A Rússia usa há anos a imigração como instrumento de guerra híbrida e as redes sociais para acentuar divisões nas democracias europeias. Isso, para Jorge Silva Carvalho, antigo diretor do SIED, “não é discutível”. Outra coisa é concluir que Moscovo provocou a entrada em massa de migrantes em Ceuta — ou colocar Israel no mesmo plano. Numa análise às acusações de Pedro Sánchez, o ex-responsável dos serviços de informações explica como funcionam estas campanhas, por que continuam eficazes e onde procuram ferir: “O que interessa é potenciar os extremos”
Pedro Sánchez colocou Rússia, Israel e a extrema-direita internacional dentro da mesma explicação para a crise de Ceuta, mas escolheu cuidadosamente as palavras.
Não atribuiu a Moscovo ou ao governo israelita a organização da entrada de dezenas de milhares de migrantes no enclave. Falou antes daquilo que aconteceu depois, quando a fronteira já estava sob pressão e as imagens corriam pelas redes sociais. “Depois de 30 e 31 de julho, espalharam-se rumores e desinformação nas redes sociais ligados à Rússia e a Israel, e a uma extrema-direita internacional que usa sempre a migração para atacar Espanha e a Europa e dividi-la”, afirmou o primeiro-ministro espanhol, acrescentando que aqueles países teriam razões para explorar a crise por causa das posições de Madrid em relação à Ucrânia e a Gaza.
Sobre Marrocos, cuja fronteira separa Ceuta do restante território africano, foi muito menos ambíguo. Perante as suspeitas de participação das autoridades marroquinas, Sánchez afastou-as por completo: “Nego-o categoricamente.”
Jorge Silva Carvalho detém-se precisamente na diferença entre estas duas partes da declaração. Antigo diretor-geral do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, passou também pelo Serviço de Informações de Segurança e trabalhou durante anos em matérias de contraespionagem e segurança internacional. Quando se lhe pergunta se Sánchez acusou Rússia e Israel de estarem por trás da crise, começa por estreitar o significado das palavras do chefe do governo espanhol. “Ele não disse isso. É suficientemente videirinho para não dizer isso”, observa. E explica o que quer dizer com a expressão: “É uma declaração típica de Pedro Sánchez. Nunca diz nada de muito contundente, mas também nunca assume nada de muito frontal. Tem aquele estilo de deixar cair as coisas.”
O problema, para Silva Carvalho, não está em Sánchez falar de interferência russa. Moscovo possui um historial documentado de operações de influência no estrangeiro — e a exploração da imigração, tanto no terreno como no espaço informacional, tornou-se uma das ferramentas associadas à chamada guerra híbrida. “Em relação à Rússia, Sánchez não tem de provar grande coisa, porque tem razão. A Rússia utiliza a imigração como arma híbrida há muito tempo”, começa por estabelecer Silva Carvalho.
Os próprios serviços espanhóis, acrescenta, “estão fartos de fazer relatórios, inclusive a própria polícia”. E sublinha que não se trata apenas de uma leitura política de Madrid: “Existem em Espanha situações comprovadas de ações de desinformação ligadas a entidades russas e isso está mais do que provado em termos europeus, pelos organismos da União Europeia.” Nesta parte da intervenção de Sánchez, é taxativo: “Essa parte não é discutível.”
Isso não significa que Moscovo tenha criado aquilo que aconteceu em Ceuta. Significa que existem uma infraestrutura, um método e um interesse conhecidos em pegar numa matéria explosiva dentro das democracias europeias e fazê-la arder mais. “A Rússia utiliza a imigração para fomentar discórdia na União Europeia e nos países democráticos da União Europeia”, prossegue Silva Carvalho. “Quer promovendo a própria imigração ilegal, como acontece, por exemplo, na fronteira da Bielorrússia com a Polónia, quer alimentando ao mesmo tempo a comunicação através de trolls, de bots e das várias métricas das redes sociais.”
A fronteira entre a Bielorrússia e a Polónia tornou-se, nos últimos anos, um dos exemplos mais claros da instrumentalização de migrantes como forma de pressão política sobre a União Europeia. Bruxelas acusou o regime de Alexander Lukashenko, aliado de Moscovo, de facilitar a chegada de pessoas ao território bielorrusso e encaminhá-las para as fronteiras europeias.
No espaço digital, as campanhas russas seguiram muitas vezes uma lógica semelhante: não precisam de fabricar uma divisão quando já existe uma que pode ser ampliada.
