«Quando ouvi que íamos jogar uma competição europeia, não pensei em mais nada»

13 jul 2025, 23:59
Celso Sidney e David Teles (Cherno More/Tiago Rosário)

Celso Sidney e David Teles deixaram a Liga 3 para rumar ao Cherno More, da Bulgária. Os portugueses vivem os primeiros tempos em solo búlgaro. Em entrevista ao Maisfutebol e com a estreia na Conference League na mira, os jogadores partilham as ambições na nova aventura

Celso Sidney e David Teles são os portugueses do Cherno More, clube da Liga búlgara. No passado já foram rivais. Hoje, vestem as mesmas cores e partilham o balneário, naquela que é a primeira experiência fora de Portugal a nível profissional para ambos. 

Celso, ex-Lusitânia dos Açores, assumiu que a decisão de se mudar para a Bulgária foi bastante fácil. «Quando ouvi que íamos jogar uma competição europeia, eu não pensei em mais nada», começou por referir em entrevista ao Maisfutebol. 

O Cherno More, terceiro classificado da última edição da Liga da Bulgária, vai disputar a 2.ª pré-eliminatória da Conference League frente ao Basaksehir, da Turquia. 

«Tive propostas de outros países. Mas aqui era o único em que iria poder jogar uma competição europeia. Para mim é um sonho», acrescentou o avançado de 24 anos. 

David Teles, ex-Anadia, assumiu também que a participação na Europa foi um fator predominante na decisão. «Foi uma situação que surgiu muito rapidamente. O mister falou comigo diretamente. Mas o facto de estarem a jogar competições europeias foi, sem dúvida, algo que também me aliciou bastante», partilhou.

Porém, o desafio será complicado. O Basaksehir, recorde-se, foi campeão da Liga da Turquia em 2020. E, juntando a isso, participou na Conference na temporada passada. No entanto, mesmo que o favoritismo esteja do lado dos turcos, Celso demonstrou ambição para a eliminatória. 

«Não temos medo. Os jogadores aqui são muito ambiciosos. O que se fala no balneário é que temos que fazer o nosso jogo e confiar nas ideias do míster. O primeiro jogo é aqui em nossa casa e queremos ganhar», referiu.

Primeiros passos no futebol

Esta é a primeira experiência fora de Portugal para David Teles. O médio de 27 anos deu os primeiros toques na bola no clube da terra, o Elvas. 

«Eu sou de Elvas, sou do Alentejo. Comecei a jogar lá desde os meus quatro anos. O futebol sempre foi um objetivo, sempre foi uma coisa que eu gostei de fazer».

O «menino» do interior rumou até à capital, Lisboa, para perseguir o sonho. Teles representou o Sporting durante dois anos, na altura nos sub-16 e sub-17. O nível de exigência, assume, foi o grande impacto que sentiu. 

«Nós ali não tínhamos muito tempo para nos adaptarmos. Ou tu chegavas e estavas a um bom nível ou então havia muita malta que poderia chegar para o teu lugar», partilhou.

Por outro lado, Celso pisou terras britânicas ainda nos escalões de formação. Mas, antes, estreou-se no mundo do futebol pelo Grupo Desportivo de Cachão, clube da terra natal: Mirandela. 

Seguiram-se clubes como o Desportivo de Chaves e o Boavista, antes de rumar ao West Ham, de Inglaterra, em 2018. «É um clube muito grande. Acho que toda a gente que gosta de futebol conhece o West Ham», referiu. 

O avançado chegou a treinar na equipa principal dos ingleses. Ou seja, dividiu o balneário com nomes como Jack Wilshere, Chicharito, Manuel Lanzini,  Michail Antonio, Pablo Zabaleta, Samir Nasri e Declan Rice.

O que aprendeu com todos estes nomes? Sobre trabalho, principalmente.

«Eu vi que para estar ali é preciso muito trabalho e muita dedicação ao futebol. Só mesmo quem está preparado é que consegue manter-se lá».

Adaptação à nova cultura 

O destino quis que Teles e Sidney cruzassem caminhos no Cherno More. Como conta o médio-centro, experimentar algo fora de Portugal era também um objetivo. 

«Cheguei há uma semana, mas já me estou a sentir adaptado. O grupo é acolhedor. Apesar de muitos deles não serem estrangeiros, têm a facilidade de conseguir acolher muitos jogadores. Até agora tem sido uma experiência muito positiva», confessou. 

