China soma vitórias na guerra do Irão. Como Ormuz pode transformar-se na crise do Suez para os EUA

CNN , Simone McCarthy
20 jun, 09:30
Navios e barcos no Estreito de Ormuz, perto de Musandam, Omã, a 1 de maio de 2026 (CNN)
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ANÁLISE || Em Pequim – onde a oposição a uma ordem mundial dominada pelos EUA é um princípio da política externa – pensadores políticos têm estado a debater como o conflito no Médio Oriente impactou a posição dos norte-americanos no panorama global

Pequim —  Quando as bombas norte-americanas e israelitas começaram a cair sobre o Irão no final de fevereiro, os líderes chineses encaravam a possibilidade muito real de outro regime aliado ser decapitado, tal como havia acontecido com a Venezuela apenas algumas semanas antes.

Quase quatro meses depois, a visão é bem diferente: os Estados Unidos e o Irão chegaram a um acordo provisório após semanas de negociações de paz, mas o regime em Teerão permanece no poder e a guerra é amplamente vista como tendo exposto os limites do poder americano.

Enquanto isso, a influência diplomática de Pequim parece ter aumentado – já que o país recebeu uma série de líderes estrangeiros e se apresentou como defensor da paz, chegando a receber elogios repetidos do presidente dos EUA, Donald Trump, pela sua resposta à guerra.

A segunda maior economia do mundo também resistiu à crise energética histórica desencadeada pelo conflito melhor do que muitos dos seus vizinhos – em particular devido às suas abundantes reservas estratégicas de petróleo e à adoção de tecnologias verdes e veículos elétricos.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da China saudou o anúncio do acordo entre os EUA e o Irão em declarações feitas esta semana, com um porta-voz a afirmar que Pequim "está pronta" para desempenhar um papel ativo na "restauração da paz e da tranquilidade" no Médio Oriente.

Questionado sobre se Pequim teve participação no acordo, o porta-voz, Lin Jian, não confirmou nenhum papel específico. Mas também não hesitou em destacar os esforços "incansáveis" da China para pôr fim à guerra, inclusive por meio da divulgação, em abril, da proposta de paz de quatro pontos do seu líder, Xi Jinping.

E esse elogio não veio apenas de Pequim.

"Quero agradecer à China, ao presidente Xi [...] ele manteve-se neutro, totalmente neutro, e eu agradeço-lhe", disse Trump numa conferência de imprensa do G7 em França, na quarta-feira, destacando como o líder chinês não usou o poderio naval do seu país para desafiar o bloqueio dos EUA aos portos iranianos.

"Eles não fizeram isso. O presidente Xi ajudou-me. Tentou ajudar e acho que provavelmente ajudou a resolver a situação", acrescentou Trump.

O presidente dos EUA, Donald Trump, numa conferência de imprensa na cimeira do G7, em 17 de junho, em Evian-les-Bains, França. foto Julia Demaree Nikhinson/AP

A China adotou uma postura diplomática cautelosa durante o conflito. Condenou o ataque dos EUA e de Israel ao Irão e continuou a comprar petróleo iraniano, desafiando as sanções americanas. Mas também manteve a comunicação aberta com atores de ambos os lados.

Diversos líderes estrangeiros viajaram até Pequim à medida que o conflito se prolongava – incluindo Trump no mês passado, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, dias antes, e líderes do Paquistão, o principal mediador do conflito.

No início das negociações, Teerão estava ansioso para garantir o apoio da China como fiadora de um acordo de paz, mas Pequim demonstrou pouco interesse em desempenhar um papel tão formal – e potencialmente problemático.

Na quarta-feira, o principal diplomata chinês, Wang Yi, conversou com Araghchi por telefone e pediu que a navegação no Estreito de Ormuz fosse “devidamente conduzida”.

“O alvorecer da paz surgiu”, disse Wang. “A chave para o próximo passo é que todas as partes realmente implementem os seus compromissos e eliminem a interferência de todos os lados.”

Não está claro se nem em que medida Pequim usou o seu peso diplomático para influenciar indiretamente o acordo mais recente, um memorando de entendimento assinado formalmente na quarta-feira, que deu início a um período de 60 dias para negociar os termos finais de um acordo.

Mas, para Pequim, essas visitas públicas amplificaram a sua mensagem de que, enquanto outros travam guerras, a China é uma potência global responsável – e uma mediadora de poder.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, conversa com o seu homólogo iraniano, Abbas Araghchi, durante uma reunião bilateral em Pequim, no início de maio. foto Cai Yang/Xinhua/AP

Debater o “momento Suez”

À medida que os dois lados entram na próxima fase de negociação, os observadores acompanham atentamente o que é que os EUA ganharam em concreto com um conflito que teve um alto custo económico global.

Na China – onde a oposição a uma ordem mundial dominada pelos EUA é um princípio da política externa – pensadores políticos também têm debatido como o conflito impactou a posição dos EUA no cenário global.

