Pequim e Pyongyang têm uma parceria "forjada em sangue", mas querem levá-la mais longe, para que cada um dos países possam mostrar a sua força ao resto do mundo
Trata-se da primeira visita do líder chinês Xi Jinping à Coreia do Norte em sete anos. E não esteve só repleta daquela retórica que exalta os laços históricos entre a China e o seu único aliado de longa data através de um tratado.
Pelo contrário, esta visita de Estado com a duração de dois dias foi uma oportunidade para Xi detalhar a sua visão na forma como a China se quer alinhar com o seu vizinho em relação ao uso de armas nucleares no futuro – numa altura de mudanças globais.
"Perante as profundas mudanças nunca vistas há um século", os dois lados devem “abrir uma perspetiva mais promissora para a causa socialista dos dois países, bem como para a paz e o desenvolvimento regional”, afirmou Xi ao líder norte-coreano Kim Jong Un, durante as conversações de segunda-feira em Pyongyang.
Para fazê-lo, a China está pronta para expandir a cooperação no comércio, agricultura, construção, ciência, tecnologia e saúde; para reforçar a “coordenação estratégica”, bem como os intercâmbios militares, diplomáticos e de aplicação da lei, notou Xi.
Esta é uma visão mais concreta do que a apresentada por Xi na última vez que os dois líderes se encontraram na sumptuosa Casa de Hóspedes Kumsusan, em Pyongyang, em 2019, com base numa comparação das declarações oficiais de Pequim em ambas as reuniões.
Desta vez, as observações de Xi também não incluíram uma frase-chave. Ao contrário do que aconteceu há sete anos, o líder chinês não mencionou o apoio de Pequim à “desnuclearização da Península Coreana”, segundo as declarações publicadas até à data.
Esta é, em potência, uma vitória para Kim.
No governo de Kim, a Coreia do Norte continuou a intensificar o seu programa nuclear, violando as sanções das Nações Unidas. Em 2023, alterou mesmo a constituição para consagrar a sua política de desenvolvimento de armas nucleares.
Este pode ser também um sinal de como Pequim está a calibrar a sua diplomacia perante o que considera ser um mundo muito diferente de há sete anos – um mundo em que está a travar uma competição estratégica com os EUA e no qual Pyongyang estreitou os laços com Moscovo.
Um espetáculo diplomático
Desta vez, a visita do líder chinês a Pyongyang acontece numa altura em que a China está a afirmar-se como estrela em ascensão no panorama global.
Houve uma série de líderes de todo o mundo a visitar Xi em Pequim este ano - incluindo um período notável de uma semana em que Xi recebeu os presidentes dos EUA e da Rússia para visitas de Estado. Trata-se de uma agenda que poucos outros líderes mundiais seriam capazes de levar a cabo.
Entretanto, as recentes ações militares da administração Trump na Venezuela, bem como a guerra que está a alimentar no Irão, com efeitos negativos na economia, estão a dar mais confiança a Pequim para projetar a sua mensagem: a de que a China é uma potência global responsável, com a visão correta do modo como o mundo deve ser governado.
A visita à Coreia do Norte oferece a Xi outra oportunidade de se mostrar como um ágil articulador político, capaz de dialogar com um leque diversificado de líderes, desde o chefe da democracia mais poderosa do mundo, até um autocrata com um regime de armas que desafia todas as sanções.
Segundo Lim Eul-chul, professor da Universidade de Kyungnam, na Coreia do Sul, o apelo da China para o reforço das trocas diplomáticas, policiais e militares com a Coreia do Norte quererá sinalizar que o país deseja que Pyongyang participe mais ativamente no bloco económico e de segurança que Pequim procura construir e liderar.
Isto também permite a Pequim mostrar aos EUA e aos seus aliados que ainda tem influência sobre Pyongyang.
Trump manifestou, de uma forma repetida, ter interesse em retomar a diplomacia com Kim, depois de a sua tentativa, cheia de alarido, para desmantelar o programa nuclear da Coreia do Norte durante o primeiro mandato na Casa Branca ter acabado por fracassar. A Península Coreana esteve entre os assuntos discutidos entre Xi e Trump durante a visita de três dias do presidente norte-americano a Pequim, que teve lugar em meados de maio.
