Especialistas ouvidos pela CNN alertam que, embora estas conversas possam ser inofensivas em relações seguras, transformar a fantasia em realidade pode gerar mágoa, ciúmes e pôr a relação em risco
Será que falar sobre paixões platónicas por celebridades com o(a) parceiro(a) - e conceder-lhe um "passe livre" para dormir com essa estrela caso alguma vez a conheça - é apenas uma brincadeira inofensiva ou uma receita para um potencial desastre? Essa é a questão que está no centro de uma nova comédia irreverente que satiriza a obsessão da cultura popular por celebridades e sexo - e, claro, pela estrela de Mad Men, Jon Hamm.
"Achámos que isto era algo com que os casais brincam, mas que nunca levam realmente a sério", explica David Wain, realizador e coargumentista de Gail Daughtry and the Celebrity Sex Pass. "Não acho que alguém leve isto verdadeiramente a sério - mas essa é precisamente a nossa ideia, muito fantasiosa: e se levassem?"
Embora o novo filme de Wain, que estreou no Festival de Sundance, em janeiro, com boas críticas, seja assumidamente disparatado e recheado de humor, especialistas em relações alertam que, na vida real, este tipo de acordos imaginários pode não ter assim tanta piada para alguns casais - algo com que até o próprio realizador concorda. "Acho que, quando se fala, mesmo a brincar, demasiado sobre com quem mais gostaríamos de ter sexo, talvez haja qualquer coisa na relação que mereça ser analisada", afirma.
Lançado nas salas de cinema na sexta-feira, Gail Daughtry and the Celebrity Sex Pass desenrola-se como uma versão tresloucada e carregada de desejo de O Feiticeiro de Oz. A protagonista, Gail Daughtry (interpretada por Zoey Deutch), é uma cabeleireira do Kansas que, em criança, fez de Dorothy numa produção escolar e que continua a gostar de usar sapatos vermelhos semelhantes aos da personagem. A vida de Gail sofre um duro golpe antes do casamento com o namorado de longa data, Tom (Michael Cassidy), quando o apanha em flagrante com Jennifer Aniston - a interpretar-se a si própria - depois de uma sessão de autógrafos. Poucos momentos antes, ambos tinham falado precisamente sobre o "passe livre" de Tom para estar com Aniston, mas a realidade da situação deixa Gail completamente destroçada. "Eu pensava que era apenas uma brincadeira! Não uma desculpa para teres sexo com a Rachel de Friends!", exclama.
De coração partido, Gail viaja para Los Angeles com o melhor amigo, Otto (Miles Gutierrez-Riley), e encontra uma vidente que lhe diz que, para "equilibrar a balança" e "nivelar o jogo" na relação, terá de encontrar e dormir com a sua própria paixão platónica: Jon Hamm, que surge numa participação especial na parte final do filme. Ao longo da viagem, Gail conta com a ajuda de um funcionário de uma agência de talentos sem grande inteligência (Ben Wang), de um paparazzo obcecado por conseguir uma fotografia de Hamm (Ken Marino, também coargumentista do filme) e de John Slattery, antigo colega de Hamm em Mad Men, que interpreta uma versão cobarde e decadente de si próprio.
Segundo Wain, os papéis das duas celebridades escolhidas como "passes livres" foram escritos especificamente na esperança de que Jennifer Aniston e Jon Hamm aceitassem brincar consigo próprios. O realizador, conhecido por comédias como Wet Hot American Summer (2001) e Role Models (2008), diz que trabalhar com grandes estrelas lhe ensinou que os atores compreendem que precisam de alimentar o seu sex appeal junto do público. "É só quando a coisa se torna pessoal que talvez se sintam um pouco desconfortáveis, ou quando alguém os aborda na rua e lhes faz uma proposta. Aí pensam: espera lá, não era isto que eu queria", explica. "Mas faz obviamente parte do trabalho quando nos expomos dessa forma."
A participação de Jennifer Aniston é particularmente apropriada, uma vez que foi precisamente Friends que ajudou a popularizar o conceito de "passe livre" para uma celebridade. Num episódio da série emitido em 1996, Rachel (Aniston) e o então namorado Ross (David Schwimmer) discutem quais seriam as celebridades com quem permitiriam que o parceiro tivesse relações sexuais. Mais tarde, Ross troca Isabella Rossellini por Winona Ryder na sua lista - apenas para encontrar Rossellini no Central Perk no final do episódio. O conceito voltou a ganhar destaque na cultura popular com o filme Hall Pass (2011), dos irmãos Farrelly, protagonizado por Owen Wilson e Jason Sudeikis, no qual dois maridos recebem das respetivas mulheres uma semana de "pausa" nos votos matrimoniais.
Os "passes livres" para celebridades são realmente uma brincadeira?
Desde então, falar sobre paixões por celebridades ou "passes livres" tornou-se relativamente comum em muitos relacionamentos, ainda que apenas em tom de brincadeira. Uma sondagem realizada no ano passado junto de dois mil britânicos, publicada pelo tabloide britânico Daily Star, concluiu que um quarto dos casais tinha um acordo de "sem compromissos" para um eventual envolvimento com uma figura famosa. Mais de metade dos inquiridos considerava que falar sobre paixões por celebridades era sinal de uma relação saudável. (Curiosamente, Jon Hamm não liderou a lista dos homens mais desejados de Hollywood, ficando atrás de Brad Pitt e George Clooney. Entre as mulheres, as favoritas foram Margot Robbie e Blake Lively.)
Apesar da popularidade destas conversas, especialistas em relações alertam que alguns casais podem estar a brincar com o fogo. "Acho que é uma má ideia", afirma Carrie Cole, diretora de investigação do Gottman Institute, organização que forma terapeutas de casais. "As pessoas podem falar sobre isso, mas a ideia e a realidade são duas coisas completamente diferentes."
Cole recorda um casal com quem trabalhou e que tinha acordado abrir uma exceção à sua relação monogâmica para uma pessoa específica - que nem sequer era famosa - por quem um dos parceiros fantasiava. "Quando isso realmente aconteceu, surgiram muitos sentimentos de mágoa", conta. "Pareceu uma violação dos votos que tinham feito um ao outro. Foi como dizer: ‘Eu sei que concordei com isto, mas nunca pensei verdadeiramente que fosse acontecer.’"
Já a psicóloga Alexandra Solomon, professora da Universidade Northwestern e autora de vários livros sobre relações, mostrou-se um pouco mais aberta à ideia de os casais falarem sobre "passes livres" para celebridades. Segundo Solomon, estas conversas podem ser inofensivas, divertidas ou até estimulantes, desde que "exista uma base sólida de segurança emocional na relação". A própria recorda ter conhecido Marisa Tomei numa festa e ter confessado à atriz vencedora de um Óscar que era a "paixão platónica autorizada" do marido. Segundo Solomon, Tomei reagiu com tanto humor que insistiu até em tirar uma selfie para lhe enviarem.
"Quando os casais estão felizes e se sentem emocionalmente seguros, brincar com estes limites da fantasia pode até ser erótico", explica. "Pode ser excitante imaginar que o nosso parceiro não nos pertence totalmente, que é um ser humano completo, com desejos e fantasias próprios."
Falar de celebridades, em vez do vizinho do lado, cria normalmente uma espécie de "segurança proporcionada pela distância", acrescenta Solomon, uma vez que a probabilidade de esse encontro acontecer é praticamente inexistente - a não ser, claro, que se seja Gail Daughtry.
"Não deem realmente um passe livre ao vosso parceiro", aconselha Wain, o realizador, "a menos que estejam dispostos a lidar com as consequências."