Alguns especialistas questionam se o conflito representa um chamado “momento Suez” para os EUA, uma referência à perda do controlo do Canal de Suez pela Grã-Bretanha na década de 1950, amplamente vista como um prenúncio do declínio internacional da Grã-Bretanha e o seu eclipsamento pelos EUA enquanto potência global.

“A cena que lançou uma sombra sobre o Império Britânico durante a crise de Suez está agora a repetir-se para os Estados Unidos no Estreito de Ormuz?”, questionou Sun Degang, diretor do Centro de Estudos do Médio Oriente da Universidade de Fudan, em Xangai, num artigo de opinião publicado na terça-feira no jornal estatal chinês Global Times.

“Desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos tornaram-se a ‘única superpotência’ do mundo”, diz Sun. Desta vez, porém, “o poderio militar dos EUA não se mostrou tão esmagadoramente poderoso quanto Washington imaginava”, ao passo que a ausência de aliados importantes a apoiarem a sua guerra é um sinal de que “o sistema de alianças globais liderado pelos EUA tem mostrado sinais crescentes de divisão”.

É uma questão que também tem sido debatida no Ocidente, mas na China, algumas vozes também expressaram a visão de que Pequim saiu beneficiada da guerra de Washington.

“A China não tem interesse em ostentar a ‘aura de vitória’ de uma guerra distante no Médio Oriente”, escreveu o comentador político Hu Xijin na rede social Weibo, no início desta semana.

O conflito, contudo, influenciou a perceção mundial da China – mostrando o sucesso do seu “planeamento estratégico” para resistir a choques energéticos e o apelo de seu “caminho de desenvolvimento” pacífico, indica.

A guerra também “diminuiu significativamente” o poder de dissuasão geral dos EUA em relação a Taiwan, adianta Hu, apontando para a forma como o conflito mostrou as limitações dos stocks de munição dos EUA e a sua incapacidade de formar uma coligação ocidental, mesmo contra um inimigo isolado como o Irão.

A China reivindica Taiwan, que se autogoverna, como sua e não descartou o uso da força para assumir o controlo da ilha democrática.

“Que influência têm os EUA para convencer os seus aliados na Europa a confrontar a China por interesses americanos?”, questiona Hu.

O ato de equilíbrio da China

A forma como a China irá responder ao que considera um enfraquecimento dos EUA é uma questão em aberto.

Pequim posiciona-se há muito como defensora de um “mundo multipolar” e provavelmente usará este conflito para impulsionar outra mudança que deseja ver no mundo: o fim do ambiente de segurança dominado pelos EUA e as suas alianças.

Ao longo da guerra, no entanto, Pequim procurou navegar cuidadosamente pelos seus interesses, em vez de assumir um papel de liderança na resolução do conflito ou tomar partido abertamente.

Embora apoie retoricamente o seu parceiro de longa data, o Irão, a China tem sido comedida nas suas críticas aos EUA por terem desencadeado o conflito e manteve várias ligações e reuniões com os Estados do Golfo que foram atacados pelo Irão.

Crê-se amplamente que Pequim pressionou Teerão a negociar com Washington no início da primavera, mesmo que empresas chinesas – segundo o governo dos EUA – tenham apoiado a aquisição de armas por Teerão. Pequim nega veementemente ter fornecido armas a países em conflito.

O líder chinês Xi Jinping cumprimenta o presidente dos EUA, Donald Trump, no Grande Salão do Povo, em Pequim, em 14 de maio. foto Kenny Holston/Getty Images
Xi e Trump participam numa cerimônia de boas-vindas em frente ao Grande Salão do Povo, em Pequim, em 14 de maio. foto Alex Wong/Getty Images

O facto de Xi ter conseguido receber Trump para uma reunião amistosa no mês passado, apesar destas avaliações e enquanto a China mantinha a sua posição de longa data enquanto a maior compradora de petróleo iraniano, pode ser uma prova da influência de Pequim – e do seu equilíbrio cuidadosamente calibrado.

Mas observadores na China também dizem que um potencial “momento Suez” para os EUA não significaria que a China assumiria automaticamente o seu lugar no topo da ordem mundial. E autoridades e analistas chineses afirmam há muito tempo que Pequim não quer ser uma superpotência nos moldes dos EUA.

“Os EUA continuam a ser o ator externo mais poderoso no Médio Oriente, o que mudou é que o seu domínio agora exige custos políticos, militares, económicos e de reputação muito maiores”, diz Sun Chenghao, investigador do Centro de Segurança e Estratégia Internacional da Universidade de Tsinghua, em Pequim, à CNN.

O conflito pode tornar a visão que a China tem do mundo – que enfatiza a soberania, a não interferência, a solução política e a segurança orientada para o desenvolvimento – mais atrativa para muitos países, adianta Sun.

“Mas a credibilidade não se constrói apenas através da crítica às ações dos EUA – também depende da capacidade da China de fornecer soluções diplomáticas práticas, proteger a estabilidade energética e ajudar a criar condições para a desescalada.”

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