MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

Casar faz bem à saúde? Estudo associa casamento a menor risco de cancro

CNN , Michal Ruprecht
31 mai, 22:00
Homens que nunca casaram apresentam taxas de cancro 68% mais elevadas do que homens que já foram casados. Entre as mulheres que nunca casaram, esse valor sobe para 83%, conclui estudo. Jamie Grill/Tetra Images/Brand X/Getty Images
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Uma investigação encontrou uma ligação entre casamento e menor incidência de cancro, sobretudo em determinados grupos. Especialistas apontam várias explicações possíveis

O casamento existe há milhares de anos e chegou a ser "quase universal", segundo Andrew J. Cherlin. Mas as taxas de casamento estão a diminuir e isso pode significar que algumas pessoas estejam a deixar escapar um potencial benefício para a saúde.

"É quase como se nos tivéssemos dividido em duas sociedades diferentes", afirma Cherlin, professor emérito da Universidade Johns Hopkins e especialista em sociologia da família, ao destacar as vantagens que o casamento pode proporcionar.

Um estudo publicado na revista científica Cancer Research Communications sugere que o casamento pode estar associado a um menor risco de cancro, reforçando o crescente número de investigações que relacionam a vida conjugal com melhores resultados de saúde.

Entre os homens que nunca casaram, as taxas de cancro são 68% mais elevadas do que entre aqueles que já foram casados - grupo que inclui divorciados e viúvos. Entre as mulheres que nunca casaram, a incidência é ainda mais elevada: 83%.

"Quando se trata do risco de desenvolver cancro, o casamento pode oferecer mais proteção às mulheres", afirma Brad Wilcox, professor da Universidade da Virgínia que estuda o casamento. Wilcox, que não participou na nova investigação, acrescenta: "É um resultado surpreendente."

As investigações sobre o casamento indicam, de forma geral, que os homens tendem a beneficiar mais do que as mulheres nas relações heterossexuais. Este estudo aponta precisamente no sentido contrário.

Os autores da investigação afirmam que esta conclusão terá provavelmente várias causas. Em alguns tipos de cancro, como os do endométrio e dos ovários, a tendência pode estar relacionada com mecanismos reprodutivos. As mulheres que nunca tiveram filhos apresentam um risco mais elevado de desenvolver estes tipos de cancro.

Entre os participantes mais velhos deste estudo observacional, a correlação revelou-se ainda mais forte, o que sugere que o efeito do casamento "se acumula" ao longo do tempo, explica Paulo S. Pinheiro, principal autor da investigação e epidemiologista do sistema de saúde da Universidade de Miami.

Quando os dados foram analisados por raça e etnia, os homens negros surgiram como o grupo que mais beneficia do casamento. Jarrod A. Carrol, geriatra da Kaiser Permanente, no sul da Califórnia, considera que esta conclusão reflete o "papel central da mulher negra".

"Elas dão apoio e incentivam os homens negros a procurar tratamento e avaliação médica mais cedo", afirma Carrol, que não participou na nova investigação. "O facto de a mulher negra funcionar muitas vezes como o principal pilar de apoio da família mostra o quanto está profundamente envolvida nos cuidados com o companheiro."

Porque é que o casamento traz benefícios?

Embora o conceito de casamento esteja em constante transformação, Andrew J. Cherlin diz que há uma questão central que continua por responder: será o casamento que torna as pessoas mais saudáveis ou são as pessoas mais saudáveis que têm maior probabilidade de casar?

O casamento costuma trazer vantagens como maior acesso a cuidados de saúde e apoio social. Os autores da investigação defendem também que pessoas que já foram casadas têm menos tendência para comportamentos de risco, apontando para dados que mostram uma forte ligação entre o casamento e taxas mais baixas de cancro do pulmão e do colo do útero. Estes tipos de cancro estão associados a comportamentos de risco, como promiscuidade, tabagismo e consumo de álcool.

Além disso, "se uma pessoa não é casada e está mais isolada, é menos provável que faça rastreios ou adote medidas de prevenção", afirma Pinheiro.

No entanto, Joan DelFattore, que passou a última década a escrever sobre cancro e estado civil em revistas académicas e meios de comunicação, defende que os benefícios associados ao casamento resultam muitas vezes de sistemas que favorecem pessoas casadas - mais do que do casamento em si. Por exemplo, muitos seguros de saúde alargam a cobertura ao cônjuge, mas excluem outras pessoas.

DelFattore, que não participou no estudo, afirma que políticas deste tipo ajudam a criar a ideia errada de que é o casamento, por si só, que conduz a melhores resultados de saúde.

"As pessoas partem do princípio de que ‘casamento é bom’ e ‘não casar é mau’ e acabam por interpretar os dados de formas que nem sempre fazem sentido", afirma. Segundo a investigadora, este preconceito - que considera estar enraizado tanto na investigação como na formação médica - conduz frequentemente a conclusões "demasiado simplistas".

Solteira e com cancro

DelFattore foi diagnosticada com cancro da vesícula em fase IV há 15 anos. Durante uma consulta com o oncologista, a investigadora - que não é casada - afirma que não lhe foi oferecido o mesmo nível de cuidados que teria sido dado a uma pessoa casada.

O oncologista "estava absolutamente convencido de que, por ser uma mulher solteira, eu não podia ter o apoio social necessário para lidar com um tratamento agressivo", afirma DelFattore, que contou a sua história na revista The New England Journal of Medicine. Mas a investigadora considera que a conclusão do médico estava errada.

"Tentei explicar-lhe que tinha primos e amigos que me davam uma rede de apoio muito forte. Ele interrompeu-me. Nem consegui acabar a frase."

A investigação mostra que pessoas solteiras em tratamento contra o cancro tendem a ter piores resultados clínicos, e DelFattore afirma que essas diferenças são agravadas por estereótipos ainda muito presentes entre os médicos.

"Existe esta ideia de que há uma divisão muito marcada entre ser casado e não ter companheiro", afirma.

No futuro, Pinheiro defende que deve haver mais investigação sobre formas de apoiar pessoas não casadas. DelFattore acrescenta que o foco não deve passar apenas por incentivar mais pessoas a casar, mas sobretudo por eliminar barreiras que deixam os doentes solteiros em desvantagem.

Pinheiro afirma também que esta é uma oportunidade para os médicos dedicarem mais tempo ao acompanhamento de doentes que não têm uma rede de apoio em casa. Para quem opta por permanecer solteiro, o especialista recomenda a criação de redes de apoio sólidas.

Estas redes de apoio tornam-se mais eficazes quando há pessoas disponíveis para acompanhar regularmente o doente, perceber como está e ajudar a orientar os cuidados de saúde sempre que necessário. DelFattore acrescenta que estas relações podem ser tão fortes quanto as conjugais.

"O vizinho pode perfeitamente ajudá-lo a entrar no duche", afirma DelFattore. "Há cuidados muito íntimos que podem vir de outras pessoas além do cônjuge. O apoio fora do casamento pode ser igualmente eficaz."

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Saúde

Mais Saúde