Depois da crise migratória, uma rutura diplomática na União Europeia. O que se sabe sobre Ceuta

1 ago, 18:53
Migrantes em Ceuta (AP)
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Entrada ilegal de 60 mil marroquinos no território espanhol reacendeu a discussão sobre o controlo de fronteiras na Europa. Itália deu o primeiro passo, suspendendo o Espaço Schengen com Espanha. Outros países admitem reforçar a vigilância nos pontos fronteiriços - incluindo Portugal. Sucedem-se as reuniões de emergência para lidar com este caso

A travessia em massa de milhares de migrantes marroquinos para Ceuta esta quinta-feira está a abalar as relações no seio da União Europeia. Sem mãos a medir, com a entrada de 60 mil pessoas no exclave no norte de África, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez já veio criticar a reação “bastante assimétrica” dos colegas europeus.

O que esperar a seguir? Está prevista uma reunião de emergência com os ministros da Administração Interna dos 27 na terça-feira. É um agendamento que responde aos pedidos de 22 Estados-membros - numa lista onde não entra Portugal - para analisar a invasão do território espanhol. Ainda assim, o nosso país já veio demostrar o apoio à iniciativa para "tratar da grave crise migratória em Ceuta”, afirmou Luís Montenegro nas redes sociais.

Neste momento, cerca de 69.500 migrantes já abandonaram Ceuta em direção a Marrocos. Um resultado conseguido, segundo o presidente do governo espanhol, em coordenação com as autoridades marroquinas e com “muito pouco apoio de outros Estados membros”.

Apesar de demonstrações de apoio e solidariedade, Sánchez vinca que muitos colegas europeus optaram por atacar Espanha, exigindo a sua exclusão temporária do Espaço Schengen, que permite liberdade de circulação no território pertencente a este bloco.

Eleva-se assim o tom da discussão, até porque Ceuta não faz parte do Espaço Schengen.

Na sexta-feira multiplicaram-se os pedidos de reforço de controlo nas fronteiras por parte de vários líderes europeus, com Itália a confirmar a suspensão do Espaço Schengen com Espanha  - o que põe fim à livre circulação entre os dois países, apesar de não partilharem fronteira terrestre.

A Finlândia está alinhada com esta posição, embora o executivo de Giorgia Meloni tenha tomado a dianteira. Helsínquia acusa Espanha de falhar “completamente” no controlo fronteiriço. No mesmo sentido seguiram Dinamarca e Chéquia.

Migrantes tentam atravessar a fronteira entre Marrocos e o exclave espanhol de Ceuta (AP Photo/Antonio Sempere)

E Portugal?

Portugal é o principal vizinho de Espanha - e aquele que poderia mais sentir os efeitos de uma entrada descontrolada em território espanhol, dada a proximidade. Motivo para que o Chega de André Ventura viesse rapidamente pedir a suspensão das regras.

A resposta de Luís Montenegro não se fez tardar: rejeita este cenário, mas acena, ainda assim, com um reforço da vigilância nas fronteiras marítima e terrestre do sul de Portugal, neste que é um fim de semana de pressão adicional devido ao regresso de muitos emigrantes portugueses ás suas terras natais.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e o primeiro-ministro português, Luís Montenegro (Getty Images)

Cúpula europeia em alerta

Bruxelas está em alerta ao mais alto nível. Prova disso é a posição da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao reconhecer que “é necessário reforçar ainda mais” o já de si “sólido” sistema de controlo de fronteiras.

"Devemos permanecer alerta em todos os pontos de entrada críticos e manter uma estreita coordenação entre todas as autoridades", insistiu.

Von der Leyen é mais uma das responsáveis europeias no rodopio de reuniões criada pela crise migratória em Ceuta. Teve encontros por videochamada com o comissário europeu do Interior, Magnus Brunner, e a comissária para o Mediterrâneo, Dubravka Šuica, a quem encarregou de prestar apoio às autoridades espanholas e marroquinas para supervisionar a crise no exclave espanhol.

"A luta contra a migração ilegal requer solidariedade e uma resposta europeia unida", rematou Von der Leyen.

Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen (AP Photo/Marius Burgelman)

Silêncios  - e ecos americanos - à custa de Ceuta

Marrocos manteve, até ao momento, um silêncio total em relação a esta crise migratória. Quem aproveitou a oportunidade para comentar uma outra matéria foi Donald Trump: o presidente dos Estados Unidos reiterou este sábado a soberania de Marrocos sobre o Saara Ocidental, bem como o apoio à proposta de adotarem uma “autonomia séria, credível e realista” como única base para uma solução “justa e duradoura”.

Os laços bilaterais entre Madrid e Rabat são historicamente frágeis devido à posição espanhola sobre o Saara Ocidental, território que Marrocos considera ser seu. Pedro Sánchez apoiou, no entanto, o plano marroquino de autonomia para a região, em 2022.

A relação de Donald Trump com o primeiro-ministro espanhol dá novos sinais de tensão, dada as acusações de Washington a Madrid, de “facilitar a imigração ilegal em massa para a Europa”.

O Partido dos Socialistas Europeus (PSE) - a família política europeia a que pertence o partido no governo em Espanha - veio já condenar “os esforços concertados de desinformação - amplificados por atores nos Estados Unidos, em Israel e na extrema-direita europeia”.

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