Especialistas acusam o Estado de falta de fiscalização das infraestruturas e de planeamento da prevenção de eventos extremos
O rio Mondego é conhecido por, ano após ano, galgar as margens, inundar campos e invadir casas, sem pedir licença. Este ano, os efeitos tornaram-se mais visíveis, com a força da água a derrubar parte de uma das principais vias rodoviárias do país. Depois do rebentamento de um dos diques, parte da Autoestrada do Norte ruiu como uma ponte de cartão. Henrique Pereira dos Santos, arquiteto paisagista, diz que a situação, por mais excecional que seja, é fruto de incapacidade de aprendizagem de quem governa e da sociedade.
“Somos muito maus a aprender com os erros. O exemplo das cheias é um, o exemplo dos fogos é outro. (…) Cometemos demasiadas vezes os mesmos erros. Vamos sempre cometer erros e não vale a pena estarmos à procura da pessoa responsável. O país tem uma cultura muito cesarista e achamos que, se houver um tipo muito bom, vai resolver os problemas todos. (…) Um tipo bom com um enquadramento institucional mau vai ter maus resultados, por melhor que ele seja”, disse o especialista, esta quinta-feira à noite, na antena da CNN Portugal.
O especialista ressalva que “não há risco zero”, mas, para o minimizar, “temos de melhorar no planeamento, melhorar na execução e melhorar muito naquilo que é uma fragilidade, uma fragilidade do país e da sociedade, que é a avaliação, a avaliação e a melhoria contínua”. O arquiteto paisagista diz mesmo que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) “é um autêntico albergo espanhol” a que falta “uma estrutura fundamental, bem movimentada”.
Orlando Borges, antigo presidente do Instituto Nacional da Água, alinha pelo mesmo diapasão. O especialista confessa que ficou “muito surpreendido” com o que aconteceu na A1 e fala numa “verdadeira catástrofe do ponto de vista das inundações”. “Efetivamente, o caso de Alcácer do Sal é um caso muito particular, excecional mesmo, para o qual eu acho que faria todo o sentido haver uma avaliação relativamente à forma como se procederam as descargas. Feitas por quem, se foram coordenadas, se foi acionada a comissão de gestão de albufeiras. Agora é o tempo efetivamente daquilo que está a ser feito e está a ser feito bem. As câmaras municipais, a APA, a Proteção Civil, de forma reativa, estão a gerir bem. Do ponto de vista da precaução e do planeamento é que, de facto, a situação está longe de poder ter sido aquilo que devia ter sido. No caso concreto da A1, fiquei surpreendido como é que uma infraestrutura daquela natureza está tão dependente quanto a situação que existiu”, sublinha.
Henrique Pereira dos Santos recorre a uma metáfora familiar para explicar o que considera que está a acontecer em Portugal: “Faz-me lembrar um dos meus irmãos, que tem uma catrefada de filhos. E, quando se lhe perguntava como é que estava a situação financeira, ele costumava responder ‘bem, para o supérfluo, vai dando, para o dia a dia que é mais difícil”. O especialista diz que o país investe na execução, mas falha na fiscalização e na manutenção.
“A Administração Pública está no estado lastimável que está, mas não é só um problema da Administração Pública. A Administração Pública reflete a sociedade. Há aquela famosa frase do Passo Coelho ‘que se lixem as eleições’, e nós devíamos adotar como sociedade uma frase semelhante, ligeiramente alterada, que era ‘que se lixem as execuções’. Porque nós estamos preocupados com a execução financeira dos programas [europeus] que existem, que, de maneira geral, pagam investimento, mas depois não pagam manutenção”, sublinha.
As chuvas das últimas semanas provocaram inundações em várias regiões do país. NA última terça-feira, a força das águas fez rebentar o dique da Ponte dos Casais, no rio Mondego, perto da A1, na zona de São João do Campo. Poucas horas depois, parte da autoestrada, no sentido Norte-Sul, colapsou.
Devido à gravidade do aluimento, a reconstrução da A1, uma das principais vias rodoviárias do país, pode levar semanas a ser concluída, o que representa uma situação "muito grave", sublinhou a autarca de Coimbra, Ana Abrunhosa, uma vez que implica "uma alteração profunda da circulação".