Catarina Martins quis puxar uma aliada para a esquerda mas Inês de Sousa Real só afastou a extrema-direita

10 jan, 19:40

Num debate em que se discutiu quem tem - ou terá - mais culpa pelo "abrir de porta à extrema-direita", o Bloco tentou chamar o PAN para a esquerda. Quanto a alinhamentos, Inês de Sousa Real não se comprometeu. Mas deixou uma garantia: não apoiará qualquer solução que envolva o Chega

Se dependesse de Inês de Sousa Real, o país não iria a eleições a 30 de janeiro. O chumbo do Orçamento do Estado para 2022 foi uma “irresponsabilidade” - é uma leitura na qual insistiu antes dos debates e que tem reforçado em todos eles. E agora, frente a frente com uma das protagonistas dessa decisão, fez questão de o dizer. “No nosso entender [isso] foi faltar ao país”, “foi abrir a porta à extrema-direita e à direita liberal”, “foi estender a passadeira para o crescimento de forças populistas antidemocratas”, vincou.

Catarina Martins não gostou e contrapôs que é o PAN quem está a abrir a porta à extrema-direita. Como? Citou a disponibilidade do PAN para apoiar um governo tanto à esquerda com à direita. “É um pouco estranho lançar preocupações sobre a extrema-direita quando abre a porta à possibilidade de apoiar um governo de direita, quando sabe que o PSD e o CDS nos Açores fizeram um acordo com o Chega, como fizeram com a Iniciativa Liberal.”

A coordenadora bloquista foi fazendo questão, sempre que havia um gancho, de lembrar à adversária aqueles que considera ser os perigos da direita. E por isso pediu “clareza” - fê-lo até várias vezes. “A direita nunca será caminho. Dar a mão à direita é o que o PAN tem feito, quando diz viabilizar qualquer governo. Tem de fazer escolhas claras.”

Com o avançar do frente a frente, Inês de Sousa Real traçou metas para o combate às alterações climáticas, para o reforço do Serviço Nacional de Saúde ou para a subida dos salários. Catarina Martins aproveitou esses temas para voltar à abertura do PAN para viabilizar um governo de direita. “Acha mesmo que com a direita alguma vez poderá ter um caminho ambiental? É à esquerda que estão as soluções para o SNS, para o salário mínimo nacional e para o clima.”

Mas Inês de Sousa Real insiste que não há qualquer decisão tomada. As “causas” falarão mais alto após a noite de 30 de janeiro, já que para o PAN, diz a sua líder, o binómio esquerda-direita não faz sentido. Daí a apoiar “todo e qualquer governo”, vincou, vai uma grande diferença. “Não se confunda isso com o facto de dizermos que vamos viabilizar todo e qualquer governo.”

E garantiu: se o Chega fizer parte da solução, a porta está definitivamente fechada. Ou melhor, a mão do PAN não estará estendida.

Inês de Sousa Real fez questão de vincar a "irresponsabilidade" do Bloco no chumbo do Orçamento (Foto: RTP)

A taxa da discórdia

Inês de Sousa Real gostava que o Bloco tivesse dado uma oportunidade para o Orçamento do Estado “chegar à especialidade”. Até porque já tinha garantias de António Costa em várias matérias, como as carreiras dos técnicos auxiliares de saúde ou a descida do IRS. “Havia um caminho que estava a ser feito e que se perdeu”, lamentou. Na resposta, Catarina Martins garantiu não ter encontrado no documento “as soluções” de que o país precisava.

Sempre que teve a palavra, a bloquista quis lançar o tema do combate às alterações climáticas para cima da mesa. Para vincar que Bloco e PAN podem “trabalhar juntos” – como quem procurava puxar a adversária para a esquerda.

A porta-voz do PAN lembrou que, por duas vezes, o Bloco chumbou a taxa sobre o carbono proposta pelo partido, que tem a pecuária como um dos principais alvos. Catarina Martins justificou-se: há que fazer a distinção entre pequenas e grandes empresas e o caminho para uma economia verde não pode ser feito apenas com taxas e benefícios fiscais. São precisas “políticas públicas”, vincou.

“A taxa do PAN não fazia a diferença entre a pecuária intensiva e o pastorício tradicional”, rematou a bloquista. Inês de Sousa Real acabou a justificar que, mesmo no último caso, o grande incentivo deveria ser “incentivar a reconversão profissional”, deixando uma crítica ao Plano de Recuperação e Resiliência.

Combate às alterações climáticas marcou o debate, com soluções distintas (Foto:RTP)

A promessa que vale “um orçamento inteiro”

Na reta final do debate, Catarina Martins quis um esclarecimento sobre uma das medidas mais discutidas nesta pré-campanha: o Rendimento Básico Incondicional. “Parece que a Inês e o Rui [Tavares, do Livre] pedem um bocado desculpa pela proposta.”

"Não pedimos desculpa pela proposta", respondeu Inês de Sousa Real, clarificando que o PAN quer um projeto-piloto e dando exemplos concretos de cidadãos prioritários. A bloquista quis depois saber quanto custaria aplicar a promessa a 10,5 milhões de portugueses. Mas já tinha as contas feitas: 104 mil milhões de euros. “É um orçamento inteiro.”

“Não podemos prometer laranjas e oferecer limões às pessoas. Ninguém nos diga que isto se pode fazer com a direita”, concluiu a coordenadora do Bloco.

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