China muda o final do filme Mínimos 2… e o protagonista deixa de ser um vilão

23 ago, 05:38
Mínimos 2: A Ascensão de Gru

Os censores chineses não gostaram do final do filme "Mínimos 2: A Ascensão de Gru", e reescreveram a história. Em vez de começar uma carreira como grande super-vilão, ao lado do seu mentor, Gru... dedica-se à família

“Mínimos 2: A Ascensão de Gru” é um filme de animação que conta a história de como um rapazinho de 11 anos, Gru, se consegue tornar um super-vilão. Trata-se do segundo filme da série Mínimos, prequelas da trilogia “Gru, o Maldisposto”, baseados na infância do lendário vilão de animação Gru. Os filmes de animação da produtora norte-americana Illumination Entertainment, distribuídos pela gigante de Hollywood Universal, são um sucesso global e Mínimos 2 é um dos filmes mais lucrativos deste ano. Mas a história deste filme não é a mesma em todo o mundo. 

A versão lançada este verão no mercado chinês conta uma história com um final diferente. Os censores chineses não gostaram da ideia de um filme sobre um vilão em que no fim o vilão é bem sucedido nas suas atividades… de vilão. 

Vamos por partes (e fica avisado: vêm aí spoilers). Na versão original do filme, Gru e os pequenos Mínimos lutam contra o Sexteto Malvado, e contam com a ajuda de Willy Kobra, um vilão mau como as cobras (et pour cause…). No final do filme, Willy engana as autoridades, simula a sua morte e acaba por se juntar a Gru - e ambos rumam a uma gloriosa carreira de super-vilões, como mestre e discípulo.

Mas não na China. Segundo tem sido denunciado por internautas chineses, o final da versão chinesa é a negação de Gru como super-vilão. Os censores chineses não aceitaram a ideia de que um lendário assaltante como Willy Kobra pudesse levar a melhor sobre a polícia, e não gostaram de ver o pequeno Gru a enveredar uma uma carreira de crime. E resolveram o problema acrescentando alguns segundos ao filme. Segundo a adenda, Willy Kobra acabou por ser mesmo preso, e foi condenado a 20 anos de cadeia. Quanto a Gru, sem a influência perniciosa do seu herói do crime, “voltou para a sua família”, e “o seu maior feito é ser o pai de três meninas”.

Ou seja, na versão chinesa, “A Ascensão de Gru” não é ascensão nenhuma - apenas a história de um super-vilão falhado que em vez de se tornar um famoso anti-herói, se torna, quando muito, o herói das filhas lá em casa. Muito mais politicamente correto, mas muito menos divertido do que o original (e, a ser assim, nenhum dos filmes da série “Gru o Maldisposto" teria alguma vez existido).

Os internautas chineses que denunciaram este final absurdo também gozaram com o amadorismo deste acrescento, a que alguns chamaram “final powerpoint”. 

Segundo o site de crítica de filmes DuSir, que tem 14,4 milhões de seguidores na rede social chinesa Weibo, a versão de “Mínimos 2” para a China dura mais um minuto do que a versão internacional. No texto sobre o filme de animação, o crítico questiona a necessidade do minuto extra. "Somos apenas nós que precisamos de orientação e cuidados especiais, por medo que um desenho animado nos 'corrompa'?", interrogou-se.

Contactada pela Reuters, a Universal Pictures, distribuidor do filme nos EUA, não fez ainda qualquer comentário. O distribuidor chinês também não.

Uff!..., afinal tudo acabou bem no Fight Club

Não é a primeira vez que um filme de Hollywood teve o seu final alterado na China, para agradar às autoridades do país. Num país profundamente autoritário e securitário, onde qualquer desvio à lei é severamente punido e toda a cultura e entretenimento tem uma função de orientação social para a moral e os bons costumes, filmes em que os maus levam a melhor costumam ser refeitos à moda chinesa.

O caso mais famoso e risível de todos é o de "Fight Club”, filme de 1999 de David Fincher que se tornou uma obra de culto. O filme não estreou na China aquando do seu lançamento mundial, mas acabou por ficar disponível recentemente em plataformas de streaming. O final de "Fight Club" é épico e apocalíptico: a personagem de Edward Norton (com o seu alter-ego, interpretado por Brad Pitt) explode os arranha-céus da sua cidade. Mas não na versão chinesa modificada pelos censores.

O final disponibilizado pelo canal de streaming Tencent Video é ligeiramente diferente - um texto (em powerpoint) explicando que, afinal, o que acontece é outra coisa: “A polícia rapidamente descobriu todo o plano e prendeu todos os criminosos, impedindo com sucesso que as bombas explodissem. Após o julgamento, Tyler (Brad Pitt) foi mandado para o asilo de doidos e recebeu tratamento psicológico. Teve alta hospitalar em 2012”.

O novo final tornou-se alvo de paródia generalizada entre os apreciadores de cinema chineses, e a Tencent Video, perante a polémica, acabou por recuar e disponibilizar a versão original.

Até o realizador David Fincher comentou o caso - não tanto furioso pela forma como a sua obra foi adulterada, mas sobretudo incrédulo e aparentemente divertido: "Se não gostam desta história, porque licenciaram este filme?" questionou-se o realizador. "Não faz sentido para mim que as pessoas digam: 'penso que seria bom para o nosso serviço [de streaming] se tivéssemos este título... só queremos que seja um filme diferente'. A merda do filme tem 20 anos! Não é como se tivesse a reputação de ser um filme super fofo!", disse Fincher à revista Empire, em fevereiro passado.

