Hip 1056, filho do campeão Flightline, foi vendido à Zedan Racing por 10,5 milhões de dólares no Leilão de Criadores de Ocala, em Ocala, Florida. O seu nome foi mudado para Zedan
A parede traseira do escritório de Bob Baffert em Churchill Downs está totalmente coberta por uma gravura feita à medida, criada pela esposa Jill durante a renovação do espaço do marido no hipódromo.
Na imagem, American Pharoah e Justify estão lado a lado, como se estivessem a cortar a meta numa corrida épica. É claro que isto nunca aconteceu. Pharoah conquistou a Tríplice Coroa em 2015, quebrando um jejum de 37 anos que gerou uma ovação quase catártica em Belmont Park. Três anos depois, Justify partiu para a glória, vencendo novamente o Kentucky Derby, o Preakness Stakes e o Belmont Stakes.
Baffert treinou ambos, sendo um dos dois únicos treinadores a levar dois cavalos à cobiçada Tríplice Coroa.
Ou seja, este reputado treinador sabe reconhecer um bom cavalo quando o vê, não só pela sua conformação, mas também pela sua presença. Numa tarde de primavera recente, Baffert foi ao seu estábulo na Califórnia visitar um poldro recém-adquirido. O cavalo acabara de galopar em Santa Anita, confirmando o que o treinador vira à primeira vista: que era um verdadeiro atleta, com todas as ferramentas físicas para alcançar algo mágico.
Contudo, de volta ao estábulo, Baffert acabou por ver algo mais. O cavalo olhou praticamente para os olhos do treinador, transmitindo-lhe uma mensagem que Baffert interpretou no imediato.
“É como se ele soubesse que é um tipo duro”, diz Baffert à CNN Sports, no seu escritório nas traseiras de Churchill Downs. “Os grandes sabem. Sabem que são duros”.
Baffert não dá o pormenor final, mas a ideia fica a pairar no ar no seu gabinete. É bom que seja mesmo duro. Porque o cavalo, entretanto batizado de Zedan, foi vendido em abril por 10,5 milhões de dólares no Leilão de Criadores de Ocala, na Florida. É o segundo preço mais alto alguma vez pago por um poldro de dois anos na história da América do Norte. Fica só atrás de um cavalo chamado The Green Monkey, que foi vendido por 16 milhões de dólares em 2006.
A venda de cavalos é um verdadeiro luxo para quem é excecionalmente rico. A compra dos equídeos é feita com base em algo superior a um desejo ou oração. Contudo, com um menor retorno garantido. Um cavalo vale apenas o que um humano está disposto a pagar por ele. O valor é frequentemente determinado pela linhagem e pelo potencial. Zedan é filho de Flightline, o cavalo do ano de 2022, que se retirou invicto após seis corridas, e a égua filha de Into Mischief, o melhor garanhão da atualidade.
Ainda assim, como um poldro de dois anos, Zedan acaba por fornecer um pouco mais de informação. Já treinou, o que permitiu que pessoas como Baffert fizessem uma avaliação legítima das suas capacidades como cavalo de corrida. Numa quinta em Ocala, Zedan – então apenas conhecido como Hip 1056 – correu um furlong [201,168 metros] em nove segundos e três quintos. Qualquer tempo abaixo dos 12 segundos é considerado rápido.
“É como se estivéssemos a comprar o (Fernando) Mendoza [atleta de futebol americano] depois de ele já ter saído do Combine”, diz Baffert. “Vocês sabem porque é que ele é o número 1”.
Isto gerou muita expectativa em relação à venda, levando Baffert a alertar o seu interessado, Amr Zedan: “Ele vai ser caro”.
Zedan é um empresário saudita nascido nos EUA – e o cavalo acabou por receber este nome em homenagem ao pai. Entrou no mundo das corridas de cavalos há apenas uma década. Antigo jogador de polo, foi um grande defensor da modalidade e dono de uma equipa na Arábia Saudita. Acabou por migrar para os cavalos de puro-sangue quando, em 2016, teve a oportunidade de ser sócio de um cavalo para o Dubai World Cup.
California Chrome, o vencedor do Kentucky Derby de 2014, venceu também no Dubai, dando a Zedan um gostinho de sucesso.
Determinado a não ser um mero figurante, Zedan abriu o seu próprio estábulo em Lexington e montou a sua própria equipa de corridas, trabalhando para garantir os melhores cavalos, garanhões e treinadores. Foi isso que o levou até Baffert. Estando apenas no quinto ano neste ramo, Zedan pensou ter encontrado uma mina de ouro.
O seu cavalo Medina Spirit, treinado por Baffert, cruzou a linha de chegada meio corpo à frente de Mandaloun, vencendo o Kentucky Derby de 2021. Contudo, posteriormente, acabaria a testar positivo para um anti-inflamatório, permitido para uso, mas não no organismo do cavalo no dia da corrida. Foi algo que deu início a um longo processo de testes e que culminou com a desclassificação do cavalo como vencedor do Derby. Zedan não só lutou contra este facto, como também contra a suspensão de Baffert por três anos - suspensão que custou a Zedan a hipótese de correr com Muth, um cavalo treinado por Baffert, no Derby de 2024.
Não diria que estou com fome de um vencedor do Derby. Estou é faminto", diz Zedan à CNN Sports.
Contudo, não abriu a carteira sem antes considerar a possibilidade de comprar Zedan. Abordou a venda da mesma forma com que olha para a maioria dos seus empreendimentos comerciais, tomando consciência de que o facto de se rodear dos melhores aumenta as hipóteses de obter grandes resultados.
Foi por isso que confiou em Baffert, bem como no agente de cavalos de corrida Donnato Lanni, para avaliarem adequadamente o cavalo. Entrou com os olhos bem abertos, consciente de que haveria uma guerra de licitações.
Lanni dominou o leilão, superando tanto a Lane’s End, uma quinta de Versailles, no Kentucky, como um consórcio de proprietários do Jockey Club, que tinham reunido recursos para tentar arrematar o cavalo. Baffert acompanhou tudo através do portátil, a partir da Califórnia. Soltou uma gargalhada quando o placar com o preço do cavalo desapareceu por um instante.
“Não pensei que alguma vez fosse chegar àquele nível”, diz.
Os números continuaram a subir, alcançando os sete e os oito milhões, até atingirem o pico na proposta vencedora de Zedan.
“Algumas pessoas pensam que sou louco. Mas, mais uma vez, rodeei-me de profissionais. Isso minimiza o risco. E o cavalo não sabe quanto é que custa, certo?”, refere Zedan.
Por agora, Baffert está de olho no cavalo, garantindo que se mantém em forma e saudável. Eventualmente, acabará por soltá-lo, para confirmar se o investimento vale mesmo a pena.
A título de curiosidade, The Green Monkey, o cavalo de 16 milhões de dólares, estreou-se em setembro de 2007. O favorito, com apostas de 2-5, terminou em terceiro lugar. Um mês depois, participou numa corrida de sete furlongs para cavalos não vencedores. Num campo de sete concorrentes, terminou em quarto lugar. Reformado pouco tempo depois para reprodução, também não teve sucesso nesta função. Em 2018, depois de lutar contra a laminite, foi eutanasiado.
“Tento ser muito cauteloso”, diz Zedan. “Quero que seja saudável, livre de azares e que chegue às corridas. Espero que seja bom para nós, bom para a indústria e um bom garanhão um dia. Só o tempo o dirá, certo?”.
