opinião
Jornalista nascido em Madrid de mãe portuguesa. Comentador da CNN Portugal e correspondente do canal espanhol La Sexta.

Chega de aporofobia

6 jun 2025, 17:35

Chega de argumentos dos xenófobos que não suportam a presença de asiáticos na Mouraria, mas que regalam salamaleques e suspiram pelas propinas dos americanos ricos (ou de qualquer outro continente, o que conta é o guito) da Avenida da Liberdade

Chega de debates inúteis sobre as causas da subida do Chega, ou das alegadas culpas dos outros partidos. É claro que é preciso analisar o afundamento histórico do PS e o sorpasso do partido de André Ventura, que de repente, sem quase darmos por isso, é a segunda força na Assembleia da República — ninguém teria acreditado neste prognóstico há menos de dois anos, quando o PS tinha maioria absoluta e governava comodamente o país, que crescia a vários níveis como nunca tinha crescido.

O Chega sobe pelo desencanto de muitos "portugueses de bem", mas sobretudo porque soube explorar, melhor e com menos pudor do que ninguém no pós-25 de Abril, o medo e o ódio. Contra quem? Contra os suspeitos do costume: os que "não são daqui" ou "não são como nós", sejam eles imigrantes ou ciganos.

Em vez de fazer pontes e lançar debates para construir uma sociedade melhor, mais justa e com menos discriminação, fazem exatamente o oposto: alimentar as chamas do desprezo, da discórdia e da revolta face a alegados privilégios ou acontecimentos — o mesmo combustível que pôs a arder o Parlamento alemão em 1933 ou as ruas de Lisboa em 1506. 

Chega de mentiras e de ameaças. Não, não fizeram nada para merecer o segundo lugar nas eleições de 18 de maio. E não, não vão continuar a subir inevitavelmente nem vão ocupar o poder, porque a sociedade e a democracia portuguesa — tal como a francesa ou a espanhola — ainda vão a tempo de reagir. Alguns eleitores e partidos portugueses até podem estar desorientados, mas sabem identificar o fascismo e não vão permitir que regresse, como se o último meio século não tivesse acontecido.

Há um elemento externo — mas omnipresente — que joga contra o Chega: o espelho trumpiano. Os disparates, tiros no pé e incompetências do fascismo nos Estados Unidos são cada vez mais evidentes e frequentes, e por isso é pouco provável que os Portugueses queiram, voluntariamente, ir para o Inferno — embora seja o nosso dever defender isso mesmo se for o caso, como dizia Salgueiro Maia.

Chega de fingimentos. O novo perfil de André Ventura, alegadamente mais conciliador e institucional, é só mais uma artimanha para chegar ao poder. Chega de máscaras, de comentadores e porta-vozes mal-educados e mentirosos, de ilustres desconhecidos sem filtros nem espinha dorsal.

A ideologia do Chega é tão vazia quanto as pessoas que representam o partido ou as que votam nele. Se estivessem realmente preocupados pelas desigualdades, votariam no Livre ou no Bloco de Esquerda. Se estivessem preocupados pelo "excessivo peso" do Estado, votariam na Iniciativa Liberal. Se estivessem minimamente preocupados pelos muitos problemas, por demais evidentes, de gestão e não só, nos hospitais, escolas, juntas de freguesia e por aí fora, votariam num partido que oferecesse soluções, em vez de birras e confrontos.

O Chega não tem programa nem defende nada em particular: não aposta pelo mundo rural nem quer melhorar a vida nas cidades. A questão principal, a que sobressai no meio de um discurso tóxico sem coração nem justiça, é a diferença, a identidade dos outros, dos que têm outro tom de pele, um sotaque diferente ou comida com outros ingredientes e aromas. 

Em vez de desfrutar da diversidade, da riqueza que nos trazem pessoas oriundas, muitas vezes, de países que em tempos comerciaram ou foram colonizados pelos navegantes, guerreiros e clérigos portugueses, sublinham o que nos separa, nunca as muitas coisas que nos unem. Em vez de agradecer os contributos à modernização da sociedade portuguesa, ou de enaltecer o impacto positivo na economia e na Segurança Social, espalham patranhas sobre alegados favorecimentos a pessoas que, muitas vezes, não conseguem pagar a renda ou duas refeições diárias. Em vez de celebrar o impulso para repovoar um país assimétrico cujo interior foi esvaziado, focam-se em denegrir e lançar suspeitas mal amanhadas.

A haver alguma substância neste remedo de ideologia, é a mesma da caça de bruxas, do pogrom, do apartheid. Em vez de favorecer a integração da comunidade cigana no Portugal do século XXI, ou de reconhecer a discriminação sofrida ao longo dos séculos (e ainda hoje), trabalham para reforçar os estigmas e as tensões.

Dizem que nas redes sociais reina a extrema-direita, e deve ser verdade, porque o adolescente que transportava no banco de trás do meu carro há uns dias, ao passarmos pela lisboeta praça de Martim Moniz, repetiu, ponto por ponto, os argumentos dos xenófobos que não suportam a presença de asiáticos na Mouraria, mas que regalam salamaleques e suspiram pelas propinas dos americanos ricos (ou de qualquer outro continente, o que conta é o guito) da Avenida da Liberdade.

Na verdade, não é bem xenofobia, ou não só: é, acima de tudo, aporofobia — palavra de origem espanhola que define o "preconceito, antipatia ou aversão a pessoas pobres ou desfavorecidas". 

Chega, também, de fingir que o Chega não é um problema, o que é um partido normal. Não, não é. Nem tem vocação institucional, nem pode pertencer ao arco da governação. A ser alguma coisa, é o partido da caverna, daqueles que, na alegoria de Platão, "não podem ver o que se passa atrás deles e veem apenas as sombras que são projetadas na parede em frente a eles". Dos que, cegados pela escuridão, não são capazes de distinguir as cores, as nuances, as arestas — a beleza das coisas, a luz que irradia de todo ser humano, a dignidade que é inerente à nossa espécie.

Chega de cavernícolas. É claro que devem estar representados nos órgãos do Estado — Portugal, por enquanto, ainda é uma democracia representativa. Mas convém não perder de vista que o objetivo mal disfarçado é minar por dentro as instituições, exatamente o que Trump fez no primeiro mandato e está a fazer agora, com energia redobrada, na democracia mais longeva do mundo.

Há quem diga que 1.345.689 votantes não podem ser "fascistas, racistas, xenófobos e mais outras coisas". É o caso de um jornalista que aprecio e conheço há anos, mas pergunto então: se não são nada disso, então são o quê?  Sabemos que são mais jovens e menos instruídos do que os eleitores dos outros partidos, de acordo com dados compilados por Marina Costa Lobo no ICS. Sabemos também que são menos religiosos do que os eleitores do PSD e do CDS: não acreditam em Deus, mas acreditam certamente no Inferno — para os outros, claro.

São pessoas que, provavelmente, acreditam que André Ventura vai "Salvar Portugal". Mas salvar Portugal do quê? Dos pobres? Dos imigrantes? Dos ciganos? Ou diretamente da corrupção? A resposta, como quase tudo nos populismos, é simples: salvar-se da má consciência por detestarem os pobres e amarem os ricos. Cristo pregava o contrário e, provavelmente por isso, morreu pregado a uma cruz.
 

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