A realidade paralela dos filmes na China

Mas há muitos outros casos de grandes, médias e pequenas produções de Hollywood que levam alguns retoques para não ferir a sensibilidade dos dirigentes chineses. A versão chinesa de “Bohemian Rhapsody, o biopic sobre o vocalista dos Queen, Freddie Mercury, fez tudo para esconder o facto (público, notório e assumido) de o cantor ser homossexual. Todas as cenas em que Mercury é retratado como homem gay foram cortadas - foram bastantes cenas. 

No filme "Logan", da série X-Men, foram cortadas diversas cenas consideradas demasiado violentas. "Pixels", uma fantasia de ficção científica de 2015, foi lançado na China sem uma cena em que extraterrestres destroem uma parte da Muralha da China. 

As séries de televisão também não escapam. Ficou célebre um episódio de Simpsons em que a famosa família de Springfield visita Pequim e a Praça Tiananmen, célebre pelo massacre de estudantes que protestavam contra o governo chinês. No local vê-se uma placa com a inscrição: “Praça de Tiananmen. Neste local, em 1989, nada aconteceu”. A ironia foi riscada pelos censores chineses.

Já este ano, uma reposição da sitcom "Friends" surgiu amputada de uma linha narrativa secundária, com duas personagens lésbicas. Apesar de a série já ter passado na China, há anos, sem cortes, agora os censores acharam que o público não devia ser exposto à existência de duas mulheres lésbicas.

Há também casos em que são feitas alterações ao argumento a pedido dos distribuidores chineses. Num dos filmes “Homem de Ferro”, a vida de Tony Stark é salva por um médico chinês, recorrendo à medicina chinesa, e não por um médico ocidental. Um filme de categoria B sobre uma invasão dos EUA por tropas chinesas foi completamente alterado digitalmente para que, em todas as cenas em que se viam símbolos chineses, estes fossem transformados em norte-coreanos. E no primeiro filme protagonizado pelo Doutor Estranho, uma personagem tibetana foi transformada em céltica.

Segundo um relatório de 2020 do PEN America, cada vez mais estúdios norte-americanos estavam a aceitar alterações aos seus filmes para agradar às autoridades de Pequim e verem as suas produções nas salas de cinema e televisões chinesas - para Hollywood, a China tornou-se o segundo maior mercado, apesar das fortes restrições, que só permitem um limitado número de produções estrangeiras nas suas salas.

Não só começaram a ser comuns cortes e alterações de filmes já terminados, como cada vez mais produtores estavam a exercer autocensura, para evitar cenas que possam melindrar os censores chineses e comprometer a possibilidade de entrada nesse mercado. Grandes produtores de blockbusters, como a Disney ou a Marvel, viram os seus lucros crescer no mercado chinês e não querem arriscar matar a galinha dos ovos de ouro.

Quando Hollywood diz não a Pequim

Mas há sinais de que a tendência poderá estar a mudar. Este ano, a sequela de “Top Gun” não estreou na China - não há explicações oficiais, mas terá a ver com o facto de o protagonista usar o seu velho blusão de aviador, que tem costurado nas costas uma bandeira de Taiwan. Houve alguma polémica com o caso, porque no trailer, lançado no ano passado, o símbolo de Taiwan parecia ter sido substituído por uma figura geométrica aleatória, o que foi entendido como uma cedência da americana Paramount ao parceiro chinês do filme, a Tencent. Mas, afinal, a bandeira de Taiwan lá está - a Tencent é que saiu do filme. 

A Paramount não tem qualquer expetativa que o filme possa ser autorizado na China. Mas, apesar de ter provocado a ira dos chineses, “Top Gun: Maverick” é o filme mais lucrativo do ano, até agora. 

Mas outros filmes norte-americanos de alto orçamento têm dito não às exigências dos censores chineses. É o caso da animação “Lightyear” e do mais recente filme do Homem-Aranha. No filme da Pixar sobre um astronauta, os chineses exigiam o corte de um beijo entre duas personagens do mesmo sexo - a homossexualidade é mesmo um dos tópicos mais delicados para os censores de Pequim. A Pixar (da Disney) recusou a exigência.

Opção diferente foi a da Warner Bros., que aceitou cortar duas falas no filme “Fantastic Beasts: The Secrets of Dumbledore”, que aludiam a uma relação homossexual entre dois personagens masculinos deste filme do universo Harry Potter (um deles, o protagonista Dumbledore). O estúdio garantiu que os cortes não punham em causa a integridade artística da obra.

No caso de “Spider-Man: No Way Home”, a exigência era que fosse cortada (ou encurtada) uma imagem da Estátua da Liberdade. A Sony Pictures recusou-se a fazê-lo.

A consequência de um não é sempre a mesma: impossibilidade de lançar o filme ou a série no mercado chinês, o segundo mercado de cinema mais lucrativo do mundo a seguir aos EUA e Canadá. Mas a importância da China poderá estar a cair - a política de covid zero está a impedir a normal retoma do negócio dos cinemas, e o controlo cada vez maior das autoridades sobre os conteúdos poderá isolar cada vez mais a China em relação a Hollywood. Xi Jinping e os seus colegas de poder preferem histórias edificantes, em que a China é um exemplo para o mundo e as personagens respeitam as autoridades, cumprem as leis e são felizes para sempre - mesmo que o jovem Gru nunca concretize o seu sonho de ser o maior super-vilão do mundo.

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