A imigração é particularmente útil porque atravessa algumas das principais linhas de fratura da política europeia, da segurança à identidade, da integração ao controlo das fronteiras, e permite alimentar discursos que partem de lugares políticos opostos. Jorge Silva Carvalho descreve essa utilidade sem a reduzir à ideia de uma campanha destinada a convencer alguém a gostar da Rússia. O objetivo é aumentar a tensão. “Cria-se na Europa, por um lado, um sentimento de tensão em relação à imigração, normalmente mais procurado pela extrema-direita, e, por outro, um sentimento de acolhimento e de mobilização ligado à extrema-esquerda. Depois tudo se mistura. O que interessa é potenciar os extremos.”
Ceuta, porém, obriga a recuar algumas horas e alguns dias antes de chegar à Rússia. A mobilização de migrantes começou a ser visível nas redes sociais antes do auge da crise. Em grupos de Facebook utilizados em Marrocos circulavam mensagens sobre a possibilidade de entrar em território espanhol. Algumas dessas conversas passaram depois para grupos de WhatsApp, onde a informação se tornava mais operacional. Pelo meio, espalhou-se uma leitura enganadora de uma decisão do Supremo espanhol, apresentada como se impedisse a devolução de quem conseguisse chegar a Ceuta.
A promessa era suficientemente simples para viajar depressa: quem atravessasse teria uma oportunidade de ficar. Quando as primeiras pessoas conseguiram entrar e começaram a publicar vídeos, o rumor deixou de parecer apenas um rumor. Tinha imagens.
É neste ponto que Silva Carvalho estabelece uma diferença essencial para compreender o caso: uma campanha de influência pode ajudar a criar a perceção de que existe uma oportunidade e amplificá-la, mas daí não resulta que tenha organizado as condições materiais necessárias para dezenas de milhares de pessoas chegarem ao mesmo lugar. “É verdade que estas campanhas criam um caldo de cultura, mas não têm ali um efeito absolutamente direto. Não foi a Rússia que os transportou de camião, não foi a Rússia que os mandou atravessar, não foi a Rússia que lhes deu os meios nem lhes disse a que horas é que iam passar ou que deviam passar.”
É também por isso que olha com desconfiança para a ausência de Marrocos na explicação de Pedro Sánchez. Mais de 70 mil pessoas terão tentado entrar em Ceuta num espaço de dois dias. Para o antigo diretor do SIED, uma mobilização daquela dimensão não pode ser analisada apenas a partir dos telefones de quem recebeu uma mensagem ou viu um vídeo. “Há provas objetivas de que houve conivência das autoridades marroquinas, ou pelo menos de grupos que só operam porque as autoridades marroquinas assim o permitem. Não é possível transportar aquela gente toda de uma forma não organizada”, sustenta, antes de fazer uma ressalva política que considera legítima. “Eu até percebo que Sánchez queira ignorar a responsabilização de Marrocos. Um presidente do governo pode optar por não hostilizar um país, mesmo quando esse país o está a pressionar. Não contesto isso. O que contesto é escolher depois culpados e dar responsabilidades a outras entidades.”
A suspeita não aparece num vazio. Em maio de 2021, durante uma grave crise diplomática entre Madrid e Rabat, cerca de nove mil pessoas entraram em Ceuta depois de o controlo marroquino da fronteira praticamente desaparecer durante várias horas. Espanha tinha acolhido para tratamento hospitalar Brahim Ghali, líder da Frente Polisário, inimiga de Marrocos na disputa pelo Saara Ocidental. Rabat reagiu duramente à decisão e o Parlamento Europeu acabaria por condenar o uso da migração como instrumento de pressão sobre Espanha.
Jorge Silva Carvalho recupera esse precedente, junta-lhe as reivindicações marroquinas sobre Ceuta e Melilha e recorda ainda a ocupação da ilha de Perejil por militares marroquinos em 2002. Não apresenta essa sequência como prova automática do que aconteceu agora, mas como um elemento que, num trabalho de informações, impediria que a hipótese marroquina fosse simplesmente retirada da mesa. “Se temos vários factos, vários casos protagonizados pela mesma entidade, à partida parece plausível que o terceiro ou o quarto caso tenha pelo menos o dedo ou o imprimatur dessa entidade. E, ao mesmo tempo, Marrocos mantém posições políticas de reivindicação sobre Ceuta e Melilha. Isto dá estrutura a uma coisa que Pedro Sánchez quer omitir.”
