"Um desastre radioativo". Como a central nuclear de Zaporizhzhia se pode tornar em Fukushima 2.0

26 ago, 22:00
Central nuclear de Zaporizhzhia na Ucrânia junto ao rio Dnipro GettyImages

Situação tem vindo a complicar-se nos últimos dias e, na quinta-feira, a Europa esteve a um passo “de um desastre radioativo”. Como se pode evitar uma catástrofe?

Por momentos, a maior central nuclear da Europa foi separada da rede elétrica ucraniana, deixando várias cidades na região sem eletricidade e os reatores em risco de não serem refrigerados, depois de um incêndio, alegadamente causado por uma explosão, ter destruído a última linha de transmissão. A situação foi restabelecida na tarde desta sexta-feira, mas levantou, uma vez mais, sérias questões acerca da segurança de Zaporizhzhia.

“Se o arrefecimento do reator for interrompido, ficamos numa situação perigosa parecida com o que aconteceu no desastre nuclear de Fukushima. No entanto, é preciso dizer que, mesmo que as coisas corressem muito mal em Zaporizhzhia, não se esperaria uma situação tão trágica e perigosa como a de Chernobyl”, explica à CNN Portugal Pedro Ferreira, especialista em energia nuclear e professor universitário no ISEL.

Uma central nuclear precisa de ter uma circulação de água constante no interior do seu reator nuclear de forma a ser arrefecida. Se os reatores estiverem em funcionamento, a energia elétrica necessária para manter as bombas de água a trabalhar vem da própria central. No entanto, se os reatores estiverem desligados, é necessário extrair a energia da rede elétrica. Caso a rede elétrica esteja desligada, como aconteceu em Zaporizhzhia, a energia elétrica é gerada através do sistema de segurança, com recurso a geradores a diesel.

“O que aconteceu foi que, durante várias horas, a eletricidade necessária para fazer as bombas funcionar foi cortada, obrigando os geradores a funcionar. É uma situação bastante perigosa e indesejável. Estes reatores precisam de combustível e podem também acabar por ficar danificados”, garante o especialista, que acrescenta que os reatores não parecem estar danificados e foram desligados num processo normal, pelo que a sua reativação, à partida, não teria riscos.

Recorde-se que nos últimos dias, tanto o lado ucraniano como o lado russo têm trocado acusações sobre a autoria de disparos de artilharia nas imediações da central nuclear, correndo o risco de criar um incidente catastrófico. A situação já levou as Nações Unidas e os líderes de vários países a apelar à Rússia para deixar os técnicos da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) inspecionarem a central.

Istambul: um modelo a seguir?

“O corte de energia desta central nuclear pode não só minar a refrigeração dos reatores nucleares, mas também a segurança das suas estruturas e das áreas circundantes. Por isso, esta situação tem de ser tratada num quadro diferenciador daquilo que é o conflito militar”, considera a comentadora da CNN Portugal Sónia Sénica.

A especialista defende uma solução semelhante à alcançada pela comunidade internacional na iniciativa de Istambul, que resultou num salvo conduto para os navios cargueiros que transportam os cereais ucranianos para fora do país. “Parece-me relevante tratar desta questão da central através da intervenção de peritos internacionais”, acrescenta.

Na quinta-feira, a situação atingiu o limite. Nunca a energia da central nuclear tinha sido cortada. E o que aconteceu foi o tema principal do discurso da noite de Volodymyr Zelensky, que sublinhou que os geradores de emergência da central de Energodar preveniram uma calamidade radioativa.

“Hoje, pela primeira vez na história, a central nuclear de Zaporizhzhia parou. O sistema de emergência das unidades de energia funcionou, depois da última linha de transmissão de energia da central ligada ao sistema de energia ucraniano ter sido danificada pelo bombardeamento russo”, disse Zelensky.

“Os geradores a diesel foram imediatamente ativados para fornecer energia à própria central, para apoiá-la após ter sido desligada”, continuou Zelensky. “O mundo deve entender que ameaça é esta: se os geradores a diesel não tivessem sido acionados, se a automação e o nosso pessoal da central não tivessem reagido após o apagão, então seríamos obrigados a superar as consequências de um acidente radioativo. A Rússia colocou a Ucrânia e todos os europeus numa situação a um passo de um desastre radioativo.”

O que pode a AIEA fazer?

De acordo com Jon Wofsthal, antigo diretor de controlo de armamento durante a administração de Barack Obama, a agência “pode avaliar a segurança da central” e determinar “se houve ou não algum dano à contenção do reator”.

“A agência pode determinar se os sistemas de segurança de backup estão a funcionar. Eles podem dar garantias aos ucranianos e aos russos e à população próxima e ao resto da Europa, de que ainda existem vários sistemas de backup em vigor ou alertar o mundo se esses sistemas não estiverem bem instalados”, explica em declarações ao jornal Washington Post.

Sónia Sénica acrescenta que o papel da AIEA pode ir muito além da verificação e monitorização, mas também na estabilização da situação, com o objetivo de conseguir desmilitarizar a região, numa altura em que surgem vários registos que dão conta de que as instalações estão a ser utilizadas como “escudo militar” por parte da Federação Russa.

“Ao contrário do que tinha sido dito inicialmente, pode ter existido aqui uma certa instrumentalização do nuclear por parte dos lados beligerantes. É inegável que a capacidade de produção de eletricidade pertence à Ucrânia", aponta a investigadora em relações internacionais.

Desmilitarização “impensável”

O autarca de Energodar disse que a cidade está “à beira de um desastre humanitário”, depois de vários dias de bombardeamentos terem deixado a localidade sem água e eletricidade. O líder da estrutura civil instalada pela Rússia na cidade culpa a Ucrânia pelos bombardeamentos, apontando para as explosões como a causa “do apagão na região de Zaporizhzhia”.

Os Estados Unidos da América pedem para que as forças militares russas instaladas no interior das instalações saiam da central nuclear, criando uma zona desmilitarizada que permita a inspeção da central por parte dos peritos da AIEA.

Sérgio Vieira da Silva, especialista em relações internacionais e professor da Universidade Lusófona, considera que pedir à Rússia para abandonar o território da central “é impensável”.

“Há o mundo da realidade e o mundo das convicções. O que estão a fazer é pedir à Rússia que perca um trunfo estratégico. Não faz sentido. Talvez venha a ser utilizada pela Rússia como um trunfo, no futuro, para pressionar a uma melhor negociação”, defende.

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