É pouco provável que a China veja agora este como um momento oportuno para pressionar Kim a abandonar o seu programa nuclear.
"Neste momento, Kim vê mais riscos na diplomacia com Trump do que em seguir uma estratégia de Guerra Fria 2.0, e Xi vê mais riscos em pressionar a Coreia do Norte do que em apoiá-la", diz Leif-Eric Easley, professor da Universidade de Ewha, em Seul.
A proximidade com Pyongyang coloca, contudo, Xi em maior vantagem nas suas negociações com os EUA.
Um equilíbrio de poder
Esta é a primeira viagem de Xi ao estrangeiro este ano – um ponto que não passou despercebido a Kim, que elogiou o gesto como “a maior demonstração da importância que a China atribui à amizade entre a Coreia do Norte e a China", segundo o meio de comunicação estatal norte-coreano Rodong Sinmun.
A China é, há muito, a principal tábua de salvação económica da Coreia do Norte e o seu mais importante parceiro diplomático. Os dois países descrevem a sua aliança como “forjada em sangue”, fruto da luta conjunta na Guerra da Coreia.
Kim afirmou que a Coreia do Norte continuaria a defender a amizade bilateral como "o mais importante e prioritário trabalho estratégico" e que não poupará esforços para a fortalecer e desenvolver uma relação estratégica sólida e inabalável.
Contudo, por detrás da grandiosa retórica, a visita de Xi visa também garantir que esta relação, e a influência que há muito procura exercer sobre o seu vizinho imprevisível, se mantém intacta.
Os laços entre os dois lados arrefeceram nos últimos anos, à medida que Pyongyang se aproximava de Moscovo.
Em 2024, Kim Jong-un e o presidente russo Vladimir Putin assinaram um tratado de defesa mútua. A Coreia do Norte forneceu milhares de soldados e munições para auxiliar a Rússia na guerra contra a Ucrânia, um desenvolvimento que alarmou o Ocidente, cauteloso com uma crescente aliança entre Pyongyang, Moscovo e Pequim.
A imagem da visita altamente cerimonial de Xi a Pyongyang esta semana contrasta com a de Putin em 2024, quando o líder russo e Kim se revezaram a conduzir um carro de luxo fabricado na Rússia – com as imagens sorridentes de ambos a projetar intimidade e confiança.
Ainda assim, a visita de Xi agora, bem como o seu discurso sobre o aprofundamento dos laços nas áreas do comércio, ciência e tecnologia, é um sinal de que Pequim quer reafirmar a sua posição como principal parceiro de Pyongyang.
Os observadores notam que isto também reflete cálculos mais amplos de Xi sobre o equilíbrio de poder na região, onde os aliados dos EUA estão a reforçar a sua posição de defesa face ao crescente poderio militar da China.
Segundo Lim, a referência de Xi ao reforço das trocas militares com a Coreia do Norte pode sinalizar uma mudança significativa em relação ao anterior apoio chinês à desnuclearização na Península Coreana.
“Isto pode significar um alinhamento entre a China e a Coreia do Norte em matéria de segurança, com o objetivo de neutralizar a Coreia do Sul, os EUA e o Japão, ao mesmo tempo que é feito um acordo tácito relativamente ao estatuto da Coreia do Norte como um Estado com armas nucleares”, argumenta.
Quando questionado, numa conferência de imprensa esta semana, sobre se a China ainda apoia a desnuclearização na Península Coreana, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lin Jian, respondeu que a China mantém “continuidade e consistência” na sua posição sobre a questão da Península Coreana.
Kim pareceu testar esta potencial tolerância antes da chegada de Xi, fazendo a inspeção, dias antes, a uma fábrica de mísseis no fim de semana, bem como a uma nova fábrica que produz material nuclear para armas.
Embora os comunicados divulgados por ambos os lados até à tarde desta terça-feira não tenham menções a armas nucleares, estes encontros podem também ser uma oportunidade para cada um dos lados compreender a estratégia e a posição do outro – bem como para cada um doa aliados expressar a sua própria estratégia e posição.
“Pequim espera que Pyongyang respeite os seus interesses e evite políticas desestabilizadoras”, remata Easley em Seul. “A visita de Xi é uma demonstração estratégica de apoio a Kim, mas não um cheque em branco à Coreia do Norte”.
Shuai Zhang contribuiu para este artigo.
