choques de curto prazo

Mas perturbações de curto prazo para a China, especialmente na frente energética, são inevitáveis.

Quase todas as exportações de petróleo bruto do Irão acabaram na China, e estas representam cerca de 13% do total de petróleo bruto importado por via marítima pela China, de acordo com a empresa de análise de dados Kpler.

O comércio de energia entre os dois países depende de uma rede de navios que escoa o petróleo iraniano para refinarias independentes menores na costa da China, muitas vezes através de países intermediários, de acordo com analistas, que observam que esta prática mantém a refinação separada das empresas estatais chinesas, que seriam vulneráveis a sanções dos EUA.

Essas refinarias, conhecidas como "teapot" ("bules de chá"), são conhecidas por trabalharem com o que é frequentemente referido como uma frota-fantasma de petroleiros que utilizam táticas de ocultação para contrabandear mercadorias sancionadas. A administração Trump colocou sob sanções os intervenientes alegadamente envolvidos tanto no transporte como na refinação, à medida que aumentava a pressão sobre o Irão desde o ano passado.

Apesar das importações consideráveis de petróleo iraniano, analistas acreditam que o impacto a curto prazo deve ser controlável, uma vez que a China diversificou o seu abastecimento de petróleo ao longo dos anos.

Richard Jones, analista de petróleo bruto da Energy Aspects, explica à CNN que o Irão aumentou as exportações desde meados de fevereiro e que as refinarias privadas ainda podem aceder a algum petróleo iraniano através dos seus navios de armazenamento flutuantes, a maioria dos quais está ao largo de Singapura. Além disso, acrescenta, elas também poderiam aumentar a importação de petróleo bruto russo.

Ainda assim, uma dor de cabeça ainda maior para Pequim parece ser o conflito extenso na região e as grandes perturbações no Estreito de Ormuz – uma rota marítima crítica para o petróleo bruto de países como a Arábia Saudita e o Kuwait.

O petróleo bruto da região representa cerca de um terço da procura total da China e mais de 50% das suas importações marítimas, grande parte das quais era transportada através do estreito, de acordo com a Kpler.

O Irão controla o lado norte do estreito e, na segunda-feira, um conselheiro de um comandante da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) ameaçou incendiar quaisquer navios que tentassem passar.

Mesmo antes dos comentários do conselheiro, o tráfego pela via navegável tinha efetivamente parado devido a preocupações de segurança e depois de petroleiros na região terem sido atacados no fim de semana.

Mao Ning, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, salientou a importância do estreito para o comércio e instou a um cessar-fogo imediato.

"Salvaguardar a segurança e a estabilidade nesta região serve os interesses comuns da comunidade internacional", afirmou numa conferência de imprensa na terça-feira.

Mas anos de armazenamento podem proteger a China de choques imediatos no abastecimento. A China detém agora cerca de 1,2 mil milhões de barris de reservas de petróleo bruto em terra, o equivalente a cerca de 115 dias das suas importações de petróleo bruto por via marítima, segundo dados da Kpler.

Uma alternativa aos EUA

Donald Trump e Xi Jinping em junho de 2025. AP

É provável que a China use a intervenção militar dos EUA no Irão para reforçar a sua mensagem, particularmente para os países do Sul Global, de que Washington age como uma potência hegemónica, enquanto Pequim se apresenta como defensora da não interferência.

Alguns analistas chineses argumentam que não fornecer garantias de segurança aos parceiros representa uma abordagem calculada de Pequim que a diferencia dos EUA.

“Isso dá à China maior flexibilidade, reduz o risco de sobrecarga estratégica e evita os custos associados à garantia da segurança dos aliados”, afirma Zichen Wang, vice-secretário-geral do Centro para a China e a Globalização, um think tank não governamental em Pequim.

"Mas também limita a capacidade de Pequim de moldar resultados de segurança concretos quando uma crise se torna violenta", acrescenta, alertando que a inação da China pode encorajar ainda mais as medidas arriscadas de Trump.

Joyce Jiang e Rae Wang, da CNN, contribuíram para esta artigo.

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