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Os cientistas descobriram um impacto ambiental alarmante dos grandes centros de dados

CNN , Laura Paddison
26 abr, 11:00
Ventilação no telhado de um centro de dados da Digital Realty em Ashburn, Virgínia, EUA (Andrew Caballero-Reynolds/ Getty Images)

A expansão dos centros de dados "poderá ter impactos dramáticos na sociedade" em termos de ambiente, bem-estar das pessoas e economia, alertam os investigadores

Os grandes centros de dados que alimentam a inteligência artificial (IA) consomem enormes quantidades de energia, mas também têm outro impacto alarmante, de acordo com uma nova investigação. Estão a criar "ilhas de calor", aquecendo a terra à sua volta até 8,9 graus Celsius e tornando a vida mais quente para mais de 340 milhões de pessoas.

Ainda há grandes lacunas na compreensão dos impactos dos centros de dados, mas o seu número continua a aumentar, diz Andrea Marinoni, professor associado do grupo de Observação da Terra da Universidade de Cambridge e um dos autores do estudo, que ainda não foi revisto por pares.

Marinoni e os seus colegas decidiram investigar um impacto pouco estudado: o calor que estes centros libertam através de processos que consomem muita energia, incluindo a computação e a alimentação dos sistemas de refrigeração.

Para o fazer, analisaram os dados de temperatura dos últimos 20 anos provenientes de sensores remotos e compararam-nos com as localizações dos "hiperescaladores" de IA - vastos centros de dados que albergam milhares de servidores e podem ter mais de um milhão de metros quadrados, que foram construídos, na sua maioria, na última década.

Concentraram-se em mais de 6.000 centros de dados localizados longe de áreas urbanas muito densas, uma vez que as temperaturas à superfície à volta destes centros eram menos susceptíveis de terem sido afetadas por outros fatores, como a existência de indústrias ou o aquecimento das casas. Os investigadores também filtraram os impactos sazonais, as tendências do aquecimento global e outras influências. 

No final, descobriram que as temperaturas à superfície aumentaram em média 2ºC depois de um centro de dados ter começado a funcionar.

Em casos extremos, as temperaturas próximas aumentam até 9,1ºC. Estes aumentos foram consistentes em todo o mundo, segundo os investigadores. Na região de Bajio, no México, por exemplo, que se tornou um complexo de centros de dados, o estudo encontrou aumentos de temperatura inexplicáveis de cerca de 2ºC nos últimos 20 anos. Uma situação semelhante foi observada em Aragão, Espanha, região onde existem vários centros de dados de IA em hiperescala, que registou um aumento de temperatura de 2ºC que não foi replicado nas províncias vizinhas.

Surpreendentemente, os impactos não se limitaram às imediações de um centro de dados; os aumentos de temperatura afetaram áreas até 100 quilómetros de distância, segundo a investigação, afetando mais de 340 milhões de pessoas.

As descobertas são particularmente alarmantes, dizem os cientistas, porque os centros de dados de IA vão continuar a crescer nos próximos anos e estes aumentos de temperatura surgem numa altura em que a poluição que aquece o planeta já está a criar ondas de calor mais extremas em todo o mundo.

A expansão planeada dos centros de dados "poderá ter impactos dramáticos na sociedade" em termos de ambiente, bem-estar das pessoas e economia, alerta Marinoni.

Deborah Andrews, professora emérita de design para a sustentabilidade e circularidade na London South Bank University, que não esteve envolvida na investigação, confirma que existem muitas preocupações sobre os impactos dos centros de dados, mas este foi o primeiro artigo que viu centrado no calor que produzem.

"A 'corrida ao ouro da IA' parece estar a sobrepor-se às boas práticas e ao pensamento sistémico", afirma, "e está a desenvolver-se muito mais rapidamente do que quaisquer sistemas mais amplos e sustentáveis".

Outros peritos afirmam que é necessária mais investigação para verificar os resultados. O estudo apresenta "alguns números interessantes", mas os efeitos relatados "parecem muito elevados", diz Ralph Hintemann, investigador principal do Borderstep Institute for Innovation and Sustainability. "No que diz respeito às alterações climáticas, as emissões geradas pela produção de eletricidade para os centros de dados continuam a ser o aspeto mais alarmante", acrescenta.

Marinoni pretende que a investigação suscite mais debates sobre a forma de reduzir os impactos da IA. "Talvez ainda haja tempo para considerar a possibilidade de um caminho diferente... sem afetar a procura de IA e a sua capacidade de proporcionar progresso à humanidade.”

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