Opinião: A longa e estranha história do balão-espião

CNN , Peter Bergen
12 fev 2023, 13:00

O voo do balão da China sobre território americano não é uma catástrofe em termos de defesa nacional como um grupo de políticos Republicanos nervosos, incluindo o antigo Presidente Donald Trump, tem insinuado.

Nota editorial: Peter Bergen é especialista em Defesa da CNN, vice-presidente na plataforma Nova América e professor na Universidade do Arizona. É autor do livro "The Cost of Chaos: The Trump Administration and the World". As opiniões expressas neste comentário refletem as suas opiniãos pessoais

Abater o balão chinês não foi muito diferente de quando o meu filho de 11 anos rebentou um balão com que andou a brincar pela casa fora durante toda a semana.

E recordou-me de quando o meu pai, Tom Berger, era oficial na Força Aérea americana em meados dos anos 1950 e trabalhava num programa que queria enviar balões para o espaço aéreo soviético.

Em 1954, ele foi destacado para a Base Militar da Força Aérea Wright-Patterson, em Dayton, Ohio, para trabalhar no projeto "Grand Union”, que enviava balões com câmaras para sobrevoar o que era então a União Soviética. Os balões-espiões eram lançados da Turquia.

O meu pai não falava muito desta parte da carreira dele, provavelmente porque era um projeto secreto, mas passaram-se sete décadas, e há muito que o programa foi desclassificado.

Meus caros, os balões-espiões são velha tecnologia. Usá-los é como trazer um machado bem afiado para a guerra do Afeganistão; talvez pudesse ter ajudado, mas uma bomba de 900 quilos com certeza teria mais impacto sobre o inimigo. (A China negou ter usado o balão para espionagem.)

De facto, os balões têm sido usados para espionagem desde o final do século XVIII. Os soldados de Napoleão usaram-nos para reconhecimento em 1794. No Guerra Civil americana, as forças unionistas usaram balões para detetar os movimentos do exército da Confederação; até havia um Corpo de Balões da União.

Agora os Estados Unidos e os seus rivais têm estas novas e modernas engenhocas da moda, chamadas "satélites de espionagem", que tiram fotografias! E fazem vídeo! E usam detetores térmicos para fazer imagens de indivíduos que se movimentam à noite! Quando o céu está limpo, podem espiar qualquer coisa, com uma resolução de centímetros.

De facto, a tecnologia de imagem por satélite está a tornar-se tão barata que é possível sair para ir comprar, por exemplo, imagens em grande plano de uma batalhão russo na Ucrânia. Basta perguntar à Maxar Technologies; a empresa construiu um negócio bastante rentável com base nesta tecnologia e há dois meses foi comprada por uma empresa de Private Equity por 6 mil milhões de dólares.

Por outras palavras, o voo do balão da China em território americano não é uma catástrofe em termos de defesa nacional como um grupo de políticos Republicanos nervosos, incluindo o antigo Presidente Donald Trump, tem insinuado.

Mas pode ajudar a explicar, pelo menos em parte, um aspecto de um relatório, publicado o mês passado pelo Gabinete do Director de Inteligência Nacional, que passou quase despercebido.

O relatório analisou mais de 500 avistamentos de objetos não-identificados no céu, durante as últimas duas décadas, grande parte deles relatados por pilotos e outro pessoal da Força Aérea e da Marinha americanas. Estes relatos foram avaliados pelo All-Domain Anomaly Resolution Office do Pentágono, um nome sofisticado para um gabinete que tenta analisar avistamentos de OVNIs.

O relatório observou que muitos destes avistamentos - 163 deles - diziam respeito a balões ou "entidades do tipo de balões".

E agora aparece a notícia de que três balões chineses entraram no espaço aéreo americano durante a administração Trump mas que isto não foi noticiado em larga escala.

Isto levanta algumas questões interessantes em relação ao trabalho do All-Domain Anomaly Resolution Office: Será que alguns dos balões identificados eram chineses? E será que alguns destes 171 "avistamentos por explicar" de OVNIs também eram balões chineses?

O partido Republicano já pediu uma audiência no Congresso para discutir o caso do balão-espião e de certeza que estas questões vão ter um bom tempo de antena.

Os balões-espiões, de facto, têm vantagens em relação aos satélites; são relativamente baratos e podem ser mais manobráveis. Sem dúvida que vale a pena os militares americanos continuarem a vigiar os céus e a estarem atentos a estranhos objetos voadores, sejam eles balões chineses ou drones de espionagem.

Mas a China já fez pior. Oficiais americanos acusaram a China de beneficiar do trabalho de piratas informáticos que roubaram os planos de design do avião de combate F-35 para construir uma nova geração de aviões chineses. A China também foi acusada de ter tido acesso a informação pessoal de mais de 20 milhões de americanos que trabalhavam ou tinham trabalhado para o governo americano, quando, em 2015, os computadores do US Office of Personnel Management foram pirateados. A China disse que as acusações do roubo dos planos do F-35 não tinham qualquer base e negou ter responsabilidade pelo ataque informático de 2015.

Insuflar a história do balão pode ser bom para o espetáculo político mas não ajuda a avaliar as reais ameaças que podem vir da China.

E.U.A.

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