É quando a conversa chega a Israel que a distância entre Silva Carvalho e Sánchez se torna maior. O primeiro-ministro espanhol aproximou redes ligadas a Israel das estruturas russas que terão amplificado a crise. O antigo responsável pelas informações externas portuguesas considera que a comparação coloca no mesmo plano fenómenos que exigem provas diferentes. “Enquanto a Rússia tem isto como política, como guerra híbrida, como política oficial de desinformação, Israel não tem nem nunca teve”, defende. “O que Israel tem, quando muito, é uma política pública de defesa do Estado de Israel. Isso não quer dizer que não exista uma reação orgânica de pessoas e entidades, mas não significa que Israel esteja a fazer uma campanha organizada, sobretudo nunca comparando com aquilo que é a campanha organizada da Rússia.”
Existem antecedentes de empresas israelitas envolvidas em campanhas privadas de influência, assim como redes digitais e grupos políticos fortemente alinhados com Israel. Durante a própria crise de Ceuta, responsáveis israelitas e contas pró-Israel aproveitaram o episódio para atacar Pedro Sánchez e recuperar a questão dos enclaves espanhóis em África. Nada disso, por si só, permite atribuir a operação ao Estado israelita.
É precisamente esse salto que Silva Carvalho recusa. “O que Sánchez não tem, e eu tenho a certeza de que não tem, são provas de que Israel paga uma política de desinformação como a Rússia paga e constrói. Pode haver pessoas, entidades, grupos que não gostam de progressistas, que não gostam da política de imigração de Espanha e que reagem. Isso é diferente de uma campanha organizada por um Estado.”
A relação entre Madrid e Jerusalém não precisa, de resto, de ser descoberta através de contas falsas. Está à vista. Sánchez tornou-se uma das vozes europeias mais críticas da ofensiva israelita em Gaza, avançou com o reconhecimento do Estado da Palestina e tem procurado endurecer a posição europeia em relação ao governo de Benjamin Netanyahu. A resposta israelita também tem sido pública. Gideon Sa’ar, ministro dos Negócios Estrangeiros, classificou agora a acusação espanhola como uma “mentira descarada”. E Netanyahu já atacou diretamente Sánchez em ocasiões anteriores.
Silva Carvalho resume essa diferença numa comparação direta: “É Netanyahu que o diz, não é Putin. O governo israelita, quer o ministro dos Negócios Estrangeiros, quer o primeiro-ministro, já disse claramente tudo aquilo que pensa sobre Sánchez. Não é preciso nenhuma campanha de desinformação.”
Também por isso aceita que Israel possa ter um interesse político direto em responder a Espanha, mas considera mais frágil a ideia de que Moscovo tenha escolhido Madrid por causa do apoio espanhol à Ucrânia. “Espanha é provavelmente o 14.º ou o 15.º país de relevo no apoio à Ucrânia. Putin tem os polacos, os Bálticos, os Nórdicos, que apoiam 20 vezes mais. Tem a Alemanha, a França, o Reino Unido, a Roménia. Escolha. Qualquer deles é muito mais importante para a Rússia do que Espanha.”
Isso não exclui que redes russas aproveitem uma crise espanhola. O ponto de Jorge Silva Carvalho é outro: Espanha não precisa de ser um alvo prioritário de Moscovo para que aquilo que acontece no país tenha utilidade numa campanha de influência. Uma crise migratória pode ser explorada para acentuar divisões que já existem na Europa, alimentar a desconfiança nas instituições ou reforçar a ideia de que os governos perderam o controlo das fronteiras.
Essa transformação tornou-se mais fácil porque já não depende exclusivamente de estruturas controladas por Estados. Uma rede organizada pode lançar ou amplificar um conteúdo, mas rapidamente entram no circuito utilizadores comuns, ativistas, páginas políticas, influenciadores e algoritmos que premiam aquilo que provoca reação. Ao fim de algumas horas, uma mensagem originalmente manipulada pode estar a ser difundida por milhares de pessoas que nada têm que ver com quem a produziu.
É nesse ponto que Jorge Silva Carvalho introduz dois conceitos para descrever a sociedade informacional atual: a “equivocidade”, provocada pelo excesso de informação e pela existência permanente de versões contraditórias, e a “assimilação ubíqua”, a exposição praticamente contínua a novos dados através dos telemóveis e das redes sociais. “Temos um excesso de informação e essa informação é muitas vezes conflituante, o que faz com que as pessoas tenham muita dificuldade em apurar a verdade por elas próprias”, explica Silva Carvalho. A esse excesso junta-se uma exposição praticamente contínua. “Estamos constantemente em contacto com informação. Abrimos o telemóvel e recebemos informação, recebemos pelas redes sociais, recebemos a toda a hora.” O resultado, conclui, é uma dificuldade crescente em fazer aquilo que parece mais elementar: “Comparar coisas e formular uma opinião.”
A resposta a esse excesso, argumenta, é muitas vezes procurar informação que confirme aquilo em que já se acredita.
