O maior risco da grande vaga de covid na China: pode surgir uma nova variante mais perigosa

21 dez 2022, 07:03
Família com máscaras anti-covid em Pequim

A China pode pôr em causa os planos da OMS para declarar o fim da pandemia no ano que vem. Com a covid à solta no país, vão surgir mutações que podem originar uma variante mais perigosa

Todos os cálculos feitos por especialistas preveem que a atual vaga de covid na China irá causar milhões de infeções, podendo provocar centenas de milhares de mortes - entre um e dois milhões de vítimas mortais, segundo a generalidade dos cálculos. Mas a decisão das autoridades chinesas de levantar subitamente as restrições da política de covid zero, no início deste mês, pode ter outra consequência, ainda mais grave: com a doença a crescer de forma descontrolada num país de 1,4 mil milhões de habitantes, vão surgir novas mutações, que podem dar origem a novas variantes. O que os especialistas da OMS temem é que uma dessas variantes possa revelar-se mais poderosa e mais perigosa do que as atuais.

"É evidente que estamos numa fase muito diferente [da pandemia], mas a onda em curso na China é um joker”, disse à agência Reuters, a virologista holandesa Marion Koopmans, que faz parte de um comitê encarregado de aconselhar a OMS sobre o estado da emergência da covid. No original inglês, Koopmans usa a expressão “wild card”, o joker ou “carta selvagem” que pode tornar o desfecho de qualquer jogo imprevisível.

Para esta especialista, os acontecimentos na China tornaram imprevisível um jogo que, até há poucas semanas, parecia estar decidido: em Setembro, o diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, tinha dito que "o fim da pandemia está à vista" e, na semana passada, acrescentou ter "esperança" de poder declarar o fim da emergência global nalgum momento do próximo ano. Entretanto, as perspectivas tornaram-se bastante mais sombrias, e dependentes da forma como a pandemia evolua na China. "A questão é saber se se pode falar de pós-pandemia quando uma parte tão significativa do mundo está de facto a entrar numa nova vaga", sublinha Koopmans.

Não se trata apenas do impacto que esta onda terá na China, ou sequer do potencial de essa vaga poder propagar casos também para outros países - o maior problema é mesmo o risco de surgir uma nova variante que seja ainda mais contagiosa do que a Ómicron, ou, pior que isso, capaz de provocar doença mais grave ou, pior ainda, com maior escape vacinal - ou seja, uma variante que possa escapar à proteção conferida pelas vacinas existentes atualmente.

"Cada nova onda de epidemia noutro país traz o risco de novas variantes, e este risco é tanto maior quanto maior for o surto, e a atual onda na China está a tornar-se algo grande", disse Alex Cook, vice-reitor de investigação na Escola de Saúde Pública da Universidade Nacional de Singapura. 

"Uma ameaça para as pessoas em todo o lado"

Na segunda-feira o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, sinalizou essa preocupação, ao dizer que o potencial de mutação do vírus à medida que se espalha na China é "uma ameaça para as pessoas em todo o lado".

Segundo a Reuters, os dados que a China tem partilhado tanto com a OMS como com a base de dados de vírus GISAID mostram que as variantes que aí circulam são a Omicron - que é dominante globalmente e também na China - e os seus derivados. Porém, o quadro mostra-se incompleto devido à falta de dados por parte da China.

"O resultado é que não é claro [se] a onda na China é orientada por variações, ou se apenas representa uma quebra de contenção", disse Tom Peacock, um virologista do Imperial College, em Londres.

"Penso que ninguém pode prever com certeza se podemos ver novas variantes que possam ser uma preocupação para o resto do mundo, mas claramente o mundo deveria preocupar-se se as pessoas estão a ficar doentes e a morrer [na China]", disse David Heymann, especialista em doenças infeciosas e conselheiro da OMS.

A China entrou numa corrida contra o tempo, reforçando a oferta de camas de cuidados intensivos, para internamento dos casos mais graves, e de clínicas de febre, para a primeira resposta a quem se apresenta com sintomas. Outra prioridade é o fabrico de medicamentos para a febre, que esgotaram em muitas farmácias pelo país. A situação em Pequim mostra-se particularmente grave, e os dados oficiais até já espelham a existência de mortes, coisa que não acontecia até segunda-feira. Pelos números oficiais, ontem faleceram mais cinco pessoas vítimas de covid. 

Enquanto o mundo espera para ver o que acontece na China e vários países já ofereceram ajuda ao executivo de Xi Jinping, o Banco Mundial cortou previsão de crescimento da China para este ano e para o próximo. Segundo as novas previsões, a economia chinesa deverá crescer 2,7% em 2022, e recuperar para 4,3% em 2023, à medida que se reabre após a pior fase da pandemia. Uma revisão em baixa por causa do impacto desta mudança repentina de políticas, para a qual o país não estava preparado.

"Esta pandemia vai simplesmente explodir [na China] nas próximas semanas", prevê Michael Osterholm, diretor do Center for Infectious Disease Research and Policy da Universidade do Minnesota. "É lamentável que não tenham pensado nisto há seis ou dez meses atrás. Poderiam ter ganho tempo para se colocarem numa posição melhor."

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