"Prefiro morrer aqui do que voltar atrás". Há marroquinos a resistir no sonho-pesadelo de Ceuta
Marroquinos sentam-se à beira da estrada e esperam por ajuda: "Durmo na floresta e há cinco dias que não como"
"Aqui não há comida, nem onde dormir. Não há nada": migrantes feridos e subnutridos abandonam Ceuta
Oposição espanhola acusa Sánchez de "tolerar" "ato de guerra" promovido por Marrocos
A falta de asilo obrigou muitos a dormir nas florestas à volta da cidade de Ceuta. Relatos de confrontos físicos e as lutas por comida multiplicam-se. A fome e a sede apoderam-se de quem resiste em Ceuta. Mais vale esta prisão improvisada do que voltar para Marrocos, dizem muitos dos que tentaram a sorte. Há agora uma centena de mortos a registar nesta crise migratória
Arriscaram tudo por trabalho, liberdade e uma vida melhor. Apesar do esforço, a única solução parece ser regressar a Marrocos. Perto de 73.500 migrantes, que entraram ilegalmente em Ceuta já o fizeram. Há um sentimento comum: o das esperanças completamente esmagadas.
Houve quem perdesse familiares e amigos na travessia. É o caso de Maroune, de 22 anos, que nadou vários quilómetros para chegar a território espanhol com o irmão Hatine, de 11 anos. Perdeu-o. Di-lo à CNN Portugal enquanto mostra um telemóvel estragado pela água - a sua única esperança para um contacto.
Mesmo com milhares a regressar a Marrocos, surgem relatos de quem tenta o polémico percurso contrário. “Prefiro morrer aqui do que voltar atrás”, assegura um homem de 42 anos à CNN Portugal. “Sou um homem instruído. Estas pessoas têm capacidades para trabalhar muito”, argumenta. Lembra que as tentativas falhadas de escapar a Marrocos “custam tempo” e dinheiro. “Cerca de 100 ou 150 euros. Tenho amigos que tentaram talvez 30 ou 40 vezes". As contas à desilusão não são difíceis de fazer.
A reação de Marrocos só chegou no final deste domingo, com o Ministério do Interior a atribuir culpas à desinformação nas redes sociais, às redes de tráfico humano e à interpretação errada de uma decisão espanhola que proíbe o regresso imediato de migrantes intercetados no mar. O ministério refere que cerca de 40 mil pessoas participaram na travessia para Ceuta, com 1.135 impedidas de entrar em Melilla.
O lado marroquino confirma 11 mortes, a maioria por afogamento, acrescentando estar a verificar os registos de mortes do outro lado da fronteira. Contas feitas, o balanço mortal estará agora perto de uma centena, dado que as autoridades espanholas atualizaram o balanço para 88 mortes durante o dia.
Fome, sede, maus tratos
Chegar não é fácil. Ficar também não. Os relatos de Ceuta fazem-se de fome, sede e até maus-tratos por parte das autoridades espanholas. Sem asilo, muitos são obrigados a dormir nas florestas à volta da cidade. É a luta pela sobrevivência, com lutas para garantir um pedaço de pão.
“Fecharam tudo para que não possamos comprar nada para comer, para nos obrigarem a regressar ao nosso país. Vamos ficar, quer tenhamos fome ou não”, promete Mohamed, marroquino de 23 anos, à Associated Press.
Um outro homem, de 43 anos, repete a ideia. Nadou quatro horas para chegar a Ceuta: "Não vou voltar para trás. Prefiro ficar aqui a tentar, mesmo que tenha de morrer". Nos areais, tudo ganha utilidade. Em especial o calçado abandonado ou perdido, para os pés que nada têm.
Três dias de pão e água para Brahim. Só resta regressar a Marrocos
Nem todos estão dispostos a tudo pela promessa de uma vida melhor a partir de Ceuta. O corpo não aguenta o desgaste, as palavras em espanhol sabem a ataque.
“Esperava conseguir ir para um abrigo aqui para poder ter alguma liberdade, para arranjar um emprego melhor”, conta um migrante à equipa da CNN Portugal no local. Para trás, tinha ficado um emprego com um salário que mal dava para pagar a renda e as despesas do dia-a-dia”. Quer voltar para Marrocos. Por Ceuta, "não há nada".
O sonho tornado pesadelo começou nas redes sociais. “Vimos vídeos no Facebook, no Instagram, de pessoas a tentarem vir para cá para imigrar”, lembra.
Foi o que também aconteceu a Brahim. Trabalhava numa padaria em Marrocos. "Viemos para evoluir, não para sermos enganados. Pensei que ia construir um futuro melhor aqui, mas fui surpreendido”. Três dias de pão e água, sem conseguir suportar os preços espanhóis.
Já Ouail tem a decisão tomada depois de dias com a barriga vazia: voltar para Marrocos. "Estive oito dias em Ceuta, prestes a conseguir uma cama no centro de acolhimento para migrantes, mas não comia há dias. Nem sequer os marroquinos que lá estavam me ajudaram".
Apesar de alguns cafés terem voltado a abrir portas, a população de Ceuta sente-se intimidada com a presença de migrantes numa larga escala. "Estamos completamente sobrecarregados e, ao mesmo tempo, impotentes. Estes jovens estão a ser completamente explorados. Estão a ser usados como moeda de troca”, conta o proprietário de um desses estabelecimetnos à Reuters.
"Se a polícia não for suficiente, venha o Exército"
Parecia que a calma tinha voltado a Ceuta no sábado. A noite mostrou o contrário: uma marcha organizada pelo grupo extremista Núcleo Nacional, em protesto contra aquilo que dizem ser um governo “traidor”.
Quem olha para o mar encontra agora uma barreira de contenção de 500 metros, instalada pela Guardia Civil para impedir a chegada ilegal de mais migrantes pela costa.
Hoy ha comenzado la instalación de las barreras de contención en el espigón del Tarajal (Ceuta), en un operativo conjunto de la Guardia Civil, la @Armada_esp y @salvamentogob Marítimo (Sasemar).
— Guardia Civil (@guardiacivil) August 1, 2026
✔️ El dispositivo consta de una barrera neumática de 500 metros, reforzada con una… pic.twitter.com/gRlBK2kk7D
A medida vai ao encontro das promessas do representante do governo espanhol em Ceuta, Miguel Triano. “Foram tomadas medidas logo no primeiro minuto, por parte desta delegação” e ativados “todos os recursos do Estado para a enfrentar a clara violação da nossa integridade territorial”, declarou.
“Durante estes dias em Ceuta, tivemos quase 3.000 agentes para restabelecer a normalidade e vão ficar o tempo que for necessário. Em Ceuta, já há muito menos pessoas do que as que entraram”, assegurou
Ainda assim, à CNN Portugal, os habitantes espanhóis continuam a exigir o reforço do controlo fronteiriço e mais garantias de segurança.
“Se a polícia não for suficiente, venha o Exército. O que se passa é que não podemos estar aqui tranquilos e, em apenas uma hora, este lugar ser invadido por 60 mil pessoas. Não pode ser”, atira um popular.
