Cavaco escreveu, Cavaco falou, Cavaco dividiu: é "ressentido" e "tem defeitos de personalidade", "é o político vivo a quem devemos mais"

6 jun, 12:45

As reações ao que o ex-Presidente disse à CNN e escreveu no Observador

Depois de um longo período sem dar uma entrevista a uma televisão, todos queriam ouvir aquilo que Cavaco Silva tinha para dizer na "exceção" que abriu à CNN Portugal. Até porque, segundo o próprio, não sabe se voltará "a abrir outra exceção no futuro". A entrevista surgiu depois de Cavaco Silva ter assinado um artigo no Observador sobretudo dirigido a António Costa.

Numa entrevista exclusiva de 42 minutos à CNN Portugal, dedicou 36 a falar sobre o passado e o futuro do PSD. No restante tempo, falou sobre a guerra, a regionalização e os netos. As reações foram várias. Comecemos pela do seu sucessor, Marcelo Rebelo de Sousa.

Marcelo comenta sem comentar

O atual Presidente da República disse que prefera não comentar as declarações de Cavaco Silva, mas garantiu que quando sair de Belém vai ter uma postura diferente. "Depois de ter sido tão interventor durante toda a vida, quero aproximar-me o mais possível da visão minimalista. Contrastando com o maximalismo da minha vida quase inteira. Mas são opções". 

"Um antigo Presidente da República não perde a sua cidadania e, portanto, tem direito a exercer a sua cidadania como entende. (...) Agora, quando eu deixar de ter essa incumbência, acho que devo fazer o contraste. Dar espaço àqueles que em cada momento estão a intervir politicamente", acrescentou

Ana Catarina Mendes: "azedume e ressentimento" de Cavaco Silva

Foi numa entrevista ao Jornal de Notícias e à TSF que a ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares criticou Cavaco Silva por falar "sempre com um sentimento de azedume e ressentimento perante o país". Ao contrário do ex-chefe de Estado, Ana Catarina Mendes diz ter "muita esperança no país que temos". 

Questionada sobre o artigo que o antigo Presidente publicou no Observador, a ministra disse que Cavaco se limitou a criticar, sem dizer o que quer para o país. "Limita-se a dizer que está tudo mal. E, por isso, há algum despeito com a maioria absoluta" do PS.

António Lobo Xavier: "É o político vivo a quem o país mais deve neste momento"

António Lobo Xavier, no programa "O Princípio da Incerteza", começou por dizer que tem "uma admiração grande, pessoal e política, por Cavaco Silva". Depois de feita a declaração de interesses, o comentador da CNN Portugal confessou que se divertiu a ver e ouvir as reações da esquerda. 

"Aquilo que mais me divertiu foi ver a esquerda, os comentários dos analistas de esquerda. Porque, subitamente, o Cavaco que fala pouco e que é de uma grande parcimónia nas suas declarações passou a ser o Cavaco que fala demasiado e que devia estar reservado no seu estatuto de antigo Presidente da República", argumentou.

Lobo Xavier gostou de tudo o que Cavaco Silva disse e admitiu que lhe causa "impressão" o sectarismo da esquerda. "Cavaco, para mim, digam lá o que disserem (...), é o político vivo a quem o país mais deve neste momento."

Ainda assim, reconheceu que o antigo Chefe de Estado "não é o exemplo do diálogo" mas acredita que era por ter esse espírito de 'mandão' que os portugueses confiaram o seu voto nele.

"Cavaco não era de facto um exemplo do diálogo permanente. Não era Guterres. Não era um exibidor diário de conversas e de tolerância com a opinião dos outros e com sentidos diferentes das propostas dos adversários. Mas ele próprio lembra que muito do que fez fez com o PS." 

O comentador disse ainda que as palavras de Cavaco faziam falta porque "o PSD está tão frágil que nem protege a sua história". "O partido não tem sequer força para falar sobre Passos Coelho ou sobre Cavaco Silva. E é por isso que António Costa teve oportunidade de, no meio do seu discurso de posse e sem vir a propósito, mandar um chiste sobre as maiorias absolutas de Cavaco Silva e ninguém do PSD se levantou a gritar contra esse chiste." 

Pacheco Pereira: "O esquecimento do seu papel e da sua função não é bom para a democracia portuguesa"

Para José Pacheco Pereira, Cavaco Silva foi um "muito bom primeiro-ministro" e quanto a isso "não há volta a dar", mas já não tem a mesma percepção no papel que assumiu enquanto Presidente da República. "O PSD no tempo de Cavaco, e o próprio Cavaco, preocupava-se muito com as condições das pessoas que tinham uma vida mais difícil. Eu acho que ele foi um bom primeiro-ministro e isso, evidentemente, dá-lhe o direito para falar. Também estou de acordo que a maioria das coisas que ele disse é verdade." 

O comentador afirmou, ainda assim, "que Cavaco tem defeitos de personalidade" e que, de facto, tal como Ana Catarina Mendes referiu, "existe uma componente de ressentimento". No entanto, ressalvou que "o esquecimento do seu papel e da sua função não é bom para a democracia portuguesa."

Alexandra Leitão: "Eu não acho que os ex-presidentes se devem remeter a um silêncio"

A ex-ministra da Administração Pública Alexandra Leitão considera que a entrevista a Cavaco Silva pode dar ao novo PSD um 'suplemento de alma'. "Eu acho que este apoio inequívoco que Cavaco veio dar a Luís Montenegro é importante." 

Ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa, a antiga governante não defende que um ex-Presidente da República tenha de se 'isolar' assim que abandona funções. "Eu não acho que os ex-Presidentes se devem remeter a um silêncio. Acho que foram pessoas importantes, marcantes num determinado período da vida da política portuguesa, provavelmente o político, em diferentes funções, que esteve mais tempo em funções políticas e acho normal que tenha intervenção política nos termos que entenda." 

Quando pensa em Aníbal Cavaco Silva, confessa, não é a palavra "diálogo" que lhe vem à cabeça. "Eu percebo a resposta que ele tentou dar a António Costa no discurso de tomada de posse, mas francamente não é o diálogo que caracterizaram os mandatos de Cavaco Silva." 

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