A central nuclear de Almaraz vai continuar a operar até 2030. O anúncio foi feito pelo MITECO (Ministerio para la Transición Ecológica y el Reto Demográfico) após um ano de negociações com as três proprietárias da central: Endesa, Naturgy e Iberdrola. Depois da luz verde do Consejo de Seguridad Nuclear (regulador nuclear Espanhol) em Junho, a decisão final estava nas mãos do governo de Pedro Sanchéz, que agora invoca a segurança de abastecimento e o conflito no médio oriente como as razões para o prolongamento da operação.
Há muito que alguns grupos de cidadãos e de ecologistas pro-nucleares tentam salvar Almaraz. Do ponto de vista social, a própria Iberdrola afirma que a central é responsável por mais de 4000 empregos diretos e fonte de 7% da eletricidade gerada no país vizinho. Do ponto de vista ambiental, encerrar centrais nucleares normalmente resulta em que sejam substituídas por combustíveis fósseis, como é o caso de Nova Iorque e o caso Alemão. A Alemanha, inclusive, está a adiar os planos de abandono do carvão, depois do encerramento ideológico das suas centrais nucleares.
O governo Sanchéz embateu de frente com a realidade e vê-se agora obrigado a recuar. A falta de estratégia séria para o setor da energia na península ibérica é exasperante. O apagão de Abril de 2025 veio pôr a nu as debilidades do sector energético ibérico. É uma questão de tempo até vermos mais inversões de marcha e mea culpas como a que assistimos com o hidrogénio verde.
Esta aposta no nuclear do governo de Espanha parece surgir em contraciclo com as notícias deste verão. Lendo as notícias, dá a entender que a capacidade nuclear europeia está toda desligada. Em França, o baixo nível e alta temperatura dos rios obrigou a que alguns reatores fossem desligados ou vissem a sua potência reduzida por questões de proteção ambiental. Mais recentemente, a central de Gravelines teve de parar devido a alforrecas. Já na Roménia e na Hungria, os reatores arrefecidos pelo Danúbio, que regista um dos seus níveis mais baixos de sempre, tiveram de ser desligados, comprometendo o fornecimento de eletricidade à indústria desses países.
Tudo isto precisa do contexto certo, algo que a imprensa internacional tem falhado em analisar. A grande capacidade renovável da Roménia e da Hungria, onde está? Porque são incapazes de ser o garante da indústria destes países? Se é algo que a Europa tem de aprender da pior maneira é que o solar e o eólico são incapazes de substituir a geração de base que as centrais térmicas providenciam. Aliás, o calor afeta todas as centrais térmicas do mesmo modo, como é o caso das centrais a carvão Polacas, mas não gera títulos noticiosos tão bombásticos. A produção eólica está em mínimos há mais de um mês e o solar desaparece todas as noites. “Mas temos soluções para isso, como baterias, e armazenamento e hídrico e…”. E é esta dissonância cognitiva que custa combater e a imprensa não ajuda. Para as renováveis, qualquer desvantagem pode ser ultrapassada com mais tecnologia e alguma magia (como o hidrogénio verde). Para o nuclear, qualquer desvantagem é tratada como sendo o fim da linha. Algo como “tens de mudar de casa porque a luz da sala fundiu-se”. Há soluções mais do que comprovadas para combater os efeitos do calor. A França, que viu a sua frota nuclear ter a melhor performance num Julho nos últimos oito anos, irá finalmente investir em soluções para minorar os efeitos do calor (e algumas redes para alforrecas), após décadas de descuido. Espanha tem as suas centrais mais bem adaptadas ao calor e convém não esquecer que a segunda maior central nuclear americana, Palo Verde, fica no meio do deserto do Arizona. Temos muitas soluções, temos é de as implementar.
O prolongamento de Almaraz é uma excelente notícia para a Europa e para Espanha, que se veria obrigada a queimar mais gás. No entanto, algumas coisas terão de mudar. A carga fiscal que as centrais nucleares espanholas suportam é excessiva, e desenhada pelo governo Sanchéz para as tornar inviáveis. O governo espanhol proibiu a mineração de urânio para depois poder afirmar que Espanha não possui o mineral. Isto causou mais um imbróglio legal para Sanchéz, no meio de muitos outros.
A nova data de encerramento de Almaraz é 2030. Mas poucos acreditam que a central, que tem tido uma performance histórica exemplar e sofrido modernizações constantes (não, a central não está decrépita), encerre de verdade na próxima data. Eu aposto que a central chegará aos 60 anos de vida e espero estar por cá em 2043 para o celebrar.
