Nas margens do Mondego, teme-se pela vida. "O meu filho pede-me para não o deixar morrer a dormir"

1 fev, 19:42
Reportagem Mondego

REPORTAGEM || Juliana e o marido fazem turnos para dormir e deixam a janela aberta mesmo quando chove para não perderem a ordem de evacuação. Tiago está preocupado com os avós, que vão ter de dormir numa autocaravana. António está num “dilema difícil”. “Aqui temos as cheias, fugimos para os montes e vêm os fogos e o temporal, e aí também não estamos a salvo”

A rua está interdita. O alcatrão desapareceu e apenas se vê o reflexo da estação de Granja do Ulmeiro no caudal do rio Mondego, que não para de subir com a chuva incessante. A única casa habitada ali é um rés-do-chão e tem sempre a janela aberta, mesmo quando os pingos entram pela sala adentro. “Tem de ser, não sabemos quando se vai ouvir um grito a pedir para sairmos daqui, para deixarmos tudo para trás”, diz Juliana Silva, 41 anos, que mora ali. Não têm uma noite de sono desde a madrugada da tempestade. 

Juliana e o marido, Francis, têm de se revezar. Enquanto um dorme três horas, o outro fica a olhar pelos dois filhos e por aí em diante. “Eu durmo um horário e depois ele acorda e me substitui por causa da chuva. Normalmente, eu fico até às 3:00 e depois ele pega a partir dessa hora”, conta.  Moram ali há quatro anos, mas foi quando ouviram na rádio que o município de Coimbra estaria a admitir evacuações, por causa do risco de inundações esta madrugada, que se aperceberam de que estavam sozinhos na rua.

Ao lado da casa de Juliana, a rua está já inundada

“Infelizmente, nós ainda não tínhamos percebido, mas nesta rua somos os únicos que ainda cá estamos, o resto das casas os donos ou foram já para outro sítio, ou estão abandonadas já há algum tempo”, afirma Juliana Silva, enquanto o marido, Francis, de pijama, entra na sala, completamente despojada de tudo que não uma “televisão, para os miúdos se entreterem”, uma cadeira a servir de apoio e um sofá velho. Tudo o resto, roupas, móveis da cozinha, mesas foram entregues aos vizinhos que moram um pouco mais acima, onde não se espera que o Mondego chegue. 

O filho, Josué, que está acordado, mostra como já aprendeu a escrever o nome numa folha de papel. Juliana e Francis sorriem-lhe timidamente. Estiveram quatro dias sem luz, água ou comunicações e foi a forma de ele se entreter, recordam, assumindo que isto “está mesmo difícil por causa das crianças”. “O meu filho pede-me para não o deixar morrer a dormir, ele está com muito medo, porque há pessoas que passam aqui de carro e estão sempre a dizer-lhe para ter cuidado porque a casa vai encher-se de água”. 

Juliana e o marido Francis na sua casa em Granja do Ulmeiro

Francis, 45 anos, dá o exemplo da noite passada. “Ele acordou a dizer que não quer morrer afogado”. “Fazemos esses turnos, mas a verdade é que, desde terça-feira que praticamente não dormimos, e todo o tempo que temos é a desmontar coisas e a passar tudo para o cimo das escadas” que vão dar ao primeiro andar. Nas escadas, vemos principalmente panos e tapetes encharcados. “Estamos a tentar falar com o nosso senhorio, a ver se tem a chave lá de cima, para estarmos mais a salvo, mas ainda ninguém nos atendeu”, diz Juliana. “Se a água entrar, olhe, fugimos, não há nada a fazer. E depois reconstruímos”.

A uns quilómetros da estrada cortada, na mesma margem do Mondego, Tiago Barreto, de 35 anos, está num vai e vem. É produtor de milho e de hortícolas, tem estado a carregar tudo aquilo que pode ser afetado caso o rio “venha por ali a cima” e inunde Casais, onde tem o armazém com as máquinas agrícolas, os tratores e os atrelados. “Tenho estado a mudar as alfaias e os tratores para zonas mais altas por causa do risco de inundação”, afirma. 

