Em Portugal não há tradição de segundas voltas presidenciais. Mas, no próximo domingo, é esse o resultado mais provável. O que esperar a partir daí? Com base nos candidatos que as sondagens apresentam como tendo hipótese de passar à segunda volta, e com a ajuda dos politólogos Bruno Ferreira Costa, Paula do Espírito Santo e João Pacheco, antecipamos o que pode acontecer em dez cenários
Cenário 1. Ventura X Gouveia e Melo
Os três politólogos são unânimes nesta ideia: se André Ventura for à segunda volta, todos os outros candidatos que ficarem pelo caminho irão, de forma mais ou menos direta, apoiar o rival. Os analistas concordam que ninguém quererá contribuir para ter em Belém um candidato que é encarado como “antissistema”, “antidemocrático” e que “desvaloriza a atual Constituição”.
Além disso, vinca João Pacheco, apontar Ventura como possível presidente “abre a porta à sua validação enquanto primeiro-ministro”. Trocado por miúdos: se serve para Presidente da República, também serviria para primeiro-ministro.
“Nenhum partido tem a ganhar com a indicação de Ventura”, reitera Paula do Espírito Santo. E, por isso, neste cenário, Gouveia e Melo acaba por se tornar “um mal menor” – expressão repetida pelos restantes politólogos -, inclusive para os partidos mais à esquerda.
Este cenário fica particularmente difícil para Luís Marques Mendes, uma vez que um apoio claro a Gouveia e Melo, lembra Paula do Espírito Santo, seria “apagar uma campanha que acabou por assumir proporções de carácter pessoal”. O mais provável, diz, é que o candidato apoiado pelo PSD sugira “liberdade de escolha”.
Todavia, se a pressão mediática se impuser, e apesar do “batismo como ‘facilitador de negócios’”, João Pacheco acredita que, “entre um e outro”, Marques Mendes tenderia para Gouveia e Melo. “Tem experiência mais do que suficiente para não ser um homem ressentido”, diz.
Se Marques Mendes privilegiar a “dimensão pessoal” em relação a Gouveia e Melo, Bruno Ferreira Costa antecipa que “o PSD pode separar-se do seu candidato”, uma vez que existem muitos sociais-democratas a “respaldar” o almirante e com uma “expectativa muito forte de que este seja presidente”.
Este é o cenário, dizem os politólogos, que “abala o sistema”. Ventura é contra o sistema, Gouveia e Melo veio de fora dele, resumem. E, por isso, acreditam que candidatos e partidos tenderão a privilegiar o segundo. O almirante, concordam os politólogos, tem cultivado uma postura institucional, de compromisso, apreciada na função.
“Para Seguro, mais vale um fora do sistema do que um antissistema. Para Cotrim, como a Iniciativa Liberal disputa eleitorado com o Chega, Ventura traz mais dano eleitoral”, resume João Pacheco.
Cenário 2. Seguro X Ventura
Os politólogos ouvidos pela CNN Portugal repetem que não há nenhum partido, além do Chega, que deseje Ventura numa segunda volta ou em Belém. Por isso, antecipam que qualquer rival na segunda volta acabará por reunir o apoio daqueles que ficaram pelo caminho.
“É claro que Seguro terá a esquerda a seus pés”, indica João Pacheco. Ao centro e à direita é que se podem levantar dúvidas. Paula do Espírito Santo acredita que os partidos “poderão ganhar em fazer essa recomendação” do voto em António José Seguro.
Neste cenário, é a Cotrim de Figueiredo que se coloca o cenário mais difícil, apontam os analistas. Durante a campanha, uma das suas mensagens passava por vincar a importância de não votar num socialista para Belém. Apoiar Seguro seria inverter esse posicionamento. “Creio que Cotrim vai ter de engolir o sapo do mal menor. É mais fácil engolir este sapo do que validar um perfil presidenciável de Ventura”, diz Bruno Ferreira Costa.
Mesmo assim, acredita João Pacheco, “talvez seja mais fácil a Cotrim tomar partido por Seguro do que a Iniciativa Liberal, que acabaria acusada por Ventura e pelo Chega de fazer a direita cair em Belém”. Em resumo, candidato e partido que o apoia poderiam separar-se.
De resto, os politólogos não têm dúvidas de que Marques Mendes e o PSD estenderiam a mão a Seguro, pelo que dizem ser o seu “perfil mais ao centro, moderado”. Bruno Ferreira Costa lembra o argumento de Santana Lopes, que poderia acabar partilhado por mais sociais-democratas: “se Seguro for presidente, o cargo não está mal entregue”.