Para explicar o mecanismo, Silva Carvalho abandona por momentos as operações russas e vai buscar o futebol. “Eu sou benfiquista. Não tenho tempo para ler tudo sobre futebol, mas, como aquilo para mim é uma espécie de hobby, vou ver as coisas que dizem bem do Benfica. Aqueles tipos que estão irritados, a dizer mal do Benfica, a dizer que o Benfica não joga nada, não vou ver. E isto acontece muito hoje em dia na formação da opinião política.”
Não é apenas uma questão de preguiça ou falta de informação. É também uma forma de defesa perante um volume de conteúdos impossível de verificar individualmente. Em vez de reconstruir os factos a cada nova polémica, escolhem-se fontes, pessoas e versões compatíveis com convicções anteriores. “A informação passa a servir para validar as nossas próprias perceções prévias”, sintetiza.
É nesse ambiente que uma campanha de influência pode ser eficaz sem convencer ninguém de uma ideologia completamente diferente. Não precisa de transformar alguém de esquerda em eleitor da direita radical, nem de converter um conservador num admirador de Moscovo. Pode limitar-se a endurecer posições que já existem, oferecendo a cada grupo aquilo que mais facilmente confirma os seus medos ou a sua indignação. Silva Carvalho exemplifica com o poder das imagens violentas, precisamente porque são absorvidas antes de existir tempo para lhes verificar a origem. “A desinformação russa muitas vezes passa por criar um filme no YouTube em que só se põe uma parte. Vê-se uma rapariga branca a ser violada, um espanhol a ser agredido por dois árabes, um judeu ou uma judia a bater em palestinianos. Esse tipo de informação, essa violência visual, fica logo queimada na memória das pessoas, mesmo quando elas não têm a noção de que ficaram com essa memória.”
O vídeo pode ser verdadeiro e estar descontextualizado, ser antigo e reaparecer como atual, ter sido gravado noutro país ou simplesmente ser falso. O primeiro impacto, porém, não depende de nenhuma dessas verificações. Depende da imagem e da predisposição de quem a recebe.
Quase dez anos depois de a interferência russa nas eleições norte-americanas de 2016 ter tornado este tipo de operações conhecido do grande público, Estados, serviços de informações e plataformas estão mais atentos, mas Jorge Silva Carvalho não considera que o instrumento tenha perdido utilidade. Mudou o efeito. “Não terá a força que teve no passado, mas tem a força da criação do caldo de cultura.”
E o resultado procurado não é necessariamente uma vitória eleitoral concreta ou a adesão a uma determinada política externa. No caso russo, sustenta, a utilidade está em enfraquecer o espaço político onde ainda é possível chegar a compromissos. “Aquilo a que se dá atenção é à radicalização. A perspetiva é partir o processo de tomada de decisão racional por parte do eleitor, radicalizar, beneficiar os movimentos mais radicais e populistas, que têm um discurso muito mais de emoções.”
É nesse contexto que aponta para o Brexit e para a Alemanha, onde as relações de dirigentes da AfD com a Rússia têm sido objeto de escrutínio, e lembra que Moscovo pode apoiar grupos com posições até contraditórias desde que contribuam para aumentar a distância entre campos políticos. “A Rússia faz outras coisas juntamente com a desinformação. Paga e subsidia, através de diferentes entidades, grupos e grupúsculos que têm opiniões divergentes para criar essas tensões, porque sabe que isso vai enfraquecer o espectro político dos vários países.”
É também por essa lógica que volta à palavra com que começara a caracterizar Sánchez: “Videirinho”. Na sua leitura, o primeiro-ministro espanhol colocou lado a lado elementos com graus de prova diferentes: um historial russo de desinformação que considera “indiscutível”, uma ligação israelita que entende “não estar demonstrada” e uma ausência, Marrocos, que considera “politicamente conveniente”. “Você vai pegar numa coisa que é claramente verdade, numa coisa que é uma deturpação e noutra que é uma omissão. Tecnicamente, aquilo que ele constrói é uma falácia.”
Jorge Silva Carvalho aproxima essa construção do conceito de malinformation, usado para descrever situações em que informação verdadeira é apresentada ou enquadrada de forma a induzir uma perceção enganadora. No caso de Ceuta, insiste que é necessário “separar o que está documentado do que permanece por demonstrar”. A existência de desinformação e a sua amplificação nas redes, argumenta, “não respondem por si só à questão de saber quem criou as condições para a chegada de dezenas de milhares de pessoas à fronteira”. E acrescenta: “Também não permitem atribuir automaticamente essas campanhas aos Estados a que algumas das redes são associadas.”
