Assistimos ontem ao Super Bowl do grande despertar do nacionalismo evangélico americano, sobre o sangue derramado do mártir Charlie Kirk. Um momento que não poderia ter sido mais americano, encarnado pelo casal Kirk: o quarterback e a miss, devotos cristãos, ungidas figuras proeminentes do movimento MAGA e da América que nascerá agora.
Mortes por razões políticas são, infelizmente, comuns nos Estados Unidos, num país onde a violência política é cada vez mais legitimada. Como mostra o relatório do National Institute of Justice, entretanto eliminado do site do Departamento de Justiça americano, a violência de extrema-direita é desproporcionalmente superior à de extrema-esquerda, com 520 homicídios desde 1990. Mas o pior, note-se, não são os dados, é o próprio facto do relatório ter sido eliminado, deixando claro um processo em curso de reescrita da memória social e política no país, num avanço de políticas de orientação fascista (há falta de outro termo que seja capaz de ressoar no leitor) que só teve paralelo nos anos de 1920 e 1930, como bem alertava Jason Stanley, em “Como Funciona o Fascismo”.
Ora, todo o aparato envolvido no Memorial de Charlie Kirk revela-nos, portanto, esse percurso sombrio feito desde a raiz da sociedade americana, que não começa com Donald Trump, mas encontrou na sua primeira administração os trilhos para tornar o Tea Party e o movimento MAGA a onda de comoção espiritual para construir uma América nacionalista e autoritária, fechada em si mesma e em torno de um fervor religioso.
É verdade que podemos dizer que o wokismo político, com a sua cultura de cancelamento, purismo moral, vigilância de linguagem e separatismo progressista, não só causou danos evidentes na sociedade americana como abriu caminho ao reacionarismo nacionalista MAGA. Tudo isso é um facto, mas não desconsiderando os efeitos nefastos desse wokismo político, ele está muito longe dos efeitos que sairão deste despertar pós-Kirk.
Ao transformarem Kirk num mártir de uma causa e ao atribuírem a culpa de forma coletiva à “esquerda”, as mais altas figuras do Estado abriram uma “caixa de Pandora” para o futuro político do país, em que o adversário político se torna inimigo, permitindo-se que seja perseguido e aniquilado em nome de um bem maior: a “nação”.
Trump foi muito claro: “O país estava morto, agora está vivo”. Em nome da “verdade”, de um tipo específico de liberdade de expressão, de defesa de direitos específicos em favor da maioria, as guerras culturais estão prontas para entrar no patamar de guerras armadas. E Trump, uma vez mais, deu o mote: “A bala estava apontada a todos nós”.