"Prefiro morrer aqui do que voltar atrás". Há marroquinos a resistir no sonho-pesadelo de Ceuta

Marta Fernandes Pinto , Artigo atualizado às 21:40 com novas informações
2 ago, 18:59

Marroquinos sentam-se à beira da estrada e esperam por ajuda: "Durmo na floresta e há cinco dias que não como"

"Aqui não há comida, nem onde dormir. Não há nada": migrantes feridos e subnutridos abandonam Ceuta

Oposição espanhola acusa Sánchez de "tolerar" "ato de guerra" promovido por Marrocos

Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

A falta de asilo obrigou muitos a dormir nas florestas à volta da cidade de Ceuta. Relatos de confrontos físicos e as lutas por comida multiplicam-se. A fome e a sede apoderam-se de quem resiste em Ceuta. Mais vale esta prisão improvisada do que voltar para Marrocos, dizem muitos dos que tentaram a sorte. Há agora uma centena de mortos a registar nesta crise migratória

Arriscaram tudo por trabalho, liberdade e uma vida melhor. Apesar do esforço, a única solução parece ser regressar a Marrocos. Perto de 73.500 migrantes, que entraram ilegalmente em Ceuta já o fizeram. Há um sentimento comum: o das esperanças completamente esmagadas.

Houve quem perdesse familiares e amigos na travessia. É o caso de Maroune, de 22 anos, que nadou vários quilómetros para chegar a território espanhol com o irmão Hatine, de 11 anos. Perdeu-o. Di-lo à CNN Portugal enquanto mostra um telemóvel estragado pela água - a sua única esperança para um contacto.

Mesmo com milhares a regressar a Marrocos, surgem relatos de quem tenta o polémico percurso contrário. “Prefiro morrer aqui do que voltar atrás”, assegura um homem de 42 anos à CNN Portugal. “Sou um homem instruído. Estas pessoas têm capacidades para trabalhar muito”, argumenta. Lembra que as tentativas falhadas de escapar a Marrocos “custam tempo” e dinheiro. “Cerca de 100 ou 150 euros. Tenho amigos que tentaram talvez 30 ou 40 vezes". As contas à desilusão não são difíceis de fazer.

A reação de Marrocos só chegou no final deste domingo, com o Ministério do Interior a atribuir culpas à desinformação nas redes sociais, às redes de tráfico humano e à interpretação errada de uma decisão espanhola que proíbe o regresso imediato de migrantes intercetados no mar. O ministério refere que cerca de 40 mil pessoas participaram na travessia para Ceuta, com 1.135 impedidas de entrar em Melilla.

O lado marroquino confirma 11 mortes, a maioria por afogamento, acrescentando estar a verificar os registos de mortes do outro lado da fronteira. Contas feitas, o balanço mortal estará agora perto de uma centena, dado que as autoridades espanholas atualizaram o balanço para 88 mortes durante o dia.

Fome, sede, maus tratos

Chegar não é fácil. Ficar também não. Os relatos de Ceuta fazem-se de fome, sede e até maus-tratos por parte das autoridades espanholas. Sem asilo, muitos são obrigados a dormir nas florestas à volta da cidade. É a luta pela sobrevivência, com lutas para garantir um pedaço de pão.

“Fecharam tudo para que não possamos comprar nada para comer, para nos obrigarem a regressar ao nosso país. Vamos ficar, quer tenhamos fome ou não”, promete Mohamed, marroquino de 23 anos, à Associated Press.

Um outro homem, de 43 anos, repete a ideia. Nadou quatro horas para chegar a Ceuta: "Não vou voltar para trás. Prefiro ficar aqui a tentar, mesmo que tenha de morrer". Nos areais, tudo ganha utilidade. Em especial o calçado abandonado ou perdido, para os pés que nada têm.

Um migrante recolhe água, distribuída por soldados espanhóis em Ceuta, domingo, 2 de agosto de 2026. (Foto AP/Antonio Sempere)

Três dias de pão e água para Brahim. Só resta regressar a Marrocos

Nem todos estão dispostos a tudo pela promessa de uma vida melhor a partir de Ceuta. O corpo não aguenta o desgaste, as palavras em espanhol sabem a ataque.

“Esperava conseguir ir para um abrigo aqui para poder ter alguma liberdade, para arranjar um emprego melhor”, conta um migrante à equipa da CNN Portugal no local. Para trás, tinha ficado um emprego com um salário que mal dava para pagar a renda e as despesas do dia-a-dia”. Quer voltar para Marrocos. Por Ceuta, "não há nada".

O sonho tornado pesadelo começou nas redes sociais. “Vimos vídeos no Facebook, no Instagram, de pessoas a tentarem vir para cá para imigrar”, lembra.

Foi o que também aconteceu a Brahim. Trabalhava numa padaria em Marrocos. "Viemos para evoluir, não para sermos enganados. Pensei que ia construir um futuro melhor aqui, mas fui surpreendido”. Três dias de pão e água, sem conseguir suportar os preços espanhóis.

Já Ouail tem a decisão tomada depois de dias com a barriga vazia: voltar para Marrocos. "Estive oito dias em Ceuta, prestes a conseguir uma cama no centro de acolhimento para migrantes, mas não comia há dias. Nem sequer os marroquinos que lá estavam me ajudaram".

Apesar de alguns cafés terem voltado a abrir portas, a população de Ceuta sente-se intimidada com a presença de migrantes numa larga escala. "Estamos completamente sobrecarregados e, ao mesmo tempo, impotentes. Estes jovens estão a ser completamente explorados. Estão a ser usados como moeda de troca”, conta o proprietário de um desses estabelecimetnos à Reuters.

Migrantes que entraram em Ceuta são escoltados por soldados espanhóis em direção à fronteira para regressarem a Marrocos, este domingo, 2 de agosto de 2026. (Foto AP/Bernat Armangue)

"Se a polícia não for suficiente, venha o Exército"

Parecia que a calma tinha voltado a Ceuta no sábado. A noite mostrou o contrário: uma marcha organizada pelo grupo extremista Núcleo Nacional, em protesto contra aquilo que dizem ser um governo “traidor”.

Quem olha para o mar encontra agora uma barreira de contenção de 500 metros, instalada pela Guardia Civil para impedir a chegada ilegal de mais migrantes pela costa. 

A medida vai ao encontro das promessas do representante do governo espanhol em Ceuta, Miguel Triano. “Foram tomadas medidas logo no primeiro minuto, por parte desta delegação” e ativados “todos os recursos do Estado para a enfrentar a clara violação da nossa integridade territorial”, declarou.

“Durante estes dias em Ceuta, tivemos quase 3.000 agentes para restabelecer a normalidade e vão ficar o tempo que for necessário. Em Ceuta, já há muito menos pessoas do que as que entraram”, assegurou

Ainda assim, à CNN Portugal, os habitantes espanhóis continuam a exigir o reforço do controlo fronteiriço e mais garantias de segurança.

“Se a polícia não for suficiente, venha o Exército. O que se passa é que não podemos estar aqui tranquilos e, em apenas uma hora, este lugar ser invadido por 60 mil pessoas. Não pode ser”, atira um popular.

O político espanhol de extrema-direita Alvise Pérez ergue uma bandeira de Espanha sob proteção policial, num protesto em Ceuta, no sábado, 1 de agosto de 2026. (Foto AP/Bernat Armangue)
Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Europa

Mais Europa