O que matou Kirk não foi apenas um dedo no gatilho. É a lógica que reduz a política a um campeonato de exorcismos. É o prazer da demonização, a recompensa digital do insulto, a arma sempre à mão para dar corpo ao ódio
A tentação de reduzir a política a um duelo entre bons e maus é tão antiga como sedutora, reaparecendo reciclada com cada nova crise: a esquerda a vender paraísos, a direita a prometer um regresso a uma ordem perdida. Mas a história, que já triturou utopias e nostalgias, não sustenta esta narrativa. E a tragédia americana de hoje – condensada no assassinato de Charlie Kirk – expõe com brutal nitidez a falência da mesma.
A morte de um ativista de trinta e poucos anos não é uma parábola ideológica, por mais criticáveis ou inqualificáveis que sejam as suas ideias. É um crime. Sem eufemismos. A violência não é um argumento, é a derrota de todos os argumentos. No entanto, cada palavra que antecede o disparo molda o clima que o torna possível. Uns lembram a filiação política do agressor, outros culpam a retórica radical, outros refugiam-se na velha neutralidade que prefere o conforto da ambiguidade. Mas as palavras contam. Obviamente, não tanto como as armas, mas também contam quando transformam o adversário em inimigo, a arma em extensão natural da indignação.
É precisamente quando a violência irrompe no espaço público que a simplicidade dos rótulos se torna perigosa. Nem Democratas nem Republicanos saem ilesos. Os primeiros escondem-se demasiadas vezes atrás das boas intenções. Os segundos deixaram o seu partido ser capturado por um culto que trata a moderação como traição.
O assalto ao Capitólio já o anunciara: a tradição pode ser âncora ou algema. Reduzir a esquerda a uma fábrica de sonhos irresponsáveis e a direita a um catecismo conservador é esquecer que ambas podem gerar monstros. Stalin ou Hitler chegaram a onde chegaram pela mesma fome de poder que esmagou a liberdade em nome de um ideal – fosse ele vermelho ou negro.
A resposta presidencial à morte de Kirk revela a profundidade do abismo. Em vez de apelo à unidade, um dedo acusador: “radicais de esquerda”, ameaças a figuras progressistas, promessas de retaliação e até de pena de morte. Uma retórica de guerra civil que transforma a política em teologia e a diferença em pecado. E enquanto os discursos inflamam, as estatísticas clarificam: mais incidentes de violência de extrema-direita, mas também uma escalada transversal que alimenta o mesmo veneno quando o outro deixa de ser visto como cidadão de pleno direito.
As redes sociais fecharam o círculo antes mesmo de a notícia ser oficial. O algoritmo distribuiu culpas, fabricou teorias, reciclou imagens. A máquina da simplificação converteu a ambiguidade em certeza e destilou a complexidade em raiva pronta a ser partilhada sem filtros para quem quisesse assistir.
A necessidade de sentido tornou-se compulsão: cada clique prometia uma revelação, cada meme vendia a ilusão de uma verdade instantânea. A detenção do alegado assassino, longe de apaziguar, apenas acelerou a caça a sinais e filiações. Hoje, estas plataformas funcionam como ferramentas de justificação. Reorganizam factos para os encaixar em narrativas pré-cozinhadas, trocam dúvida por dogma e transformam a incerteza em arma. Os cartuchos recolhidos não traziam uma ideologia coerente, apenas a gramática de uma subcultura digital feita de códigos internos e de jovens à procura de validação mais do que de uma revolução.
Mas a ausência aparente de motivações não travou ninguém: o crime foi rapidamente moldado a agendas pré-existentes – nos Estados Unidos, no Reino Unido e também por cá, através dos comentadores do costume. Em vez de se discutir seriamente o ecossistema que recompensa o pior do ser humano, ou o facto de o direito a possuir uma arma valer mais do que o direito a continuar vivo nos Estados Unidos, prefere-se fantasiar com a inevitabilidade de uma nova guerra civil. Como se o escalar da violência política fosse mais uma oportunidade para vender conteúdo de consumo rápido ou incentivar o ódio que tanto acusam os outros de disseminar.
O que matou Kirk não foi apenas um dedo no gatilho. É a lógica que reduz a política a um campeonato de exorcismos. É o prazer da demonização, a recompensa digital do insulto, a arma sempre à mão para dar corpo ao ódio. A violência não é monopólio da extrema-direita ou extrema-esquerda, é produto de um envenenamento comum que cresce quando a cidadania se dissolve em cliques.
Há quem veja inevitabilidade nesta espiral. Mas não é inevitável. Exige coragem política, regulação das plataformas que lucram com o ódio, educação cívica que ensine a diferença entre adversário e inimigo, leis que limitem a circulação de armas e líderes capazes de dizer que a democracia é frágil demais para ser entregue a algoritmos ou a cultos. A morte de Charlie Kirk não absolve ninguém. Convoca todos. Recorda que quando a política se transforma em teologia, cada credo pode tornar-se letal. E que a única resposta digna não é vingar, é reconstruir.
Do Utah chegou uma voz inesperada. O Governador Spencer Cox – apadrinhado pela National Rifle Association of America – apelou aos americanos para que escolham um caminho diferente do da violência. Esperemos que os americanos oiçam o apelo do Governador e ignorem o Presidente dos Estados Unidos, que prefere acender fósforos num país já encharcado de gasolina.