De Gouveia e Melo, remata Bruno Ferreira Costa, poderia vir o argumento de que Seguro, “embora apoiado por um partido, esteve 10 anos fora das lides políticas”, alimentando a sua própria narrativa de alguém que vem de fora do sistema para monitorizá-lo. Além disso, junta, “não quer ficar associado a um Ventura derrotado”, como indicam as sondagens caso o presidente do Chega vá a uma segunda volta.
Cenário 3. Ventura X Marques Mendes
Muda o opositor, mantém-se a lógica dos cenários anteriores: segundo os politólogos, ninguém se quererá associar a André Ventura na segunda volta. Contudo, neste cenário concreto, vincam, terá de ser a esquerda mais à esquerda do PS a “dar o braço a torcer” com maior intensidade.
João Pacheco antecipa que Seguro, José Luís Carneiro e os socialistas dariam um apoio claro a Marques Mendes, “vincando mais o sentido de Estado a experiência política do que o lado do homem de negócios”, com o argumento de que “aquilo que estaria em risco com Ventura em Belém era a própria Constituição”.
A maior dúvida, antecipam os analistas ouvidos pela CNN Portugal, está em Gouveia e Melo, dados os ataques diretos a Marques Mendes. “Haveria alguma dificuldade em declarar apoio a um ‘facilitador de negócios’”, considera Bruno Ferreira Costa. E, mesmo tendo havido “uma espécie de pacto de não agressão com Ventura”, que buscou alianças pré-eleitorais com o almirante, não seria de esperar que o militar viesse apoiar um dos “extremos que tanto critica”, junta.
Resta ao almirante uma fuga para a frente, sem compromissos no espaço público, conclui Bruno Ferreira Costa: “pode ser entendido como estando a colocar os dois candidatos no mesmo patamar. De um lado o radicalismo, do outro quem utiliza o serviço público para benefício próprio”.
Cenário 4. Cotrim de Figueiredo X Ventura
Bem-vindos àquele que Bruno Ferreira Costa define como “o cenário pesadelo para toda a esquerda”. Com os dois candidatos mais à direita a disputar Belém, seria, concordam os restantes politólogos, difícil que à esquerda do PS alguém viesse publicamente assumir uma posição.
Ainda assim, os especialistas em ciência política reiteram a sua teoria: tudo menos Ventura. Mesmo que esse tudo seja Cotrim de Figueiredo. Lembram os politólogos que, à esquerda, Cotrim também é encarado como um “radical”, à custa, por exemplo, do desejo liberal de flexibilizar a legislação laboral – um campo onde, diz Paula do Espírito Santo, a esquerda procura dar “prova de vida”.
“Esta esquerda deverá ativar o sentido de sobrevivência e acentuar o seu lado de força de bloqueio também a Belém”, aponta Paula do Espírito Santo.
“Do PS haveria um sentido de Estado, um compromisso institucional, não colocando Cotrim e Ventura na mesma balança”, aponta Bruno Ferreira Costa. Já Gouveia e Melo e Marques Mendes, diz, cairiam “naturalmente” para o lado de Cotrim, sabendo que este “leva a vantagem”. E neste cenário, “Marques Mendes deverá sair de cena, até porque o seu espaço foi limitado por quem não esperava. Cotrim foi ganhando terreno à Aliança Democrática”, antecipa Paula do Espírito Santo.
Cenário 5. Gouveia e Melo X Seguro
Segundo os politólogos, este é um dos cenários que poderá dividir Marques Mendes e o PSD, uma vez que não fará sentido ao antigo comentador televisivo apoiar alguém que o tentou colar à imagem de “facilitador de negócios”.
“Como Seguro nunca o hostilizou, encontra uma narrativa, independente da relação com o PSD e Montenegro, para apoiar Seguro”, resume Paula do Espírito Santo, lembrando que entre os sociais-democratas haverá mais quem, neste cenário, “prefira ver o almirante” em Belém.
“Não sei se Marques Mendes terá tanta capacidade para fazer com que os apoiantes o sigam. Talvez porque a direita, mesmo moderada, não goste de Seguro”, reitera João Pacheco.
Tendo o socialismo como inimigo comum, André Ventura e Cotrim de Figueiredo poderiam cair para o lado de Gouveia e Melo. Todavia, os analistas acreditam que o liberal procuraria esquivar-se mais de uma posição pública, uma vez que teria de pôr na balança, diz Bruno Ferreira Costa, “a experiência política de Seguro” e o “espírito ‘outsider’” de Gouveia e Melo.
“Cotrim não ganha nada nem com um nem com o outro”, resume Paula do Espírito Santo.
