A 19 de agosto, o Cazaquistão e Portugal assinalam 34 anos do estabelecimento de relações diplomáticas. Ao longo destas três décadas, os dois países foram desenvolvendo uma relação que tem hoje espaço para crescer em novas áreas.
A mudança do mapa geopolítico e económico está, no entanto, a criar oportunidades que há alguns anos dificilmente estariam no centro da agenda de Lisboa e Astana. Uma delas é a conectividade entre a Europa e a Ásia — e, em particular, o transporte e a logística.
Um exemplo recente vem dos Estados Unidos.
A U.S. International Development Finance Corporation (DFC) está a apoiar a modernização do porto de Burgas, na Bulgária. O projeto prevê o aumento da capacidade portuária e pretende reforçar as ligações comerciais do Sudeste da Europa com a Ásia Central e o Médio Oriente.
A escolha de Burgas não é casual. O porto é apresentado pela própria DFC como uma peça de uma rede de transporte que ganha importância à medida que a Europa procura diversificar as suas rotas comerciais e as suas cadeias de abastecimento.
É aqui que o Cazaquistão entra na equação.
O país está no centro do chamado Corredor Transcaspiano, ou Middle Corridor, que liga a China à Europa através do Cazaquistão, do Mar Cáspio, do Cáucaso e da Turquia.
Nos últimos anos, esta rota deixou de ser apenas uma possibilidade no papel. O investimento em infraestruturas está a avançar, tanto por parte do Cazaquistão como da União Europeia e de instituições financeiras internacionais.
Segundo a Delegação da União Europeia no Cazaquistão, cerca de 2,5 mil milhões de euros foram comprometidos desde 2024 para projetos relacionados com o desenvolvimento do corredor, incluindo portos, ferrovias, logística e digitalização.
Em fevereiro de 2026, o Banco Mundial aprovou uma garantia de 846 milhões de dólares destinada a mobilizar financiamento privado para a modernização da rede ferroviária cazaque. O objetivo é aumentar a capacidade de transporte e reduzir significativamente os tempos de trânsito ao longo do corredor.
Tudo isto acontece a milhares de quilómetros de Lisboa. Mas é precisamente por isso que vale a pena olhar para o mapa com alguma atenção.
Portugal está no extremo ocidental da Europa. O Cazaquistão está no centro da Eurásia. À primeira vista, parecem estar fora da mesma equação logística.
Mas o comércio internacional não funciona apenas por proximidade geográfica.
Portugal tem Sines, um dos principais portos de águas profundas da Península Ibérica, com uma posição atlântica que lhe permite ligar a Europa a mercados de vários continentes.
O Cazaquistão tem uma posição completamente diferente: está no coração das novas ligações terrestres entre a China e a Europa e controla uma parte fundamental da rota que atravessa a Ásia Central em direção ao Cáspio.
Entre Sines e o Cáspio existe uma enorme distância. Mas também pode existir uma oportunidade.
Não significa que Sines vá tornar-se, de um dia para o outro, uma extensão do Middle Corridor. Nem que exista atualmente uma ligação direta entre os dois sistemas. Seria prematuro afirmá-lo.
A questão é outra: poderão Portugal e Cazaquistão encontrar formas de aproximar as suas posições dentro da nova geografia do comércio euro-asiático?
E isso não diz respeito apenas aos portos.
A expansão das novas rotas traz consigo procura por serviços de logística, engenharia, tecnologias digitais, sistemas de gestão de cadeias de abastecimento, energia e soluções para facilitar o comércio transfronteiriço.
São áreas onde empresas portuguesas já têm experiência e onde o Cazaquistão está a procurar parceiros e investimento.
A comemoração dos 34 anos de relações diplomáticas entre os dois países surge, assim, num momento particularmente interessante.
Durante muito tempo, Portugal e Cazaquistão estiveram ligados sobretudo por relações diplomáticas e comerciais ainda relativamente modestas. O contexto internacional está a mudar.
A questão agora é saber se Lisboa e Astana conseguem transformar essa mudança numa oportunidade concreta de cooperação.
Porque o novo mapa das ligações entre a Europa e a Ásia está a ser construído neste momento.
E Portugal, com a sua posição atlântica, pode ter mais a ganhar se começar a olhar para ele antes de estar completamente desenhado.
