Xangai regista primeiras mortes na atual vaga de covid e faz nova testagem massiva

18 abr, 04:48
Covid-19: China quer testar mais de 26 milhões de pessoas em dois dias em Xangai

Autoridades vão submeter a teste covid a população das áreas sob confinamento, que cobrem praticamente toda a população de 25 milhões que vive em Xangai. Governo espera uma viragem desta vaga nos próximos dias, com alívio de medidas, e promete ajudar empresas de setores essenciais a retomar a atividade

As autoridades de Xangai reportaram as primeiras mortes relacionadas com a atual vaga de covid-19, que deixou a cidade sob rigorosas ordens de confinamento para quase todos os seus 25 milhões de habitantes. Três idosos não vacinados - com idades entre 89 e 91 anos, e todos com outras doenças - morreram devido a infeção por covid-19. São as primeiras vítimas da atual vaga de infeções em Xangai, que já registou 372 mil casos desde 1 de Março, de acordo com os dados divulgados esta segunda-feira. 

Entretanto, as autoridades de Xangai revelaram que esta segunda-feira começa um novo processo de testagem massiva na cidade, que se estenderá até quinta-feira. Serão feitos testes PCR e testes de antigénios nas áreas que estão sob lockdown total, mas também nas que estão sob medidas de controlo restritivas.

Apesar de a incidência da doença ser baixa para os padrões ocidentais, e apesar de não se terem registado mortes até este domingo, quase toda a população de Xangai está desde finais de março sob lockdown ou fortes restrições à circulação, tendo parado total ou parcialmente as atividades naquela que é a principal metrópole económica e financeira da China, e também um dos seus mais importantes centros industriais. Em Xangai está também o mais importante porto comercial do mundo, cuja atividade está fortemente condicionada, com grande impacto nas importações e exportações chinesas, o que acaba por se repercutir nas cadeias globais de abastecimento.

Apesar de ser o centro mais relevante da atual vaga de covid na China - a mais grave desde o aparecimento da doença, há pouco mais de dois anos - Xangai não é a única cidade sob medidas draconianas de controlo da pandemia. Neste fim de semana havia pelo menos 44 cidades, um pouco por todo o país, sob fortes medidas de restrição de movimentos dos respetivos habitantes.

 

Viragem esta semana?

 

Depois de ter registado no sábado um recorde de novos casos e de novos casos sintomáticos, o reporte de novos casos caiu 10% no domingo, para 22.248, enquanto o número de casos sintomáticos diminuiu 25%, para 2.417.

A redução deste domingo fez as autoridades acreditar que o pico da atual vaga possa já ter sido atingido, após duas semanas de sucessivos recordes. Com quase toda a população fechada em casa e uma parte a dormir nos local de trabalho, naqueles setores considerados prioritários - como trabalhadores de saúde, banca, bolsa de valores, portos e diversas fábricas definidas como estratégicas -, as autoridades estabeleceram um plano para restaurar gradualmente a produção e a atividade comercial em Xangai, após mais de duas semanas de encerramento.

Segundo a agência Reuters, as autoridades de Xangai estabeleceram o objetivo de travar a propagação da Covid-19 fora das áreas de quarentena até esta quarta-feira. Se o conseguirem, a cidade poderá começar a relaxar as normas de confinamento e pensar em regressar à vida normal. Uma necessidade tanto mais urgente quando crescem os sinais públicos de impaciência de uma população habituada a aceitar as imposições oficias sem manifestações de desagrado.

Sob a política oficial de tolerância zero com a covid, o primeiro passo para a cidade de mais de 25 milhões de pessoas poder pensar em regressar à normalidade é travar a propagação das infeções fora das áreas que estão sob quarentena. Será também necessário acelerar os testes à população que está nas zonas sob lockdown, de acordo com o discurso de um responsável local do Partido Comunista, feito no sábado, e ao qual a Reuters teve acesso.

O novo objectivo de Xangai de "zero-Covid a nível comunitário" até 20 de Abril foi comunicado aos quadros do Partido Comunista da cidade e a outras entidades locais, como escolas, de acordo com as fontes citadas pela Reuters. A definição de "zero-Covid a nível comunitário" significa que não surgem novos casos fora das áreas de quarentena.

De 23.643 novas infeções locais em Xangai reportadas no sábado, 722 foram encontradas fora das áreas de quarentena, segundo Wu Jinglei, director da comissão de saúde de Xangai. 

 

Revolta nas redes sociais

 

No referido discurso, feito este sábado pelo secretário do partido do distrito de Baoshan, em Xangai, há o reconhecimento de que a situação da cidade atingiu um "momento crítico", com crescente ansiedade do público e pressões no fornecimento de alimentos. "O Grupo de Trabalho do Conselho de Estado, o comité do partido municipal e o governo municipal pediram que o ponto de viragem da epidemia aparecesse no dia 17 e que o estatuto de Covid zero fosse alcançado no dia 20", disse Chen Jie.

Todos os casos positivos, sejam ou não sintomáticos, são transferidos para centros de quarentena, que já albergam dezenas de milhar de pessoas. Este fim de semana, entrou em funcionamento um centro acabado de construir, com capacidade para receber 50 mil pessoas.