Já Ventura, para “alimentar a sua própria narrativa” de ser alguém fora do sistema, poderá acabar a apresentar Gouveia e Melo como “um candidato fora do sistema”, diz João Pacheco. “Ao ponto de ser elástico e hábil e colocar a máquina do Chega a apoiá-lo, se perceber que há hipóteses de vitória”, junta.
Cenário 6. Marques Mendes X Gouveia e Melo
É mais um cenário de possível separação entre o candidato e o partido que o apoia, indicam os politólogos. Desta feita, António José Seguro e o PS.
“Marques Mendes pode ter o apoio de Seguro, mas não necessariamente de todos os apoiantes. Acham que tem um estilo próximo de Marcelo Rebelo de Sousa, que está preso ao Governo, à direita do PSD. Há limites no clubismo partidário. Por isso, há socialistas que podem fugir para Gouveia e Melo”, acredita João Pacheco.
Bruno Ferreira Costa argumenta que “a posição de José Luís Carneiro é mais determinante”: “não é de excluir um apoio a Gouveia e Melo, até para não colocar os ovos todos no mesmo cesto, deixar o sistema respirar” sem alguém do PSD em Belém a monitorizar o PSD de São Bento.
Neste cenário, lembra Paula do Espírito Santo, é difícil perceber o que vai pesar mais: a “hostilidade dos partidos a Gouveia e Melo” ou a “força do sistema” que ele vem desafiar?
Mais clara seria a posição de Ventura, que, diz a mesma politóloga, regressaria ao espaço da oposição parlamentar. Em linha com Bruno Ferreira Costa, que vê Ventura a apoiar Gouveia e Melo “para não dar mais um prémio ao PSD, numa perspetiva antissistémica”.
Já Cotrim de Figueiredo deveria alinhar por Marques Mendes, vincando “a experiência, a capacidade de ouvir e a abertura à sensibilidade da Iniciativa Liberal”, aponta João Pacheco. Além disso, junta Bruno Ferreira Costa, “a expectativa liberal de vir a fazer parte de um governo só será possível com uma boa relação com o PSD”.
À esquerda do PS também poderia haver surpresas neste cenário. Os politólogos admitem a possibilidade de partidos como Livre, Bloco de Esquerda e PCP apoiarem Gouveia e Melo para haver aquilo que dizem ser uma “figura de oposição ao Governo” em Belém, que lhes permita também, na expressão de Paula do Espírito Santo, “sobreviver” no Parlamento.
“Contudo, se Ventura estiver próximo de Gouveia e Melo, a esquerda poderá preferir o ‘facilitador de negócios’ a um facilitador de Ventura”, conclui João Pacheco.
Cenário 7. Gouveia e Melo X Cotrim de Figueiredo
À CNN Portugal, os politólogos antecipam muitas dúvidas neste cenário, sobretudo do lado de Seguro e do PS. Do lado de Marques Mendes – e não necessariamente de todo o PSD, alertam – é mais claro: apoiaria Cotrim de Figueiredo.
“Pelo eleitorado que o suporta, partilhado com a AD, pelo lado pessoal e pela proximidade democrática”, argumenta Bruno Ferreira Costa. E também como resposta aos ataques pessoais do almirante de que foi alvo durante a campanha, vincam os politólogos. Ainda assim, são unânimes neste ponto: haveria muitos sociais-democratas a cair para o lado de Gouveia e Melo.
Entre os socialistas, haverá “sapos para engolir” nos dois lados desta barricada. “Até podia engolir o sapo Cotrim pela proximidade aos jovens, por ter a oportunidade de piscar o olho a um eleitorado mais jovem”, argumenta João Pacheco.
Contudo, Bruno Ferreira Costa antecipa “muita pressão no PS para garantir a eleição de Gouveia e Melo, com a preocupação de não ter um Presidente que valide uma revisão constitucional à direita. O almirante seria, pelo menos, uma possível barreira”.
Posição partilhada por Paula do Espírito Santo, que fala numa “inclinação mais natural em relação a Gouveia e Melo, que se posiciona ao centro e nunca hostilizou Seguro”. Mas, alerta, “a haver uma indicação, seria muito leve”.
Dilema semelhante se iria colocar à restante esquerda, dizem os politólogos, pela necessidade de um contrapeso à ação governativa e pelos receios de uma posição liberal em Belém.
De Ventura é que parece não haver dúvidas neste cenário: cai para o lado de Gouveia e Melo, para se “afastar do projeto partidário dos liberais”. “Gouveia e Melo é um ‘outsider’”, tal como Ventura se quer afirmar, insiste Bruno Ferreira Costa.
