Trata-se do caso do homicídio de duas mulheres no Centro Ismaili
O julgamento do homem que a 28 de março de 2023 matou duas mulheres no Centro Ismaili começou esta quinta-feira no Tribunal Central Criminal de Lisboa, mas foi interrompido assim que o arguido se sentou no banco dos réus.
Acompanhado de um intérprete, o arguido Abdul Bashir, de nacionalidade afegã, sentou-se no banco dos réus e explicou como e onde esfaqueou as duas mulheres.
Na primeira fila, o intérprete nomeado pelo tribunal - que acompanha Bashir desde o interrogatório e que, segundo foi explicado, conhecia e trabalhava com as vítimas - cobriu a cara com as mãos e desatou a chorar sem se conseguir controlar, levando a que o julgamento fosse interrompido durante dez minutos.
A audição foi retomada pouco depois, com o arguido - acusado de 11 crimes - a alegar que agiu depois de uma delas o ter esfaqueado e que várias pessoas do centro tinham um plano para o matar.
"Eu sinto me muito mal mas antes de serem mortos, tentaram acabar com a minha vida. Eles tinham direito a uma vida digna mas eu também tinha direito a dignidade. Faço sempre uma pergunta porque tentaram acabar com a minha vida?! Neste momento que estou aqui eles também tiveram intenção de acabar com a minha vida", afirmou Bashir perante o tribunal.
Segundo o Ministério Público (MP), o arguido está acusado de dois crimes de homicídio agravado, seis crimes de homicídio agravado na forma tentada, dois crimes de resistência e coação sobre funcionário e um crime de posse de arma proibida.
O acusado foi beneficiário do estatuto de proteção internacional enquanto refugiado e, de acordo com informação do MP, ficou, após os crimes, a cumprir a medida de coação de internamento preventivo no hospital psiquiátrico prisional de Caxias por sofrer de doença mental.
"O arguido padecia, à altura dos factos, e ainda padece de anomalia psíquica, desde logo um quadro psiquiátrico de esquizofrenia e de uma perturbação da personalidade mista, designadamente perturbação de personalidade narcisista e perturbação de personalidade antissocial, pelo que foi requerida a declaração da inimputabilidade", indicou a nota do Departamento Central de Investigação e Ação Penal divulgada em março deste ano.
No ataque perpetrado no Centro Ismaili, em Lisboa, o acusado matou duas mulheres com uma arma branca, tendo sido baleado pela polícia e levado nesse dia para o Hospital de São José, em Lisboa.
As vítimas mortais são duas portuguesas, de 24 e 49 anos, que trabalhavam no Centro Ismaili nos serviços de apoio aos refugiados.
A família de Abdul Bashir chegou a Portugal vinda da Grécia no final de 2021, com os três filhos. Viviam em Odivelas e recebiam apoio e formação no Centro Ismaili, que ajuda a comunidade de refugiados em Portugal.
No dia seguinte à ocorrência do crime, o diretor nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves, afirmou, num encontro com jornalistas, não existir "um único indício" de que o sucedido tenha sido um ato terrorista, admitindo que o ataque tenha resultado de "um surto psicótico do agressor".