Esta startup construiu a primeira casa de dois pisos impressa em 3D no Japão. Agora quer resolver a crise da construção no país

CNN , Rebecca Cairns
27 jun, 16:00
Casa impressa em 3D
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Tecnologia tem sido há muito apresentada como uma solução capaz de poupar tempo, reduzir a necessidade de mão de obra, aumentar a segurança nos estaleiros e cortar substancialmente o desperdício

A indústria da construção no Japão enfrenta uma crise de produtividade, numa altura em que o aumento acentuado dos custos dos materiais e o envelhecimento da mão de obra ameaçam o futuro de um setor avaliado em 547 mil milhões de euros.

Mas uma casa impressa em 3D e resistente a sismos está a alimentar a esperança de que a manufatura aditiva possa ser a resposta.

Apresentada em fevereiro, a “Stealth House” é a primeira casa de dois pisos impressa em 3D no Japão. A startup de tecnologia de construção Kizuki colaborou com mais de 20 empresas, incluindo a ONOCOM, para criar a habitação, que cumpre os rigorosos códigos de construção sísmica num país onde os sismos são frequentes.

“Foi a primeira vez no Japão que um processo completo — desde a alimentação dos dados de projeto diretamente para a impressora, à construção contínua no local e, por fim, aos trabalhos de acabamento — foi concretizado com sucesso à escala de uma habitação de dois pisos”, disse Rika Igarashi, CEO da Kizuki, à CNN, por email.

Inspirada nas formações naturais das grutas, a casa, com seis metros de altura, 50 metros quadrados, demorou apenas 14 dias a ser impressa no local — desde as fundações até ao parapeito da cobertura — através de uma impressora gigante de pórtico, afirma Igarashi. As paredes exteriores recorreram a uma “estrutura oca” preenchida com uma armação de betão armado para cumprir os códigos de construção.

A tecnologia de construção impressa em 3D — 3D-printed construction, ou 3DPC — tem sido há muito apresentada como uma solução capaz de poupar tempo, reduzir a necessidade de mão de obra, aumentar a segurança nos estaleiros e cortar substancialmente o desperdício de materiais, permitindo ao mesmo tempo desenhos mais flexíveis e invulgares.

Mas governos e instituições têm sido cautelosos perante novas inovações na construção e lentos a atualizar os regulamentos, criando uma barreira à adoção.

A “Stealth House” da Kizuki é, porém, mais do que uma demonstração: a casa, situada na cidade de Kurihara, na prefeitura de Miyagi, foi vendida por um valor não divulgado, o que a empresa diz provar que existe procura.

A casa inspira-se nas formações naturais das grutas. ONOCOM Co., Ltd

Solução para a falta de mão de obra

A queda da natalidade e o envelhecimento da força de trabalho no Japão levaram a uma diminuição da população produtiva: no setor da construção, segundo alguns cálculos, 1,5 milhões de trabalhadores qualificados — 45% do total — deverão reformar-se na próxima década.

Daisuke Katano, managing partner da consultora japonesa de construção YCP, diz que a impressão 3D pode combinar “até sete profissões tradicionais em obra”. Isto pode simplificar a coordenação e reforçar a produtividade do Japão na construção residencial — que é menos de metade da registada nos Estados Unidos e praticamente não melhorou em décadas, diz Katano: “Recuperar sequer cinco a dez desses pontos percentuais valeria biliões de ienes, ou milhares de milhões de euros, em capacidade produtiva desbloqueada.”

A impressão da casa no local demorou 14 dias. ONOCOM Co., Ltd

Atualmente, as infraestruturas civis — como a primeira estação ferroviária impressa em 3D do mundo, ou uma estrada de 273 metros — representam cerca de 62% das aplicações de 3DPC no Japão.

Mas outros mercados, como a habitação de entrada de gama e a habitação de emergência pós-catástrofe, estão a crescer: Katano aponta para os bungalows económicos impressos em 3D da startup japonesa de construção Serendix, que foram usados para disponibilizar habitação rápida e acessível na sequência de um sismo de magnitude 7,5 na península de Noto, em 2024.

A Kizuki está também a olhar para oportunidades de fornecimento de habitação em regiões remotas e despovoadas, uma proposta que apresentou a representantes de sete municípios na conferência SusHi Tech, em Tóquio, na semana passada, um dos maiores eventos globais de inovação da Ásia.

