Somam-se os casos no partido de André Ventura, mais habituado a apontar o dedo do que a olhar para dentro. Se o Chega e o seu líder vão conseguir superar o momento e manter a tendência de voto é a análise que dois politólogos fazem na CNN Portugal
O Chega enfrenta um dos seus maiores desafios internos desde a sua ascensão no panorama político português. Três dos seus deputados - Nuno Pardal, José Paulo Sousa e Miguel Arruda - estão envolvidos em escândalos criminais que vão desde a prostituição de menor e condução sob taxa-crime de álcool ao roubo de malas no aeroporto. Conseguirá André Ventura, e o seu partido, escapar incólume ao número de casos, quando os seus apoiantes estão mais habituados a vê-lo apontar o dedo aos de fora?
"A opinião pública começa a perceber que o partido que se apresentava como o grande paladino dos princípios, das virtudes, que denunciava a corrupção, que não aceitava minimamente a prática da pedofilia, que exigia a castração química, tem no seu interior vários dirigentes e pessoas com comportamentos que caem nessa alçada", diz à CNN Portugal o politólogo José Filipe Pinto, referindo-se à acusação de prostituição de menor de Nuno Pardal, deputado municipal de Lisboa e vice-presidente da distrital de Lisboa do Chega.
Para o politólogo Pedro Silveira, "é impossível André Ventura não ter algum receio desta sucessão de polémicas, porque fragiliza o discurso securitário e moralista” do Chega, bem como “a maneira com que sempre abordou os problemas dos outros partidos”. No entanto, o especialista acredita que os seus membros podem tentar "passar ao lado destas questões mostrando que não são inimputáveis, tentando dizer que 'especialmente com os nossos somos rigorosos e rígidos'”.
Resta a André Ventura, na análise de Pedro Silveira, reforçar a ideia de que "quando estas coisas acontecem o partido tem uma atitude mais implacável que os outros não têm", ainda que para a opinião pública seja "inevitável que haja uma noção de incoerência em relação ao Chega”. “Por muito que o seu líder tente dizer que são diferentes, os problemas estão lá”, sublinha.
E a forma como o presidente do Chega vai gerir esta crise "poderá atenuar o efeito ou poderá verdadeiramente intensificá-lo”, acrescenta José Filipe Pinto. "Quando há uma maçã podre, deve ser imediatamente removida da cesta para não contaminar as outras" e esta afigura-se como a melhor opção para André Ventura na reabilitação da imagem do Chega, observa o politólogo. Ou seja, “condenar o ato e dizer que se sente, ele próprio, muito incomodado, revoltado, e que o Chega não pode albergar pessoas que cometam este tipo de comportamentos desviantes que quer estripar da sociedade".
No entanto, adotar uma posição de cautela ou desvalorizar os crimes em causa poderá fazer o Chega "desmoronar-se como um castelo de cartas". "A imagem de isenção, de transparência, de luta pelos grandes ideais nacionais, pelo fim da corrupção, pela condenação e criminalização, que durante muito tempo tentou construir seria perdida", argumenta José Filipe Pinto.
Pedro Silveira destaca ainda que o Chega está agora a passar pelas mesmas dores dos maiores partidos. "Cresceu muito rápido e ao tornar-se muito grande tem mais dificuldades em controlar o recrutamento de pessoal político, por um lado, e por outro também ganha os poderes das dores de crescimento típicas dos partidos grandes, médios, normais", diz o politólogo, antecipando mais escândalos à medida que se torna maior.
No fundo, defende Pedro Silveira, "o Chega sempre foi um partido como os outros, gostava era que os portugueses acreditassem que não".