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Livro póstumo de Virginia Giuffre: vítima de Jeffrey Epstein recorda abusos sexuais do príncipe André

6 jul, 16:03
A Rapariga de Ninguém (DR)

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"Eu faço isto por todas as vítimas no mundo. Já não sou a rapariga jovem e vulnerável que podia ser manipulada. Agora sou uma sobrevivente, e ninguém me pode tirar isso"

O livro de memórias de Virginia Giuffre, uma das principais denunciantes da rede de abuso sexual liderada por Jeffrey Epstein, foi publicado em Portugal pela Editorial Presença com o título "A Rapariga de Ninguém". A obra, lançada originalmente em inglês como "Nobody's Girl: A Memoir of Surviving Abuse and Fighting for Justice", foi concluída poucas semanas antes da morte da autora, que se suicidou em abril de 2025, aos 41 anos.

Escrito em colaboração com a jornalista e autora Amy Wallace, o livro tem 360 páginas e constitui o testemunho mais completo de Giuffre sobre os abusos de que afirma ter sido vítima, o alegado esquema de tráfico sexual montado por Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell e a batalha judicial que travou durante anos para responsabilizar os envolvidos.

Na autobiografia, Giuffre relata a infância marcada por abusos, o recrutamento por Ghislaine Maxwell quando trabalhava num SPA em Mar-a-Lago e a forma como acabou integrada no círculo de Jeffrey Epstein. A autora afirma que foi traficada para fins sexuais quando tinha 17 anos, sendo obrigada a manter relações com vários homens influentes.

É na segunda parte do livro - intitulada "Prisoneira" - Giuffre conta como chegou à casa cor-de-rosa em Mar-a-Lago, como Maxwell a recebeu e como a levou a conhecer "o amigo dela", um "cavalheiro rico", cuja casa ficava em Palm Beach, a menos de três quilómetros do Mar-a-Lago.

"Quando chegámos ao muro alto em frente ao número 38, a última casa à esquerda antes da água, o meu pai tocou à campainha e falou pelo intercomunicador. Um portão abriu-se. Entrámos por um caminho ladeado de palmeiras e parámos diante de uma mansão enorme, com dois andares e seis quartos. Em inúmeros documentários de televisão, essa casa aparece pintada de branco, como ficou até anos mais tarde. Mas, no verão de 2000, era cor-de-rosa choque", relata Giuffre sobre a casa onde, segundo escreve, foi abusada por Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell quando tinha apenas 16 anos.

Giuffre conta ainda que em outubro de 2000, Maxwell "viajou de avião particular para Nova Iorque para se encontrar com um velho amigo, o príncipe André, terceiro filho da rainha Isabel II, que na altura era o quarto na linha de sucessão ao trono britânico."

Pouco tempo depois, foi a vez de a jovem de 17 anos os acompanhar numa viagem que passava por Nova Iorque, mas que tinha como destino final a ilha "Little Saint James, "mas Epstein gostava de lhe chamar ‘Little Saint Jeff'”.

Perante o duro relato de várias relações sexuais com Epstein e não só, Giuffre interrompe "a cronologia sinistra" para contar como faziam passeios divertidos em família à Fremantle Prision, a casa assombrada favorita da família Giuffre, para dar tempo ao leitor de "respirar".

Virginia em Nova Iorque. Fotografia tirada por Epstein

A 10 de março de 2001, Giuffre descreve que o dia "ia ser especial" porque Maxwell garantiu-lhe que "tal como a Cinderela, ia conhecer um belo príncipe". "O velho amigo dela, o príncipe André, jantaria connosco nessa noite, e havia muito a fazer para eu me preparar".

A autora conta que André, na altura com 41 anos, "estava então em relativa boa forma, com o cabelo castanho curto e um ar jovem no olhar", e que foi nessa noite que tirou a fotografia onde aparece com o ex-príncipe.

"Enquanto conversávamos à entrada da casa da Maxwell, ocorreu-me de repente uma coisa: a minha mãe nunca me perdoaria se eu conhecesse alguém famoso com o príncipe André e não tirasse uma fotografia com ele. Pedi licença, corri ao quarto a buscar uma Kodak FunSaver, voltei e entreguei-a a Epstein. Lembro-me de o príncipe me ter passado o braço pela cintura enquanto a Maxwell sorria ao meu lado. O Epstein tirou a fotografia", escreve. A respetiva fotografia ilustra este artigo.