Uma residente de Xangai disse à Reuters que o seu comité de bairro avisou os residentes, no domingo, de que mais trabalhadores e autocarros tinham sido mobilizados para acelerar a transferência de casos positivos do seu complexo habitacional para centros de quarentena.

Famílias têm sido separadas à força, incluindo crianças, o que tem levado à revolta nas redes sociais, muitas vezes utilizando até hashtags de apoio ao governo, para contornar a forte censura exercida pelas autoridades. O relato do extermínio de cães e outros animais de companhia, quando os respetivos proprietários testam positivo e vão para centros de quarentena, também desencadeou protestos e revolta nas redes sociais.

Mas tem sido sobretudo a obrigação de ficar em casa, sem que as pessoas se possam abastecer de comida e bens essenciais, e muitas vezes sem recurso a medicamentos ou cuidados médicos, que mais gente tem levado para as redes sociais e para os barulhentos protestos noturnos nas varandas dos prédios de habitação.

Embora a política de “covid zero” tenha sido decretada centralmente pelo governo de Xi Jinping, a frustração dos residentes de Xangai tem-se virado sobretudo para as autoridades locais, por dificuldades na obtenção de alimentos, perda de rendimentos, famílias separadas e más condições nos centros de quarentena. Por vezes, as tensões irromperam em protestos públicos ou confrontos com a polícia.

 

Impacto na economia 

 

Mesmo sem sinais de efetivo recuo da pandemia, Xangai já tomou medidas pontuais para aliviar as restrições. A televisão estatal informou este domingo que alguns supermercados reabriram as suas portas, embora muitos residentes tenham expressado a sua desconfiança face a estes anúncios. 

Apesar de Xangai ter aliviado as restrições de movimento de alguns residentes na semana passada, a maioria das empresas continua fechada e os transportes públicos estão suspensos. 

Os líderes empresariais têm falado cada vez mais sobre o impacto dos bloqueios na economia chinesa, com os fabricantes de automóveis a avisarem que poderiam ser forçados a parar completamente a produção se os seus fornecedores em Xangai e nos países vizinhos não forem capazes de fazer chegar matérias-primas e componentes.

Na sexta-feira, a China anunciou que ajudará centenas de empresas em sectores-chave a retomar a produção em Xangai. O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação apresentou uma lista de 666 empresas que deverão voltar à laboração o mais depressa possível - trata-se sobretudo de fabricantes de semicondutores, fábricas de automóveis e aparelhos eletrónicos, e empresas do sector médico. Segundo o governo central, foram enviadas equipas para Xangai para assegurar o reinício dos trabalhos nestas empresas de setores-chave.

No mesmo dia, o cônsul-geral do Japão em Xangai, num gesto pouco comum, exortou as autoridades de Xangai a responder às preocupações das empresas japonesas sobre os prejuízos e outras perturbações da atividade económica causadas pelas medidas de controlo da pandemia. “A extensão das medidas de controlo do vírus, e a situação da produção e das operações que não podem funcionar normalmente, já duram há mais de um mês", notou o representante japonês, numa carta tornada pública através do site do consulado. "O impacto nas atividades comerciais está claramente a tornar-se mais grave a cada dia que passa", alertou.

Segundo um inquérito publicado na sexta-feira por uma câmara de comércio japonesa que representa mais de 2.300 empresas que operam na China, são cada vez maiores as preocupações com as restrições pandémicas impostas por Pequim, incluindo cadeias de abastecimento interrompidas, a dificuldade em assegurar o abastecimento alimentar e até a incapacidade de efetuar pagamentos, incluindo salários de empregados, devido ao encerramento de bancos.

Há uma semana, o Departamento de Estado dos EUA ordenou que os trabalhadores não indispensáveis da representação norte-americana abandonassem o consulado de Xangai devido ao aumento do número de casos e às medidas das autoridades.

 

Primeiro trimestre melhor do que o esperado

 

As autoridades chinesas têm desvalorizado o impacto das medidas anti-pandemia sobre o crescimento económico do país, que este ano já tinha uma previsão medíocre (para os padrões chineses das últimas décadas) de 5,5%. “O argumento de que o controlo da epidemia se faz à custa dos fundamentos económicos não só é infundado como subestima o potencial e a resiliência da economia chinesa. Não se pode negar que Xangai está a sofrer dificuldades devido ao recente ressurgimento do vírus, mas seria um erro assumir que Xangai representa sozinha a paisagem económica global da China”, pode ler-se num texto publicado este fim-de-semana no site da CCTV, a principal cadeia oficial de televisão chinesa.

Diversas entidades internacionais e analistas económicos têm apontado para a dificuldade de cumprir o objetivo de 5,5%, seja pelo impacto da covid, seja por causa da guerra russa na Ucrânia. Mas os dados divulgados esta segunda-feira, relativos ao crescimento do PIB chinês no primeiro trimestre deste ano, revelam um desempenho melhor do que todas as previsões: crescimento de 4,8% em comparação com o período homólogo.

Porém, por detrás deste número, há sinais de alarme: janeiro e fevereiro foram meses de forte crescimento da atividade, mas março registou uma quebra significativa, provavelmente refletindo o impacto da guerra russa na Ucrânia. Quanto à nova vaga de covid e à paragem de Xangai (que só começou a 28 de março) só terão impacto sério nos dados do segundo trimestre.

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