Entrada ilegal de 60 mil marroquinos no território espanhol reacendeu a discussão sobre o controlo de fronteiras na Europa. Itália deu o primeiro passo, suspendendo o Espaço Schengen com Espanha. Outros países admitem reforçar a vigilância nos pontos fronteiriços - incluindo Portugal. Sucedem-se as reuniões de emergência para lidar com este caso
A travessia em massa de milhares de migrantes marroquinos para Ceuta esta quinta-feira está a abalar as relações no seio da União Europeia. Sem mãos a medir, com a entrada de 60 mil pessoas no exclave no norte de África, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez já veio criticar a reação “bastante assimétrica” dos colegas europeus.
O que esperar a seguir? Está prevista uma reunião de emergência com os ministros da Administração Interna dos 27 na terça-feira. É um agendamento que responde aos pedidos de 22 Estados-membros - numa lista onde não entra Portugal - para analisar a invasão do território espanhol. Ainda assim, o nosso país já veio demostrar o apoio à iniciativa para "tratar da grave crise migratória em Ceuta”, afirmou Luís Montenegro nas redes sociais.
Neste momento, cerca de 69.500 migrantes já abandonaram Ceuta em direção a Marrocos. Um resultado conseguido, segundo o presidente do governo espanhol, em coordenação com as autoridades marroquinas e com “muito pouco apoio de outros Estados membros”.
Apesar de demonstrações de apoio e solidariedade, Sánchez vinca que muitos colegas europeus optaram por atacar Espanha, exigindo a sua exclusão temporária do Espaço Schengen, que permite liberdade de circulação no território pertencente a este bloco.
Eleva-se assim o tom da discussão, até porque Ceuta não faz parte do Espaço Schengen.
Na sexta-feira multiplicaram-se os pedidos de reforço de controlo nas fronteiras por parte de vários líderes europeus, com Itália a confirmar a suspensão do Espaço Schengen com Espanha - o que põe fim à livre circulação entre os dois países, apesar de não partilharem fronteira terrestre.
A Finlândia está alinhada com esta posição, embora o executivo de Giorgia Meloni tenha tomado a dianteira. Helsínquia acusa Espanha de falhar “completamente” no controlo fronteiriço. No mesmo sentido seguiram Dinamarca e Chéquia.
E Portugal?
Portugal é o principal vizinho de Espanha - e aquele que poderia mais sentir os efeitos de uma entrada descontrolada em território espanhol, dada a proximidade. Motivo para que o Chega de André Ventura viesse rapidamente pedir a suspensão das regras.
A resposta de Luís Montenegro não se fez tardar: rejeita este cenário, mas acena, ainda assim, com um reforço da vigilância nas fronteiras marítima e terrestre do sul de Portugal, neste que é um fim de semana de pressão adicional devido ao regresso de muitos emigrantes portugueses ás suas terras natais.
Cúpula europeia em alerta
Bruxelas está em alerta ao mais alto nível. Prova disso é a posição da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao reconhecer que “é necessário reforçar ainda mais” o já de si “sólido” sistema de controlo de fronteiras.
"Devemos permanecer alerta em todos os pontos de entrada críticos e manter uma estreita coordenação entre todas as autoridades", insistiu.
Von der Leyen é mais uma das responsáveis europeias no rodopio de reuniões criada pela crise migratória em Ceuta. Teve encontros por videochamada com o comissário europeu do Interior, Magnus Brunner, e a comissária para o Mediterrâneo, Dubravka Šuica, a quem encarregou de prestar apoio às autoridades espanholas e marroquinas para supervisionar a crise no exclave espanhol.
"A luta contra a migração ilegal requer solidariedade e uma resposta europeia unida", rematou Von der Leyen.
Silêncios - e ecos americanos - à custa de Ceuta
Marrocos manteve, até ao momento, um silêncio total em relação a esta crise migratória. Quem aproveitou a oportunidade para comentar uma outra matéria foi Donald Trump: o presidente dos Estados Unidos reiterou este sábado a soberania de Marrocos sobre o Saara Ocidental, bem como o apoio à proposta de adotarem uma “autonomia séria, credível e realista” como única base para uma solução “justa e duradoura”.
Os laços bilaterais entre Madrid e Rabat são historicamente frágeis devido à posição espanhola sobre o Saara Ocidental, território que Marrocos considera ser seu. Pedro Sánchez apoiou, no entanto, o plano marroquino de autonomia para a região, em 2022.
A relação de Donald Trump com o primeiro-ministro espanhol dá novos sinais de tensão, dada as acusações de Washington a Madrid, de “facilitar a imigração ilegal em massa para a Europa”.
O Partido dos Socialistas Europeus (PSE) - a família política europeia a que pertence o partido no governo em Espanha - veio já condenar “os esforços concertados de desinformação - amplificados por atores nos Estados Unidos, em Israel e na extrema-direita europeia”.