Depois da fotografia, os quatro saíram para jantar e dançar e quando regressaram para casa de Maxwell esta informou Giuffre de que deveria "fazer por ele [André] o que fazia por Jeffrey".

"Em casa, a Maxwell e o Epstein desejaram-nos as boas-noites e foram para o andar de cima, indicando que estava na altura de eu tratar do príncipe. Nos anos seguintes, pensei muito na forma como ele se comportou. Ele foi simpático, mas ainda arrogante, como se acreditasse que fazer sexo comigo era um direito dele. Eu levei-o primeiro para a casa de banho, onde preparei um banho quente. Despimo-nos e entrámos na banheira, mas não ficámos lá muito tempo porque o príncipe estava ansioso por ir para a cama. Dedicou muita atenção aos meus pés, fez carícias nos dedos e lambeu as solas. Foi a primeira vez que me fizeram isso, e senti cócegas. Receei que quisesse que eu lhe fizesse a mesma coisa. Mas não precisava de me preocupar. Ele parecia ter pressa para chegar ao sexo em si. Depois, agradeceu com o sotaque britânico seco. Na minha lembrança, tudo aquilo durou menos de meia hora. Na manhã seguinte, ficou claro que a Maxwell tinha falado com o amigo da realeza".

Giuffre conta ainda que o segundo encontro com André "aconteceu cerca de um mês depois, na residência do Epstein em Nova Iorque". A vez seguinte aconteceu numa orgia em Little Saint Jeff's.

"Eu tinha cerca de dezoito anos - declarei num depoimento sob juramento em 2015 - O Epstein, o Andy, eu e cerca de outras oito raparigas jovens tivemos relações sexuais em conjunto. As outras aparentavam ter menos de dezoito anos e não falavam inglês. O Epstein ria-se por elas não conseguirem comunicar e dizia que eram as raparigas com quem era mais fácil lidar".

Os encontros com André cessaram em 2001, altura em que Giuffre consumia droga e saiu do círculo de Epstein. Mas em março de 2002, limpa das drogas, mas sem emprego e com o namorado Tony a só "fazer disparates" aceitou a oferta de Epstein que lhe prometera manter a polícia afastada e voltou para El Brillo Way, a mansão do financeiro.

No verão de 2002, Maxwell e Epstein levaram Giuffre - que no livro se apresenta como Jenna - para a ilha dele e pediram-lhe que tivesse um filho deles. 

"Terias amas a tempo inteiro para te ajudar. O Jeffrei compraria para ti uma mansão em Palm Beach ou em Nova Iorque, a escolha é tua. E terias uma mesada generosa", recorda, acrescentando que a mesada seria de 200 mil dólares por mês e implicava "ceder a Epstein e à Maxwell todos os direitos legais sobre a criança.

Giuffre não acedeu e pouco tempo depois, Maxwell e Epstein enviaram Giuffre para a Tailândia para ir recrutar uma rapariga. Foi aí que Giuffre colocou a sua vida "num rumo completamente diferente" e onde conheceu Robbie, com quem casaria dez dias depois de se terem conhecido. 

Virginia, na adolescência, pela altura em que conheceu Epstein e Maxwell

Nos capítulos finais, A Rapariga de Ninguém centra-se na luta judicial da autora e no processo que culminou na condenação de Ghislaine Maxwell, apresentando o percurso de Giuffre desde vítima de tráfico sexual até uma das vozes mais influentes na denúncia dos abusos cometidos por Jeffrey Epstein e pelo seu círculo.

Ao longo da obra, Giuffre defende que o objetivo nunca foi apenas contar a sua história, mas também dar visibilidade às vítimas de exploração sexual e denunciar as falhas institucionais que, na sua perspetiva, permitiram que a rede de Epstein operasse durante décadas.

Segundo a editora Alfred A. Knopf, algumas semanas antes da sua morte, Giuffre enviou um e-mail em que manifestava o desejo de que o livro fosse publicado independentemente das circunstâncias.

"Na eventualidade da minha morte, gostaria de assegurar que Nobody's Girl será lançado. Acredito que tem o potencial de ter impacto em muitas vidas e de promover os debates necessários sobre estas graves injustiças. É imperativo que a verdade seja compreendida e que as questões em torno deste tópico sejam abordadas, tanto por uma questão de justiça como de consciencialização", escreveu.

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