O autor da canção “Bangladesh” diz que não é do Chega e que fez só um vídeo “cómico-satírico”. Mas admite ter dado a Ventura um “monstro”

30 nov, 14:32
André Ventura finger gun (José Coelho/Lusa)

Por trás do refrão “Isto não é o Bangladesh”, que passou dos vídeos de redes sociais para os cartazes de André Ventura, está um criador que insiste ser “apartidário” (e, por agora, um anónimo) e que escreveu com ironia sobre a retórica anti-imigração do Chega, não sendo aquele um hino político. Mas admite que esta canção viral acabou por funcionar como um “monstro” de visibilidade para o candidato do Chega às presidenciais, sobretudo entre crianças e jovens. Só nunca foi essa a intenção

O autor assina como "bruttosuave". E prefere, “por enquanto”, não mostrar o rosto. Em setembro, pôs a circular um André Ventura de animação, gerado com inteligência artificial, a dançar enquanto debita em tom de rap frases racistas como “tira os teus putos castanhos da minha creche”, antes de disparar o refrão que agora se lê nos outdoors provocatórios do Chega: "Isto não é o Bangladesh". Antes já Ventura partilhara nas redes a canção. 

O vídeo, “Bangladesh”, publicado a 10 de setembro, soma dezenas de milhões de visualizações entre Instagram, TikTok ou YouTube e é hoje repetido particularmente entre crianças e jovens, em pátios de escola e grupos de WhatsApp de turma, um alcance que o próprio autor admite não ter antecipado e que foi para si "uma surpresa". “Este foi um daqueles casos em que se olha para trás e se pensa ‘criei um monstro’, não necessariamente no mau sentido”, conta agora bruttosuave, em respostas por escrito ao Diário de Notícias.

Bruttosuave descreve o projecto como uma experiência com ferramentas de inteligência artificial e com o absurdo da política, com referências que vão de Monty Python a South Park e às batalhas de rap do YouTube. Rejeita a ideia de que a letra tenha sido escrito por uma máquina — “as letras são 100% humanas, da minha autoria” — e sublinha que está registada até na Sociedade de Autores, tal como a música, já disponível no Spotify e na Apple Music.

A escolha de Ventura e do Chega como protagonistas, explica, teve que ver com o lugar que o partido ocupa no centro do “falatório público” e não com qualquer alinhamento partidário. "Foi porque tinha de começar por algum lado e porque, goste-se ou não, é um partido que está na linha da frente do mediatismo." Quis tentar algo "cómico-satírico”, assegura, e que representasse o que diz ser a "fase distópica da nossa realidade sócio-política". 

Ainda assim, o refrão saltou do ecrã para a rua, em cartazes contra imigrantes bengalis, e a sátira transformou-se em slogan de campanha.

Questionado de frente, o criador afasta qualquer ligação orgânica ao partido: não é militante, nem assessor, nem simpatizante. Define-se até como “apartidário” e lembra que, desde então, do sucesso de “Bangladesh”, espalhou o fogo satírico por vários lados: de Carlos Moedas, rebatizado “Cripto Moedas”, a Mariana Mortágua em pose de Titanic com Greta Thunberg, passando, do lado socialista, por José Luís Carneiro e, mais recentemente, José Sócrates no tema “Marquês”.

Bruttosuave diz, ainda nesta entrevista escrita ao Diário de Notícias, ter já um advogado “de prevenção”, mesmo não tendo sido "por agora" processado, e saber que se move numa área cinzenta, mas considera que não tratou Ventura pior, ou melhor, do que os restantes (defende ter sido "implacável" com todos) e que todos aproveitaram o empurrão, "o kick extra", de notoriedade. "Enquanto estiver a encarnar aquilo que para mim é um veículo de sátira, é-me relativamente fácil abstrair de qualquer culpabilidade ou responsabilidade social, embora compreenda as implicações", responde na entrevista ao mesmo jornal. Garante que mantém o anonimato para não misturar esta faceta com a sua actividade profissional, numa área (a música) que sente ameaçada pela própria inteligência artificial que agora usa a seu favor. E admite que um dia revelará quem é, “mas ainda é cedo”.

Fora do ecrã, a apropriação do refrão “Isto não é o Bangladesh” pela campanha de André Ventura abriu uma frente que já não é satírica.

A frase, apropriada por Ventura para fazer política contra imigrantes bengalis surgia em cartazes espalhados pelo país ao lado de outro slogan — “Os ciganos têm de cumprir a lei” — dirigido à comunidade cigana, o que levou associações e cidadãos a apresentarem várias queixas. A Procuradoria-Geral da República confirmou que essas denúncias deram origem a um inquérito a correr no Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, centrado nos cartazes e na própria comunicação do candidato, depois de a Comissão Nacional de Eleições ter concluído que não havia ilícito eleitoral.

Enquanto bruttosuave insiste que o “Bangladesh” nasceu como paródia e não como propaganda, o refrão já foi parar aos autos do Ministério Público.

No passado, o líder do Chega já foi condenado em Portugal por discriminação racial: em 2021, o Tribunal da Relação de Lisboa confirmou uma decisão que considerou ilícitas e discriminatórias, em função da cor da pele e da condição socioeconómica, as declarações em que chamou “bandidos” a membros da família Coxi, do Bairro da Jamaica. 

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