A adaptação à nova cultura, como conta, é tudo uma questão de hábito. «Nós temos a sorte de estar numa das melhores cidades a nível de qualidade de vida. O restante acho que é uma questão de te ires habituando. O teu dia-a-dia acaba por ser um bocadinho diferente, mas é uma questão de hábito», assumiu. 

David chegou a Varna há alguns dias. Celso, por sua vez, já está há um mês na cidade. 

Os adeptos do Cherno More, que segundo consta enchem os estádios, têm contribuído para a adaptação do avançado na nova cultura. 

«Os próprios búlgaros têm um temperamento diferente do nosso. Mas são muito boas pessoas. Receberam-me bem. Já fui muitas vezes reconhecido e já pediram fotos. Isso é muito importante para um jogador».

Agora com um compatriota no balneário, Sidney não esconde a felicidade de contar com um português na equipa. «Ter um conterrâneo é sempre muito importante. Tivemos logo uma boa convivência e fora do campo também vamos ter, como é lógico. Estamos aqui para ajudar», rematou. 

Ambos os jogadores disputaram a Liga 3 na temporada 2024/25. Mesmo que seja numa Liga menos competitiva do que em Portugal, David acredita que se trata de um salto na carreira. 

«Mesmo sendo aqui na Bulgária, é uma Liga que tem muita visibilidade», começou por referir. «A nível de futebol senti que é um bocadinho diferente. É mais intenso, mais agressivo. Mas a nível técnico a Liga 3 tem jogadores que acabam por ser muito requintados», acrescentou. 

Mesmo que com a passagem para uma Liga com um tipo de futebol mais físico, Celso mostrou-se confiante na nova aventura. «Considero-me um jogador possante, não estou com receio. Estou aqui para fazer o meu futebol e para marcar golos para ajudar a equipa», atirou. 

O avançado assumiu, ainda, que tem o objetivo de fazer dez golos em todas as épocas. Na temporada transata, pelo Lusitânia dos Açores, marcou sete. «O ano passado tinha essa meta, mas não consegui. Estou com fome, estou com sede de conseguir esse objetivo».

Ambições e objetivos do Cherno More

A nível da Liga nacional, o país passa por um momento de dinastia. O Ludogorets, agora treinado pelo português Rui Mota, é campeão há 14 anos consecutivos. Este «domínio» serve de motivação, como partilha Teles. 

 «Nós sabemos que o Ludogorets tem um orçamento muito grande e por isso é uma equipa que é candidata ao título, como tem sido nos últimos anos. Mas isso não deve ser uma coisa que nos meta medo. Pelo contrário, tem de ser algo que nos motiva ainda mais a querer derrubar a equipa», reforçou. 

A ambição a nível campeonato, segundo Celso, passa por manter o que tem sido feito, mas sonhar também com algo mais. «É um clube que há dois anos para cá tem ficado em terceiro lugar na classificação. Acho que o objetivo deles é continuar, mas de certeza que ambicionamos muito mais», rematou. 

No que toca às outras competições - Taça da Bulgária e Conference League - o objetivo é ir o mais longe possível, «sem medos», como refere o jogador natural de Mirandela. 

Na cidade do Cherno More, Varna, há outro emblema que milita na Liga: o Spartak Varna, clube que conta com o português Berna Couto, ex-Sp. Braga. O amor pelo futebol é algo muito sentido pelos habitantes. Mesmo com a rivalidade, o «clube da cidade» poderá sempre contar com o apoio dos adeptos. 

«Este [Cherno More] é o clube da cidade. Em casa acredito que eles venham para nos apoiar. Vejo estas bancadas cheias de bandeiras e fumo. Eles aqui realmente gostam mesmo de futebol», concluiu Celso. 

No sábado passado, o Cherno More venceu por 4-1 o recém-promovido à Liga búlgara, Dobrudja Dobrich, no último teste antes do arranque oficial da temporada. Sidney marcou um dos golos da vitória, registando o quinto tento certeiro na pré-época. David Teles, por sua vez, fez a estreia pelo clube, saltando diretamente para o onze inicial.

A estreia na Parva Liga, o principal escalão da Bulgária, está marcada para o próximo dia 18 de julho, diante do CSKA Sofia. O arranque na Conference League, frente ao Basaksehir, está agendado para o dia 24 de julho.