Tiago Barreto ao lado da máquina agrícola que vai transportar dali para fora

Para se afastar da margem do rio, Tiago tem de ultrapassar uma série de troncos caídos, de postes de eletricidade desfeitos e de lâmpadas no chão. O esforço não o preocupa, mas o nervosismo está ali perto do seu armazém. “Os meus avós moram mesmo aqui ao lado, num rés-do-chão”. Tem medo que o caudal do rio os deixe sem sítio para onde ir, então está a pressionar para que eles abandonem a casa durante a madrugada. “Eles têm uma autocaravana ali para cima e vão dormir lá, mas é complicado porque já são pessoas de alguma idade”. 

“Uma onda que começava numa ponta e acabava noutra"

“Eu era pequeno, mas em 2001 eles viveram o mesmo”, diz, ao recordar as grandes cheias que fizeram transbordar o rio e deixaram um rasto de destruição em Coimbra. “Passámos todos por isso aqui à volta”, insiste. Do outro lado do Mondego, a Este, há quem tema que a próxima madrugada possa deixar um cenário ainda mais devastador. “Nessa altura, só se aguentaram as paredes de casa, perdi tudo o que era móveis, frigoríficos e televisões”, lembra António Carvalho, de 84 anos, enquanto se protege da chuva por baixo da varanda da sua casa na Ereira. “Agora, temos medo que possa ser pior do que em 2001, com este temporal todo”. 

António diz que se encontra num “dilema difícil”. À sua volta, o som dos tratores é ininterrupto, com os moradores a transportarem sofás, camas e móveis para o monte ali perto, onde se espera que a água não chegue. Ele também tem de o fazer, mas, reconhece, “há muita coisa que não conseguimos tirar, portanto, é aceitar que vamos perder tudo isso”. Diz que tem uma segunda casa lá perto do monte, mas a tempestade arrancou-lhe o telhado. 

“Dizem que nós estamos aqui numa zona de risco. Mas quem é que não está numa zona de risco? Aqui temos as cheias, fugimos para os montes e vêm os fogos e o temporal, e aí também não estamos a salvo”, afirma, posicionando estrategicamente o guarda-chuva preto, para ficar contra o vento. Recordando-se da “terrível noite”, António diz que tudo aquilo parecia “uma onda que começava numa ponta e acabava noutra, levantando as telhas todas”. Os filhos têm andado lá por cima a ver se concertam “qualquer coisa”, mas, não têm tido muito sucesso.

Rui Carvalho trata dos preparativos para a madrugada, em Ereira

A uns metros de onde António está abrigado, Rui Carvalho, 63 anos, ultima os preparativos para a madrugada. O Mondego já lhe atropelou o quintal e já banha os pés das galinhas no barracão mais avançado. “Em 2001, a nossa casa foi das primeiras a ser afetada pelas cheias e não via o rio assim desde essa altura, quando a água chegou ao nosso teto”. Agora, diz, “pode ser igual”. Se tudo ficar pior, o plano é juntarem-se umas ruas acima, na associação. “Temos lá coisas para cozinhar e, nesse aspeto, a malta aqui mobiliza-se bem”. 

A recordação mais tátil que Ereira tem das grandes cheias de há 25 anos está na fachada da igreja. Ali, um azulejo erguido a mais de um metro e meio de altura vinca o nível a que as águas chegaram durante as cheias. Licínia Almeida, que mora perto, prefere outra medida para exemplificar o nível do Mondego. “Ficou ao nível do meu pescoço”, diz, alertando que toda aquela população “está com medo”. “Já perdemos tudo uma vez e não queremos perder novamente”. 

Licínia já tirou tudo dos armários, antecipando as cheias

Dentro da casa de Licína, os armários e as gavetas estão já vazios. “Ando a desarrumar tudo e ontem passei a noite a subir e a descer as escadas para deixar tudo aquilo que consigo pegar no primeiro andar”. Ainda lhe falta o sofá, mas está à espera de ajuda. O filho mora em Leiria, está sem água e também perdeu o telhado. Só conseguiram voltar a falar ontem à noite. Por agora, espera contar com a ajuda dos vizinhos. “A minha casa, da outra vez, só fiquei com as paredes. Vamos lá ver como corre esta noite”.

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