“Mesmo em zonas com falta grave de trabalhadores qualificados, a 3DCP torna possível que uma pequena equipa de operadores construa edifícios de elevada qualidade”, diz Igarashi. “Nesse sentido, a tecnologia tem potencial para responder diretamente às desigualdades regionais no acesso à habitação.”

Receios no financiamento

Apesar dos elevados custos iniciais do equipamento de 3DPC, Igarashi diz que os principais desafios à adoção são “cada vez mais institucionais do que tecnológicos”.

“Do ponto de vista regulatório, o cumprimento das regras é atualmente confirmado através de pedidos individuais de aprovação de construção, caso a caso”, afirma. “Para uma adoção mais ampla e maior eficiência, serão necessários padrões técnicos específicos e enquadramentos regulatórios construídos em torno dos métodos de 3DCP.”

Tetsuya Ishida, professor de engenharia civil na Universidade de Tóquio, concorda: métodos de avaliação normalizados — como as orientações técnicas recentemente desenvolvidas pela Sociedade Japonesa de Engenheiros Civis — têm de ser adotados para reduzir a burocracia.

As paredes exteriores recorreram a uma “estrutura oca” preenchida com uma armação de betão armado. ONOCOM Co., Ltd

“Embora os reguladores tenham sido historicamente cautelosos, a maré está a mudar de forma significativa”, diz Ishida. O professor destaca a inclusão da impressão 3D no “Plano de Promoção da Introdução de Novas Tecnologias” do Governo, bem como o precedente criado pela “Stealth House”, como passos fundamentais para tornar os futuros processos de aprovação “dramaticamente mais simples”.

Embora Katano, da YCP, concorde que a “Stealth House” ajuda a dar mais credibilidade às casas impressas em 3D, “os riscos em relação à construção convencional continuam a ser substanciais” para os investidores, incluindo a falta de dados sobre durabilidade a longo prazo, a incerteza quanto à revenda destas propriedades e a cautela das seguradoras.

Além disso, um dos créditos hipotecários de longo prazo mais comuns no Japão exige uma área mínima de 70 metros quadrados para moradias isoladas, o que “exclui a maioria das unidades atuais do financiamento normal”, diz Katano.

“Isso limita o universo de compradores sobretudo a quem paga a pronto e a reformados, até que os produtos cresçam ou as regras de financiamento se adaptem”, acrescenta.

Um ecossistema automatizado

A startup Kizuki colaborou com mais de 20 empresas, incluindo a ONOCOM, para construir a casa. ONOCOM Co., Ltd

O Japão investe fortemente na construção automatizada desde a década de 1980 e lançou, em 2015, a iniciativa “i-Construction” — uma colaboração entre o Governo e o setor privado para digitalizar o setor e integrar soluções de tecnologias de informação nas máquinas de construção. Em 2024, a iniciativa foi prolongada para uma segunda fase, com o objetivo de reduzir a mão de obra em 30% até 2040.

“A 3DPC desempenha aqui um papel crucial enquanto tecnologia que materializa diretamente dados digitais no espaço físico”, diz Ishida. Estas tecnologias também podem atrair talento jovem para o setor, transformando a construção de um trabalho “exigente, sujo e perigoso” num trabalho “criativo, cool e desafiante”, acrescenta.

Embora a 3DPC não consiga, por si só, fechar a diferença de produtividade, Katano diz que, em combinação com outras tecnologias — como a pré-fabricação, um mercado avaliado em 22,7 mil milhões de euros no Japão em 2025, segundo a YCP, o design orientado por inteligência artificial e o equipamento pesado autónomo — há ganhos potenciais de produtividade de até 40% até 2030.

Entretanto, a Kizuki está a trabalhar na criação de uma “Academia 3DPC”, que prevê lançar ainda este ano, para formar operadores para um futuro em que a impressão 3D será o novo normal.

“A tecnologia de construção — especialmente a 3DCP — ainda é muitas vezes vista como algo quase futurista, até próximo da ficção científica”, diz Igarashi. “Só quando as pessoas veem imagens reais da construção, ouvem a história por detrás dela e participam numa conversa direta é que começam a reconhecê-la como um negócio real.”
 

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