“Diria que, de todas as duplas, talvez fosse esta aquela em que Ventura, até por hostilização a Cotrim, procurasse valer a sua força política”, conclui Paula do Espírito Santo.
Cenário 8. Marques Mendes X Seguro
Este é, segundo os politólogos, o “cenário da moderação”. A esquerda estará com Seguro, a direita com Marques Mendes, dizem. Só resta uma dúvida: o que faria Gouveia e Melo, que procurou posicionar-se ao centro?
Embora João Pacheco acredite que o almirante procuraria escudar-se no silêncio, argumenta que tenderia para Seguro, até pelo foco que teve no ataque a Marques Mendes durante a campanha. “Mas isso pode não refletir-se diretamente nos seus apoiantes, que são tendencialmente mais de direita”, alerta.
“Não lhe restaria alternativa a não ser apoiar Seguro, face àquilo que disse. As críticas a Seguro não têm comparação em relação às críticas feitas a Marques Mendes”, reforça Bruno Ferreira Costa.
Para este último politólogo, Ventura encontraria o cenário ideal para se “alimentar como antissistema”, dado que o bipartidarismo que tanto critica voltaria a sair vencedor. Contudo, sendo a prioridade evitar que um socialista chegue a Belém, junta Bruno Ferreira Costa, Ventura poderia usar o apoio a Marques Mendes como uma “moeda de troca” junto do PSD.
“O mais provável é atirar culpas a Gouveia e Melo e Cotrim por não ter conseguido estar na segunda volta. Para ele, é um tanto faz. Volta a vestir o fato de líder do Chega”, fecha João Pacheco.
Cenário 9. Seguro X Cotrim de Figueiredo
Para os politólogos parece claro: a esquerda vai com Seguro, a direita com Cotrim. Contudo, como em tudo na vida, há nuances.
Paula do Espírito Santo lembra que, apesar de uma proximidade ao centro entre Seguro e Marques Mendes, a relação “não é totalmente recíproca”. E daí que possa cair para o lado de Cotrim de Figueiredo.
Os colegas de profissão concordam. “Pese embora Marques Mendes pudesse considerar que o perfil de Seguro é mais presidenciável, caminharia com o PSD no sentido de Cotrim, para mostrar ao eleitorado que é um candidato de centro-direita”, defende Bruno Ferreira Costa.
“Não sei se Marques Mendes não poderá ir para Cotrim, olhando para a sua base de apoio, que tem muitos jovens. A AD teria neste cenário uma oportunidade para conquistar jovens. E os mais velhos reveem-se mais em Cotrim do que em Seguro”, resume João Pacheco.
Os politólogos acreditam que, neste cenário, Gouveia e Melo cairia para o lado de Seguro, por se apresentar como um “moderado” e por “ambos partilharem o centro” político.
Resta André Ventura, que teria de optar pelo “mal menor” chamado Cotrim de Figueiredo, apesar das “resistências do eleitorado do Chega” à Iniciativa Liberal, diz Bruno Ferreira Costa. Por isso, na perspetiva de Ventura, resume, mais vale Cotrim do que o socialismo em Belém.
Cenário 10. Cotrim de Figueiredo X Marques Mendes
Para os politólogos, uma coisa seria certa neste cenário: Seguro daria a mão a Marques Mendes, pela “moderação” que o distingue de Cotrim. Até porque Cotrim de Figueiredo, lembra Bruno Ferreira Costa, tem, à esquerda, “níveis de rejeição próximos dos de Ventura”.
Dado o conflito com um carácter pessoal entre Marques Mendes e Gouveia e Melo, Cotrim poderia também contar com o apoio do almirante, antecipam. “O almirante procurará sempre demarcar-se e dar liberdade de voto”, vinca Paula do Espírito Santo.
Segundo os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, é em Ventura que se coloca o verdadeiro dilema neste cenário. “Para não apoiar o candidato do Governo, resta Cotrim, que não seria o seu aliado mais natural, mesmo que seja alguém menos ligado ao sistema”, avalia Bruno Ferreira Costa. Uma aproximação a Marques Mendes e ao PSD, diz, só como “moeda de troca”.
Por isso, os politólogos concordam que Ventura se focará em mostrar aos eleitores que regressa, nas palavras de Paula do Espírito Santo, “ao lugar onde faz a diferença”: a oposição no Parlamento.
Já Livre, Bloco de Esquerda e PCP, mesmo não assumindo categoricamente o apoio a Marques Mendes, poderão alinhar nesse sentido, preveem os politólogos. João Pacheco explica que o objetivo é evitar que um liberal em Belém “dê força à Iniciativa Liberal” na defesa de uma agenda que a esquerda quer evitar a todo o custo.